Oleg é um excelente paramédico e um marido insuportável. Essa contradição simples sustenta quase duas horas de “Linha Tênue”, porque Boris Khlebnikov sabe que homens capazes de salvar desconhecidos da morte podem fracassar miseravelmente diante de alguém que dorme a seu lado. Oleg atravessa a cidade numa ambulância, toma decisões rápidas, enfrenta superiores estúpidos, percebe sintomas que os outros não veem e arrisca o emprego por pacientes a quem talvez nunca torne a encontrar. Em casa, bebe demais, fala de menos e parece genuinamente espantado quando Katya anuncia que quer o divórcio.
Aritmia, o título original, é uma definição muito mais precisa do estado daqueles dois. Não há exatamente ausência de amor, mas uma perda de ritmo. Katya ainda olha para Oleg como quem espera alguma coisa dele, e isso é muito pior que indiferença. Irina Gorbacheva captura esse ponto com uma atuação que quase nunca pede cenas ostensivamente dramáticas; sua personagem está cansada, e cansaço amoroso é um bicho complicado porque já passou da raiva, embora ainda não tenha chegado ao desprezo. Ela quer separar-se, mas os dois continuam dividindo o pequeno apartamento, os amigos, a intimidade, as noites em que bebem mais do que deveriam e aquela burocracia meio ridícula de desmontar uma vida construída a dois.
Oleg entre a ambulância e o casamento
Khlebnikov escreveu o roteiro com Natalya Meshchaninova e encontrou no sistema de emergência médica russo um segundo casamento igualmente disfuncional. Chega um novo administrador impondo protocolos, tempo máximo para atendimentos e a lógica segundo a qual eficiência pode ser medida no relógio, mesmo quando há um ser humano agonizando no chão. Oleg reage como reage a quase tudo, isto é, mal. Só que no trabalho sua insubordinação parece heroica. Ele ignora ordens para permanecer com um paciente, discute com superiores, extrapola funções e muitas vezes está certo. Em casa, a mesma convicção de que apenas ele compreende a gravidade das coisas torna-se arrogância.
É um truque bastante engenhoso do filme nunca separar inteiramente esses dois Olegs. Aleksandr Yatsenko não interpreta um médico virtuoso que se transforma num cafajeste ao chegar ao apartamento; leva para todos os lugares o mesmo homem, generoso e irresponsável, atento e egoísta, capaz de perceber em segundos que um desconhecido corre perigo e de passar meses sem notar que a mulher está exausta. Essa composição lhe deu o prêmio de melhor ator no Festival de Karlovy Vary em 2017, depois de “Linha Tênue” conquistar o Grand Prix do Kinotavr, e não é difícil entender a insistência dos júris naquele sujeito desajeitado, bêbado muitas vezes, que parece sempre a dois minutos de fazer uma grande coisa ou uma enorme besteira.
O filme cresce justamente quando se recusa a escolher um culpado para o casamento em decomposição. Seria muito cômodo transformar Oleg num alcoólatra egoísta e Katya na santa que suportou tudo até não aguentar mais. Khlebnikov não faz isso. Há intimidade demais entre eles para uma explicação tão barata. Em determinadas noites, bastam alguns copos, uma música, amigos espalhados pelo apartamento e os dois parecem ainda pertencer um ao outro. Na manhã seguinte, o pedido de separação continua sobre a mesa.
Katya e o que ainda resta
As cenas da ambulância podem sugerir que o diretor pretende denunciar uma medicina submetida à administração, mas também aí “Linha Tênue” não se acomoda no panfleto. Oleg tem razão em muita coisa e usa essa razão como salvo-conduto para não mudar em nada. É o tipo de homem que consegue converter até a própria virtude num defeito. Isso torna particularmente incômodos os momentos em que Katya lhe oferece uma saída, não necessariamente para salvar o casamento, mas para que ao menos ele compreenda o que está perdendo.
Gorbacheva e Yatsenko têm a intimidade imperfeita de quem não parece estar encenando uma relação. Eles se atropelam nas falas, evitam certas conversas, dormem próximos quando deveriam manter distância e brigam por questões menores porque as grandes são difíceis demais. Khlebnikov observa tudo sem tirar deles a dignidade e sem pedir que o espectador escolha um lado.
A arritmia do título está no pronto-socorro, na ambulância, naquela reforma administrativa que tenta fazer a vida caber numa planilha, mas está sobretudo no apartamento de Oleg e Katya. Um coração fora do ritmo ainda bate. A questão é saber por quanto tempo.

