Jason Statham está sozinho numa ilha escocesa, mora num farol, tem um cachorro e deseja que o mundo esqueça que ele existe. Não é preciso ser iniciado no cinema de ação para desconfiar que esse retiro espiritual vai durar pouco. “Missão Refúgio”, de Ric Roman Waugh, aceita sem constrangimento quase todos os lugares-comuns que cercam seu protagonista há vinte anos, mas introduz uma diferença importante: antes de quebrar ossos, Michael Mason precisa aprender a conversar com uma menina.
Jessie chega pelo mar durante uma tempestade, depois de uma tragédia que a deixa sob responsabilidade justamente do homem que menos parece preparado para cuidar de alguém. Mason não está naquela ilha à procura de iluminação ou sossego bucólico. Está escondido. O isolamento é um mecanismo de sobrevivência, e o roteiro de Ward Parry não demora a revelar que o passado desse sujeito passa por operações clandestinas, mortes, serviços para o Estado e gente poderosa que preferiria conservar determinados segredos longe de qualquer testemunha. Ao salvar Jessie, ele faz a única coisa moralmente possível e, por isso mesmo, destrói a própria segurança.
Mason e a volta à violência
Ric Roman Waugh começou a carreira como dublê e coordenador de cenas de ação antes de passar à direção, e essa formação continua muito visível em seus filmes. Em “Missão Refúgio”, socos têm peso, quedas doem e os corpos ocupam espaço real. A câmera não precisa enlouquecer para esconder atores incapazes de lutar. Com Statham acontece justamente o contrário: o diretor pode recuar e esperar. Ele sabe que o astro vende a violência física sozinho.
Esse talvez seja também o principal risco do filme. Statham virou uma espécie de gênero cinematográfico. Ao vê-lo de cabeça raspada, semblante fechado e casaco pesado, o espectador já sabe que alguém fará uma péssima escolha ao ameaçá-lo. “Missão Refúgio” não tenta desmontar inteiramente essa expectativa e seria tolice fazê-lo, mas Waugh alonga o primeiro ato mais do que o habitual para estabelecer Mason como alguém que de fato deseja não matar mais ninguém. Há um pequeno esforço para que cada retorno à violência pareça uma regressão, não apenas a entrega de uma atração aguardada pelo público.
A presença de Bodhi Rae Breathnach ajuda muito. Jessie não funciona como a mascote que oferece ao brutamontes a oportunidade de mostrar sua ternura entre duas carnificinas. Ela pergunta, observa, desconfia. Mason sabe lidar com armas, perseguições, vigilância e emboscadas, mas se embaraça diante daquela criança que depende dele e não está especialmente impressionada com seu currículo secreto. Aos poucos, a relação entre os dois dá ao filme o que nenhuma sequência de luta conseguiria oferecer sozinha: alguma coisa a perder.
Jessie muda o peso da ação
Quando Bill Nighy entra na trama, o passado de Mason deixa de ser apenas uma sombra útil e começa a ganhar rosto, hierarquia, justificativas de Estado. Nighy é especialmente adequado a esses homens que podem encomendar uma morte sem alterar o tom da voz, e o contraste com Statham, uma presença quase inteiramente física, funciona. Naomi Ackie integra esse universo de lealdades duvidosas no qual ninguém parece muito seguro de quem ainda trabalha para quem.
Waugh não inventa a pólvora. O homem de passado violento que se afeiçoa a uma criança e volta às armas para protegê-la já atravessou décadas de cinema, de westerns a thrillers policiais, e “Missão Refúgio” sabe muito bem a tradição em que se acomoda. Seu mérito está menos na novidade que na convicção. O diretor não trata o elo entre Mason e Jessie como intervalo obrigatório entre cenas de ação; precisa dele para que os confrontos tenham alguma consequência.
Statham, também produtor do longa, oferece pequenas variações de um personagem que conhece quase bem demais. Não há uma transformação teatral, lágrimas longas ou discursos sobre redenção. Mason continua econômico, desconfiado, desagradável às vezes. A menina apenas consegue abrir um espaço onde até então havia somente procedimentos para continuar vivo.
Quando os homens de seu passado finalmente chegam perto o bastante, “Missão Refúgio” volta ao terreno em que todos esperavam encontrá-lo, e Statham faz o que Statham faz. A diferença é que, desta vez, não está brigando apenas porque alguém cometeu o erro estatístico de provocá-lo. Há uma garota atrás dele. Isso basta.

