Cole Sear vê gente morta. A frase tornou-se tão conhecida que até quem nunca assistiu a “O Sexto Sentido” sabe pronunciá-la com a solenidade de quem revela um segredo, o que é uma injustiça com um filme muito menos interessado em fantasmas que na dificuldade de alguém acreditar na dor do outro. M. Night Shyamalan constrói seu clássico a partir de um menino apavorado e de um psicólogo cuja vida profissional depende justamente de compreender crianças assim, e durante boa parte dos 107 minutos os mortos são quase um detalhe desagradável no meio de uma história sobre abandono, culpa e confiança.
Malcolm Crowe pensa que conhece crianças. Bruce Willis diminui o volume da própria presença para interpretar esse psicólogo da Filadélfia, casado com Anna, respeitado, metódico, um homem que recebe até uma homenagem pública pelo trabalho antes que um antigo paciente atravesse a porta de sua casa e transforme a cerimônia doméstica numa tragédia. Algum tempo depois, Malcolm conhece Cole e vê no garoto uma oportunidade de reparar aquilo que acredita ter falhado no passado.
Cole Sear e o medo
Haley Joel Osment tinha onze anos quando o filme chegou aos cinemas e parece compreender uma coisa que muito ator adulto demora décadas para aprender, medo não é gritar. Cole mede as palavras, observa portas, percebe movimentos que os outros ignoram e desenvolve pequenos rituais para conservar alguma impressão de segurança. Quando finalmente conta a Malcolm o que vê, a célebre confissão não serve de truque para assustar o público. É um pedido de socorro.
A própria história da realização de “O Sexto Sentido” parece saída da ficção sobre um jovem diretor decidido a não perder o controle de sua ideia. Shyamalan negociou com a Hollywood Pictures um acordo de cerca de três milhões de dólares por seus serviços de roteiro e direção, impondo que comandaria o filme. A aposta era incomum para um cineasta que ainda não tinha poder em Hollywood, mas acabou rendendo seis indicações ao Oscar de 2000, incluindo Melhor Filme, Direção, Roteiro Original, Ator Coadjuvante para Osment e Atriz Coadjuvante para Toni Collette. O sucesso criou também uma armadilha: durante anos, qualquer longa de Shyamalan passou a ser aguardado como se tivesse a obrigação de esconder outra bomba no último rolo.
Esse é um jeito pobre de olhar “O Sexto Sentido”. A reviravolta funciona porque o filme já funcionava antes dela. Shyamalan espalha pelo caminho informações que parecem banais e só mais tarde adquirem outro peso, mas seu verdadeiro talento está em fazer com que o espectador aceite a relação entre Malcolm e Cole sem exigir demonstrações contínuas do sobrenatural. Os dois são solitários por razões distintas. Um adulto tentando recuperar alguma forma de utilidade; uma criança desejando apenas dormir sem recear que alguém surja no quarto.
Lynn Sear e a casa
Toni Collette impede que a dimensão fantástica sequestrasse o drama doméstico. Lynn, a mãe de Cole, trabalha, cuida da casa e vê o filho progressivamente isolado, sem saber se deve tratá-lo como doente, mentiroso ou vítima de alguma coisa que não alcança. A cena entre os dois dentro do carro, quando ele oferece uma informação que só a avó morta poderia saber, é uma das grandes razões para o filme ter envelhecido tão bem. Não existe susto, música ensurdecedora nem aparição. Só uma mãe percebendo que talvez o universo seja maior do que sua explicação para ele.
Shyamalan também é inteligente ao fazer dos mortos criaturas menos interessadas em aterrorizar Cole que em serem escutadas. O menino muda quando percebe que aquilo que o torturava pode, de algum modo, necessitar dele. Esse deslocamento devolve ao filme sua verdadeira natureza, quase uma história sobre vocação. Cole não deixa de ter medo. Aprende o que fazer com ele.
A última revelação tornou-se uma das mais célebres do cinema, imitada, parodiada e explicada até a exaustão. Ainda assim, quem retorna a “O Sexto Sentido” descobre que o golpe final é menos importante que os pequenos silêncios deixados antes dele. Fantasmas assustam. Não ser ouvido é pior.

