Na cidade litorânea de Lowestoft, no Reino Unido, o músico Jack Malik (Himesh Patel) decide abandonar uma carreira que nunca saiu dos pequenos bares. O plano muda depois de um apagão mundial, um acidente de bicicleta e uma descoberta bastante conveniente. Ninguém mais se lembra dos Beatles. Dirigido por Danny Boyle, “Yesterday” transforma essa premissa fantasiosa numa comédia romântica sobre fama, autoria e o preço de cantar obras alheias enquanto a pessoa mais importante fica cada vez mais distante.
Jack leva uma rotina pouco animadora. Ele toca em estabelecimentos quase vazios, participa de festivais sem público e insiste em composições próprias que raramente despertam interesse. Sua principal incentivadora é Ellie Appleton (Lily James), amiga de infância, professora de matemática e empresária nas horas vagas. Ela organiza apresentações, dirige o carro, carrega equipamentos e mantém uma confiança que o próprio cantor já perdeu.
Depois de mais uma apresentação frustrante, Jack anuncia que pretende desistir da música. Na mesma noite, um apagão atinge o planeta por alguns segundos. Enquanto pedala pelas ruas escuras, ele é atropelado por um ônibus e acorda no hospital com ferimentos no rosto e dois dentes a menos. Ellie permanece por perto, embora o amigo pareça disposto a encerrar de vez suas ambições artísticas.
Um mundo sem os Beatles
Durante uma reunião entre amigos, Jack ganha um violão e decide tocar “Yesterday”. A reação do grupo o desconcerta. Todos ficam impressionados com a beleza da canção e acreditam que ele seja o autor. Jack pensa estar diante de uma brincadeira, mas logo percebe que ninguém reconhece o nome dos Beatles nem conhece qualquer música da banda.
A pesquisa na internet piora a situação. Em vez de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, os resultados exibem apenas besouros. Os discos desapareceram, as gravações deixaram de existir e as pessoas não guardam qualquer lembrança do quarteto de Liverpool. Jack conclui que o apagão provocou alguma mudança inexplicável na realidade e que somente ele conservou aquele repertório na memória.
A oportunidade é tentadora. Jack começa a reconstruir as letras das canções, embora lembrar cada verso seja mais difícil do que cantar no chuveiro poderia sugerir. Ele espalha papéis pelo quarto, procura palavras perdidas e tenta recuperar dezenas de composições sem consultar discos ou partituras. O músico conhece os sucessos, mas a memória falha nos detalhes e transforma esse patrimônio cultural numa coleção incompleta de frases rabiscadas.
Jack então apresenta as músicas como criações próprias. O gesto melhora sua recepção entre amigos e produtores locais, mas também inaugura uma fraude difícil de interromper. Quanto mais elogios recebe, maior se torna o risco de admitir que aquelas obras pertencem a quatro homens dos quais ninguém se recorda.
As canções abrem novos caminhos
Ellie consegue uma gravação com Gavin (Alexander Arnold), um produtor local que trabalha num estúdio improvisado. O resultado ainda circula por um espaço limitado, porém as canções começam a despertar uma atenção que Jack jamais conseguiu com o material autoral. Pela primeira vez, sua carreira parece ter alguma possibilidade fora dos bares de Lowestoft.
A grande mudança ocorre quando Ed Sheeran, interpretando uma versão de si mesmo, ouve Jack numa apresentação televisionada. O astro britânico convida o músico para abrir um de seus shows. Jack aceita, pois sabe que aquela oportunidade pode levá-lo a uma plateia muito maior. Ellie, presa aos compromissos escolares, não consegue acompanhá-lo, e Rocky (Joel Fry), amigo atrapalhado e pouco afeito à organização, assume o posto de assistente.
Sheeran ainda propõe uma disputa de composição. Cada um terá poucos minutos para criar uma música e apresentá-la diante dos demais. Jack utiliza outra obra dos Beatles e vence o desafio, deixando o cantor famoso visivelmente abatido. A situação é engraçada pela desproporção. Sheeran acredita ter sido derrotado por um gênio desconhecido, enquanto Jack sabe que entrou na competição com uma vantagem de várias décadas.
O reconhecimento abre as portas da indústria fonográfica. Debra Hammer (Kate McKinnon), empresária de Sheeran, percebe o potencial comercial de Jack e passa a administrar sua ascensão. Ela fala de contratos, imagem, gravações e vendas com uma sinceridade quase cruel. Para Debra, o novo artista vale enquanto produzir dinheiro e ocupar espaço nas paradas.
A fama afasta Jack de Ellie
Kate McKinnon entrega algumas das passagens mais ácidas de “Yesterday”. Debra trata sentimentos como desperdício de agenda e enxerga a carreira musical pelo valor financeiro. A empresária oferece a Jack os palcos que ele sempre desejou, mas exige mudanças em sua rotina e em sua apresentação pública. O cantor deixa o circuito modesto do interior britânico e passa a frequentar estúdios, reuniões e eventos cercados por profissionais.
A ascensão também modifica sua relação com Ellie. Ela acompanhou Jack durante anos, mesmo quando ninguém parecia interessado em ouvi-lo, mas agora perde espaço para empresários e produtores. O músico gostaria de conservar a amiga por perto sem abrir mão das novas oportunidades. Ellie, porém, percebe que não pode continuar exercendo o mesmo papel enquanto os compromissos dele crescem e a distância entre os dois aumenta.
Lily James dá à personagem uma firmeza delicada. Ellie ama Jack, embora não aceite permanecer indefinidamente na posição de amiga, motorista e empresária improvisada. Sua presença impede que o romance vire apenas um intervalo entre números musicais. Ela representa a vida que Jack tinha antes da fama e também uma possibilidade afetiva que exige honestidade.
O problema é que honestidade se tornou um artigo raro na rotina do protagonista. Jack precisa sustentar a autoria das músicas diante do público, da imprensa e das gravadoras. Cada novo sucesso fortalece sua carreira e torna a confissão mais difícil. Himesh Patel trabalha bem esse desconforto, alternando entusiasmo, culpa e medo sem transformar o personagem num vigarista indiferente.
Uma fantasia cheia de canções
Danny Boyle imprime energia às apresentações e aos deslocamentos de Jack, mas preserva a intimidade necessária ao romance. O diretor usa os grandes palcos para mostrar o crescimento profissional do músico e retorna aos espaços menores quando a relação com Ellie exige atenção. Essa diferença de escala ajuda a perceber o quanto Jack ganhou em público e perdeu em proximidade.
O roteiro de Richard Curtis prefere acompanhar as escolhas pessoais do protagonista a investigar todas as consequências de um planeta sem os Beatles. Há perguntas interessantes que recebem pouco espaço. A música moderna seria a mesma sem a banda? Outros artistas teriam ocupado aquele lugar? Quanto da cultura popular teria mudado? “Yesterday” menciona algumas alterações curiosas, mas não transforma a história numa investigação rigorosa sobre uma realidade paralela.
Essa opção torna o longa mais leve, embora também limite sua premissa. O desaparecimento dos Beatles poderia render uma fantasia mais ousada, interessada na influência cultural do grupo. Curtis prefere usar as canções para aproximar e afastar Jack das pessoas ao redor. O centro permanece na disputa entre a fama recém-adquirida, a culpa pelo plágio e o sentimento que ele demorou demais para reconhecer.
Sophia Di Martino aparece como Carol, amiga que integra o círculo próximo de Jack e Ellie. Sanjeev Bhaskar e Meera Syal interpretam Jed e Sheila Malik, os pais do protagonista. Eles oferecem um contraste divertido com o entusiasmo do mercado musical. Enquanto empresários tratam Jack como uma revelação mundial, sua família ainda consegue interromper uma apresentação e quebrar qualquer solenidade doméstica.
O preço de uma canção perfeita
“Yesterday” funciona melhor quando observa Jack tentando administrar uma mentira grande demais para sua personalidade. Ele desejava ser ouvido, mas não esperava conquistar reconhecimento com obras que jamais escreveu. O sucesso resolve o problema da falta de público e cria outro bem mais grave. Agora, milhares de pessoas acompanham cada palavra de um homem que conhece a verdadeira origem das músicas.
A força do filme está na química entre Himesh Patel e Lily James. Jack e Ellie compartilham anos de amizade, frustrações e expectativas desencontradas. O romance cresce em meio aos shows, às ausências e às decisões profissionais, sem depender apenas do encanto das canções. Patel oferece vulnerabilidade ao músico, enquanto James impede que Ellie seja lembrada somente como a mulher paciente deixada na cidade natal.
Sem revelar a resolução, Jack chega ao ponto em que fama, amor e mentira já não cabem na mesma vida. Debra deseja preservar o artista lucrativo. Ellie precisa saber qual lugar ocupa. O público espera novas canções. Jack, sozinho com o violão e uma memória repleta de clássicos, precisa decidir quanto ainda está disposto a perder para continuar recebendo aplausos.
“Yesterday” não aproveita todas as possibilidades de sua excelente ideia, mas entrega uma comédia romântica agradável, musical e afetuosa. Danny Boyle mantém o ritmo, Richard Curtis oferece personagens carismáticos e Himesh Patel sustenta um protagonista dividido entre desejo e culpa. Quando Jack sobe ao palco, cada verso aumenta sua popularidade e aperta um pouco mais o espaço disponível para a verdade.

