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Edward Norton levou cerca de vinte anos para transformar “Brooklyn Sem Pai Nem Mãe”, o romance de Jonathan Lethem publicado em 1999, no filme que queria. E não queria filmar o livro como ele era. Transferiu a ação dos anos 1990 para 1957, inventou personagens, mergulhou a trama na política urbana de Nova York e transformou Moses Randolph, o personagem de Alec Baldwin, numa versão ficcional de Robert Moses, o homem que durante décadas redesenhou a cidade com pontes, avenidas, parques, desapropriações e uma quantidade incalculável de decisões tomadas sem precisar receber um único voto. Lethem deixou. Ainda bem.

No centro de tudo permanece Lionel Essrog, detetive particular cuja síndrome de Tourette faz com que palavras escapem de sua boca antes que consiga detê-las, um sujeito que parece condenado a dizer em voz alta justamente o que a sociedade sofisticada prefere manter silencioso. Frank Minna, seu chefe, mentor, pai improvisado e provável picareta, é assassinado, e Lionel decide entender por quê. Bruce Willis fica pouco tempo em cena, mas deixa o fantasma necessário para que as duas horas e vinte e quatro minutos seguintes não se reduzam a mais uma investigação sobre gente poderosa fazendo coisas que gente poderosa sempre fez.

Lionel Essrog e o crime

O primeiro acerto de Norton está em não transformar a condição de Lionel numa coleção de tiques concebidos para arrancar compaixão. O personagem é inconveniente, obsessivo, às vezes muito engraçado sem querer ser, mas também o homem certo para um mistério cuja solução depende de notar aquilo que todos os outros aprenderam a ignorar. Seu cérebro não aceita bem lacunas. Uma palavra chama outra, um ruído pede repetição, uma pista mal encaixada torna-se uma espécie de coceira mental, e assim a investigação vai andando entre clubes de jazz, repartições públicas, cortiços condenados à demolição e escritórios onde homens de terno decidem o destino de bairros inteiros.

É aí que “Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe” deixa de ser apenas noir e começa a revelar a obsessão verdadeira de Norton. Moses Randolph não quer simplesmente dinheiro; dinheiro é consequência. O que ele deseja é poder para redesenhar o mundo, ainda que para abrir uma avenida seja necessário apagar quarteirões, expulsar famílias e chamar esse processo de modernização. Alec Baldwin empresta ao personagem uma segurança insolente, a tranquilidade própria de quem já passou da fase de corromper o sistema porque se tornou ele mesmo o sistema.

Moses Randolph e a cidade

A escolha tem uma camada ainda mais pessoal. O avô de Norton, James Rouse, também foi um importante urbanista e incorporador americano, mas defendia um modelo de desenvolvimento muito distinto daquele associado a Robert Moses; Norton afirmou que parte dessa visão humanista chegou ao personagem de Willem Dafoe. Essa informação ajuda a entender por que a disputa territorial do filme parece tão mais apaixonada que o assassinato que teoricamente a desencadeia. Para Norton, ruas, prédios e bairros não são cenografia. São política petrificada em concreto.

Lionel chega a Laura Rose por esse caminho. Gugu Mbatha-Raw dá à personagem uma serenidade que funciona bem contra a verborragia involuntária do protagonista, e os dois aproximam-se quando já se percebe que Frank Minna abriu uma porta para um cômodo muito maior do que imaginava. Laura está ligada à luta contra despejos e intervenções urbanísticas que atingem sobretudo bairros pobres e negros; Lionel, que começara procurando apenas o assassino de um amigo, descobre que talvez esteja investigando uma cidade.

Lionel e Laura Rose

Norton exagera. Há momentos em que parece incapaz de abandonar uma cena porque gosta demais dela, um diálogo demora três minutos além do necessário, outra pista ganha solenidade de documento histórico, e o filme ameaça dobrar sob o peso das muitas coisas que seu diretor-roteirista decidiu colocar dentro dele. Mas essa megalomania também é parte de seu encanto. O jazz, os chapéus, os automóveis enormes, a fumaça, os apartamentos escuros e os salões de homens poderosos poderiam resultar num baile de fantasias noir, não fosse Lionel demasiado esquisito para caber numa homenagem tão comportada.

No romance policial clássico, descobrir o assassino deveria reorganizar o universo. Aqui não. Lionel percebe que saber quem matou Frank Minna é uma parte pequena do problema, porque homens morrem e estruturas ficam. Norton passa duas horas construindo um labirinto e, quando o detetive finalmente entende a planta, descobre que a saída não leva para fora de Nova York. Leva mais fundo para dentro dela.


Filme: Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe
Diretor: Edward Norton
Ano: 2019
Gênero: Crime/Drama/Mistério/Noir
Avaliação: 4.5/5 1 1
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