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“A vida é solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”, disse Thomas Hobbes (1588-1579) em seu “Leviatã” (1651). É verdade, mas a frase pode fazer ainda mais sentido para sujeitos como Bobby Dorfman, o personagem em torno de quem “Café Society” se move, levando o espectador por passeio ora vertiginoso, ora idílico pelas fascinantes misérias humanas. Como sempre, Woody Allen domina a arte de chegar às profundezas do espírito das pessoas que inventa, universo para onde qualquer um iria se tivesse a sorte. Até as escolhas mais íntimas têm um componente sociológico, e assim, como se numa ciranda, define-se a vida de alguém feito Bobby, um herói estoico que de repente descobre o hedonismo. Contradições cuja sutileza só mesmo Allen pode alcançar.

Quanto mais frio melhor

Bobby quer subir. Com uma boa mãe judia, Rose telefona a cobrar para Phil Stern, seu irmão caçula, pede-lhe que receba o filho e arranje alguma ocupação para aquele rapaz sonhador, mas um tanto desorientado, apelo com o qual ele não fica comovido o bastante. Bobby deixa Nova York e atravessa o país atrás do tio, mas ele, um dos agentes de talentos mais prestigiosos na Hollywood dos anos 1930, tem de mimar Barbara Stanwyck (1907-1990) e Joan Crawford (1906-1977), e delega a Vonnie a função de assistir a seu parente indesejado. Desafetadas, essas sequências iniciais dão tal graça à história que viram o coração do filme. Bobby inspira pena, ao passo que seu encontro com a secretária de Phil lembra o Billy Wilder (1906-2002) de “Se Meu Apartamento Falasse” (1960) ou mesmo “Farrapo Humano” (1945), e Jesse Eisenberg encarrega-se de unir a introdução assumidamente melodramática às passagens de fato lúgubres, depois que Bobby torna-se gerente da boate do irmão gângster e Vonnie, uma devotada esposa de um agente de talentos. Surpreendente, a afinidade entre Eisenberg e Kristen Stewart define a cadência da narrativa, e Steve Carell, dinâmico como de hábito, encarna à perfeição o cafajeste que não tergiversa em usar seu poder para levar moçoilas românticas para o seu quarto. Previsível e genial como só Woody Allen consegue ser.


Filme: Café Society
Diretor: Woody Allen
Ano: 2016
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 4.5/5 1 1
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