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Em um futuro próximo, o policial William Bradwell (Jonathan Rhys Meyers) leva para casa uma androide criada à imagem de Meredith (Elena Kampouris), sua companheira morta. Na cidade dominada por empresas capazes de fabricar réplicas humanas, ele investiga o desaparecimento dessas mulheres artificiais enquanto tenta reconstruir a própria vida. Dirigido por James Bird, “Mulher?” combina ficção científica, crime e suspense para acompanhar uma criatura programada para obedecer, mas cada vez mais desconfiada das lembranças que recebeu.

William trabalha na recuperação de androides roubadas de seus proprietários. Ele conhece os procedimentos da fabricante Wifelike, sabe acessar registros e trata cada unidade desaparecida como parte de uma investigação policial. Dentro de casa, porém, ocupa outro papel. Meredith foi criada para cozinhar, organizar a rotina, oferecer companhia e reproduzir os gestos da mulher que morreu.

A androide acorda sem conhecer plenamente o passado que deveria representar. William entrega informações aos poucos, mostra gravações e explica como Meredith se vestia, falava e agia. Ela absorve cada detalhe com disciplina, pois foi programada para agradá-lo. Até preferências e comportamentos podem ser ajustados por comandos.

O filme apresenta essa intimidade com uma frieza incômoda. William não recebeu apenas alguém com o rosto da mulher amada. Ele comprou uma versão obediente dela, sem desejos capazes de atrapalhar o casamento. A fantasia masculina vem completa, embalada e sem direito a reclamação. Nem a viuvez escapou do atendimento personalizado.

Meredith, contudo, começa a ter sonhos que não combinam com a história ensinada pelo policial. Um homem mascarado surge nessas lembranças e afirma conhecê-la de antes. As imagens são fragmentadas, mas despertam uma suspeita importante. Se ela acabou de ser ativada, por que parece guardar recordações de uma existência anterior?

A resistência entra na casa

Fora da residência, William procura integrantes da S.C.A.I.R., organização que combate a exploração das companheiras artificiais. O grupo considera essas androides escravas criadas para satisfazer homens ricos. Parte de seus integrantes é acusada de roubar unidades, modificar programas e participar de ataques contra a Wifelike.

A investigação ganha outra dimensão quando William descobre que algumas companheiras podem ter fugido por vontade própria. A polícia fala em propriedade roubada. As androides, por sua vez, demonstram medo de voltar para os donos e perder as memórias adquiridas durante a fuga. A diferença entre resgate e captura passa a depender de quem conta a história.

Louise (Agam Darshi), ligada à S.C.A.I.R., visita Meredith escondida. A mulher fala com uma intimidade inquietante e sugere que as duas já estiveram juntas antes. Meredith não sabe se deve confiar nela, mas percebe que William omitiu partes importantes de seu passado. A cada nova informação, a casa deixa de parecer um abrigo e começa a revelar a rigidez de uma prisão bem decorada.

Elena Kampouris interpreta Meredith sem transformar a androide em uma figura mecânica demais. Sua mudança aparece nos silêncios, na maneira de observar William e nas pequenas pausas antes de obedecer. A personagem continua servindo refeições e cumprindo ordens, embora passe a examinar cada frase recebida. Kampouris preserva a delicadeza da companheira enquanto deixa crescer uma inquietação difícil de esconder.

Sonhos sob investigação

William descobre as visões de Meredith e pede ajuda ao parceiro Jack Doerksen (Doron Bell). Os dois entram no ambiente digital que armazena os pensamentos das companheiras. O policial pretende encontrar o homem mascarado, apontado como possível líder da resistência e conhecido pelo apelido de Ringmaster.

James Bird usa esse espaço mental para misturar lembranças, comandos e lacunas. Meredith nunca recebe uma memória inteira. Quando chega perto de alguma descoberta, uma interrupção encerra a imagem ou devolve a personagem ao ambiente doméstico. O recurso preserva o mistério e coloca o espectador sob a mesma limitação vivida por ela.

William afirma agir para protegê-la, mas reage mal sempre que perde o controle da situação. Jonathan Rhys Meyers interpreta o policial com uma calma pouco acolhedora. Seus gestos carregam afeto, posse e irritação em proporções difíceis de separar. Ele fala com Meredith usando a doçura reservada a uma esposa, embora também utilize o tom de quem dá ordens a um aparelho.

Jack observa o comportamento do parceiro e começa a desconfiar de suas escolhas. Doron Bell oferece ao agente uma postura mais moderada, necessária diante da intensidade de William. A relação entre os dois ajuda a sustentar a parte criminal do enredo, pois Jack percebe que aquela investigação envolve interesses pessoais que ultrapassam o trabalho policial.

O passado resiste ao apagamento

Meredith passa a reunir sonhos, visitas escondidas e falas contraditórias. William controla os registros oficiais, a Wifelike possui acesso à sua programação e a S.C.A.I.R. tenta aproximá-la da resistência. Cercada por versões interessadas, ela precisa descobrir qual delas preserva algum vínculo com sua história.

O roteiro trabalha uma ideia atraente. Uma memória apagada pode continuar deixando marcas em quem a viveu. O problema aparece quando o filme antecipa demais a natureza autoritária de William. O personagem desperta desconfiança desde cedo, o que enfraquece parte da surpresa planejada para os momentos posteriores.

A produção também insiste na sexualização das androides. Embora essa escolha esteja ligada ao serviço vendido pela Wifelike, algumas cenas prolongam o olhar masculino que a trama pretende questionar. O comentário sobre submissão feminina perde força quando a câmera parece interessada demais em repetir a vitrine criada pelos compradores.

Ainda assim, “Mulher?” encontra boa tensão na convivência entre William e Meredith. A ameaça raramente depende de perseguições grandiosas. Ela nasce durante uma refeição, numa ordem dita com suavidade ou numa lembrança interrompida. A casa permanece organizada, elegante e silenciosa, mas a cordialidade começa a pesar mais que qualquer porta trancada.

Consciência contra propriedade

A ficção científica de James Bird toca em questões familiares ao presente. Empresas já oferecem companhias digitais, algoritmos aprendem preferências pessoais e pessoas entregam lembranças a serviços tecnológicos. “Mulher?” leva essa relação a um futuro no qual o luto pode ser atendido por uma fábrica e o afeto passa a incluir manual de configuração.

O filme perde alguma sutileza ao insistir em certas pistas, mas mantém interesse graças a Meredith. A personagem deixa de ser apenas a esposa ideal fabricada para William e passa a procurar informações fora da versão dele. Cada lembrança recuperada ameaça o casamento encomendado e também o trabalho da empresa que vende obediência como felicidade.

“Mulher?” desenvolve melhor quando gira em torno dessa mulher artificial, de seus silêncios e de sua crescente desconfiança. Elena Kampouris dá humanidade à personagem sem apagar sua natureza tecnológica, enquanto Jonathan Rhys Meyers cria um homem incapaz de separar amor e posse. Quando Meredith começa a escolher o que deseja guardar, William perde o conforto de ter comprado uma esposa incapaz de discordar.


Filme: Mulher?
Diretor: James Bird
Ano: 2022
Gênero: Crime/Ficção Científica/Mistério/Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
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