Ry, vivida por Maia Reficco, viaja com a mãe a Maiorca durante o verão, após uma doença interromper sua carreira na dança. Na ilha espanhola, ela conhece Julián, interpretado por Fernando Lindez, e vive um romance ameaçado por crises de saúde, segredos familiares e pela construção de um resort nas terras da família do rapaz.
Oriah Pera (Maia Reficco), mais conhecida como Ry, é uma jovem dançarina que vê sua rotina mudar após sofrer uma convulsão durante uma apresentação. Os exames revelam que ela tem epilepsia provocada por tumores. Os médicos oferecem duas possibilidades. Uma cirurgia pode ajudar, mas também ameaça comprometer sua memória. O tratamento com remédios controla as crises, embora provoque cansaço, apatia e uma sensação incômoda de afastamento do próprio corpo.
Ry escolhe a medicação. Quatro alarmes diários passam a lembrá-la dos comprimidos e deixam sua vida presa a horários rígidos. Dançar, sair ou simplesmente passar algumas horas sem pensar na doença vira um pequeno luxo. Sua mãe, Isolde (Eva Longoria), acompanha cada dose com atenção. A preocupação é legítima, mas o cuidado constante pesa sobre uma filha que deseja recuperar alguma independência.
Esse é o ponto de partida de “O Último Nascer do Sol”, romance de 2026 dirigido por Carlson Young e baseado no livro de Anna Todd. Isolde leva Ry para passar o verão em Maiorca, onde trabalha na implantação de um resort de luxo. A ilha parece oferecer uma pausa, mas a viagem logo reúne interesses familiares, comerciais e afetivos difíceis de separar.
Um pescador entra em cena
Ry conhece Julián (Fernando Lindez) em uma praia de nudismo, depois de ser levada ao local pela nova amiga Amara (Chloé Sweetlove). A apresentação dispensa qualquer elegância ensaiada. Ry olha mais do que deveria, Julián percebe e reclama, embora seja ele quem esteja completamente nu diante de uma desconhecida. O constrangimento quebra a formalidade e dá ao encontro uma graça espontânea.
Julián é pescador e pertence a uma família profundamente ligada à costa de Maiorca. Ele mostra à visitante praias, barcos, ruas antigas e lugares que ficam longe dos compromissos de Isolde. Ry passa a conhecer uma ilha menos polida do que aquela vendida aos turistas. Ao lado dele, consegue permanecer algumas horas distante da mãe, dos médicos e dos alarmes que dividem seus dias.
A aproximação cresce com naturalidade, ajudada pela química entre Maia Reficco e Fernando Lindez. Os dois atores tornam críveis as conversas, os silêncios e o desejo que surge entre personagens bastante diferentes. Ry vem de uma família rica e vive sob proteção constante. Julián trabalha no mar e carrega responsabilidades financeiras que prefere esconder.
Cada um guarda uma informação capaz de abalar o namoro. Ry sabe que Isolde comanda a empresa interessada em construir o resort. Julián pertence à família proprietária da área cobiçada pelo empreendimento. A jovem teme revelar a verdade e perder o rapaz. Ele, por sua vez, esconde dívidas com homens locais que pressionam sua família e tornam a possível venda das terras mais urgente.
O amor esbarra nos remédios
O romance devolve a Ry uma disposição que ela julgava perdida. Passear, nadar e se envolver com Julián oferecem a sensação de uma vida menos controlada. O problema surge quando os efeitos dos comprimidos interferem nessa experiência. A protagonista começa a tratar os horários da medicação com descuido porque deseja sentir novamente o prazer, a energia e a proximidade física que a doença havia limitado.
Essa decisão coloca sua saúde em risco e desperta a parte mais delicada da história. Ry não quer permanecer definida por exames, convulsões e recomendações médicas. Isolde teme que a filha sofra uma nova crise longe do atendimento necessário. Entre as duas existe afeto, mas também uma disputa cansativa sobre quem pode decidir o que Ry fará com o próprio corpo.
Maia Reficco dá sensibilidade à personagem, principalmente quando Ry tenta esconder o mal-estar para impedir que a mãe volte a controlar todos os seus passos. A atriz transmite a irritação de quem está cansada de ser observada e também o medo que Ry procura encobrir. Algumas decisões da jovem soam imprudentes, mas nascem de um desejo reconhecível de recuperar o cotidiano perdido.
Eva Longoria interpreta Isolde sem transformar a mãe em simples autoridade severa. A personagem administra um empreendimento milionário, protege a filha e mantém assuntos familiares longe das conversas. Seu comportamento pode parecer excessivo, porém a possibilidade de outra convulsão oferece uma razão concreta para tanta vigilância. O filme acerta quando permite que mãe e filha carreguem sentimentos contraditórios sem escolher uma culpada conveniente.
Terras, dívidas e segredos
O resort acrescenta uma questão social ao romance. Para Isolde, a costa representa investimento e crescimento empresarial. Para a família de Julián, abriga trabalho, memória e sustento. A venda pode aliviar dificuldades financeiras, mas também ameaça retirar dos pescadores o espaço que organiza suas vidas há gerações.
Julián deseja proteger as docas, embora suas próprias dívidas enfraqueçam essa resistência. Fernando Lindez oferece simpatia ao personagem e sustenta bem sua mistura de confiança e vulnerabilidade. Ainda assim, o roteiro acumula problemas ao redor do rapaz sem dedicar tempo suficiente a cada um. Dívida, patrimônio familiar, ameaças e namoro acabam disputando espaço durante uma história que também precisa acompanhar a saúde de Ry.
Os segredos dos dois jovens criam tensão, porém parte dela depende de conversas adiadas por tempo demais. Ry poderia contar quem é sua mãe. Julián poderia admitir por que precisa de dinheiro. O silêncio rende novos conflitos, mas também transmite a sensação de que muitos problemas sobreviveriam poucos minutos diante de uma conversa honesta.
Carlson Young filma Maiorca com atenção às praias, às águas transparentes e às construções antigas. A paisagem oferece beleza e reforça o contraste entre a liberdade desejada por Ry e os limites impostos por sua condição. A diretora também usa os alarmes do celular para lembrar que a jovem possui um compromisso do qual não pode tirar férias.
Um romance bonito e irregular
“O Último Nascer do Sol” funciona melhor quando permanece perto de Ry e Julián, sem acumular ameaças ao redor deles. Os passeios de barco, as conversas e os pequenos constrangimentos permitem que o casal ganhe intimidade. Nesses trechos, o filme é leve, sensual e agradável, com o tipo de romance de verão que combina bem com uma tarde tranquila no sofá.
A produção perde força quando reúne doença grave, crise empresarial, dívida, segredo familiar e disputa por terras em pouco tempo. Alguns assuntos recebem atenção, enquanto outros parecem colocados apenas para manter o casal sob pressão. A previsibilidade também enfraquece certas passagens, pois o espectador percebe com antecedência quando uma informação escondida voltará para cobrar seu preço.
Apesar dessas limitações, Maia Reficco sustenta a parte emocional e impede que Ry seja apenas a jovem frágil protegida pelo rapaz bonito. A personagem deseja amar, dançar e tomar decisões sem pedir licença a todos ao redor. Nem sempre escolhe bem, o que ao menos lhe dá alguma humanidade. “O Último Nascer do Sol” entrega um romance atraente, sensível e um pouco carregado, no qual uma viagem de verão oferece liberdade por algumas horas, até o próximo alarme lembrar Ry de tomar seu remédio.

