Durante a Segunda Guerra Mundial, o oficial Charles Ryder retorna à mansão Brideshead, onde revive sua ligação com uma poderosa família aristocrática inglesa. Charles Ryder (Matthew Goode) está prestes a ser enviado ao campo de batalha quando o Exército instala um acampamento na propriedade de Brideshead. O lugar já foi parte importante de sua juventude. Anos antes, quando estudava em Oxford e sonhava ser pintor, ele entrou naquela mansão como convidado de Sebastian Flyte (Ben Whishaw), um colega rico, carismático e emocionalmente frágil. A visita despertou seu fascínio pela família Flyte e o aproximou de Julia (Hayley Atwell), irmã de Sebastian.
Dirigido por Julian Jarrold e baseado no romance de Evelyn Waugh, “Brideshead: Desejo e Poder” acompanha a entrada de Charles em um universo regido por dinheiro, tradição e catolicismo. O rapaz se encanta pela propriedade e por seus moradores, mas demora a perceber o preço cobrado por aquela convivência. Quanto mais deseja pertencer ao grupo, mais se envolve nas feridas de uma família que sabe preservar aparências melhor do que preservar seus próprios filhos.
A porta aberta em Oxford
Charles vem de uma família de classe média e mantém uma relação distante com o pai, Edward Ryder (Patrick Malahide), um homem excêntrico que transforma qualquer conversa doméstica numa pequena prova de resistência. Em Oxford, o jovem também não parece muito disposto a seguir o caminho esperado. Ele quer pintar, embora ainda não tenha prestígio, dinheiro ou contatos que lhe garantam uma carreira.
A amizade com Sebastian muda esse cenário. Interpretado com delicadeza por Ben Whishaw, o rapaz pertence a uma classe social que trata o luxo com uma naturalidade quase irritante. Ele apresenta Charles aos amigos, às festas e aos excessos daquele ambiente universitário. Também o leva a Brideshead, a imensa propriedade de sua família, onde passado, religião e riqueza ocupam praticamente todos os cômodos.
Sebastian recebe Charles com uma intimidade que ultrapassa a camaradagem entre colegas. O vínculo dos dois carrega afeto, desejo e uma dependência crescente. Charles, por sua vez, fica atraído tanto pelo amigo quanto pelo mundo ao qual ele pertence. A relação perde tranquilidade quando Julia entra em cena. A irmã de Sebastian desperta nele outro tipo de interesse, enquanto o rapaz percebe que poderá perder a atenção da pessoa que levou para dentro de casa.
Uma família cercada pela fé
Em Brideshead, Charles conhece Lady Marchmain (Emma Thompson), a matriarca que governa a família com educação impecável e pulso firme. Católica devota, ela espera que os filhos sigam os preceitos religiosos que orientam sua vida. Sua autoridade raramente depende de gritos. Emma Thompson trabalha com pausas, olhares e frases suaves, o que torna a personagem ainda mais intimidadora. Lady Marchmain pode sorrir durante uma conversa e, poucos minutos depois, deixar alguém sem dinheiro, apoio ou acesso à propriedade.
A devoção da matriarca contrasta com seu casamento fracassado. Lord Marchmain (Michael Gambon) deixou a Inglaterra e passou a viver em Veneza com a amante, Cara (Greta Scacchi). Apesar da separação, Lady Marchmain permanece ligada às obrigações religiosas e sociais de seu sobrenome. Ela exige dos filhos uma disciplina que o próprio marido abandonou, criando uma casa cheia de culpa e ressentimento.
Charles é ateu, condição que logo se torna um problema. Lady Marchmain aceita sua presença enquanto acredita que ele poderá ajudar Sebastian, mas vê com desconfiança sua aproximação de Julia. Para ela, casamento, família e fé pertencem ao mesmo compromisso. Charles deseja Julia sem aceitar uma conversão religiosa, enquanto a jovem sabe que qualquer escolha afetiva poderá afastá-la da mãe e de tudo o que Brideshead representa.
Sebastian procura uma saída
Sebastian sofre com a vigilância familiar e encontra no álcool uma forma destrutiva de suportar a pressão. A bebida, inicialmente ligada às festas e à irreverência universitária, ocupa cada vez mais espaço em sua vida. Lady Marchmain tenta controlar o filho por meio da mesada, dos empregados e da influência exercida sobre Charles. O plano piora o isolamento do rapaz e transforma o amigo em participante involuntário daquela disputa.
Charles deseja ajudá-lo, mas seus interesses já estão divididos. Permanecer ao lado de Sebastian também significa continuar perto de Julia e conservar sua entrada em Brideshead. Essa ambiguidade dá ao protagonista uma dimensão pouco confortável. Ele sente carinho pelo amigo, porém gosta demais dos privilégios oferecidos pelos Flyte para agir com total desprendimento. Matthew Goode sustenta essa mistura de afeto e ambição sem transformar Charles em herói ou oportunista puro.
A situação fica ainda mais delicada porque Sebastian percebe o interesse do amigo por sua irmã. Ben Whishaw expõe essa dor sem exagero. Seu personagem perde espaço na própria relação e passa a enxergar Julia como alguém capaz de levar Charles embora. O romance entre os dois cresce cercado por ciúme, religião e uma sucessão de impedimentos familiares.
Veneza oferece outra vida
A viagem de Charles, Sebastian e Julia a Veneza permite que os irmãos convivam por algum tempo longe da vigilância materna. Lord Marchmain vive ali com Cara, num ambiente menos rígido do que Brideshead. Michael Gambon interpreta o patriarca com uma combinação de cansaço, orgulho e provocação. Sua casa italiana oferece liberdade, embora essa liberdade também venha sustentada pela riqueza e pelo abandono de responsabilidades antigas.
Em Veneza, Charles se aproxima ainda mais de Julia. A cidade favorece encontros que seriam difíceis sob os olhos de Lady Marchmain, mas Sebastian acompanha a mudança e sente o risco de ficar sozinho. O belo cenário pouco alivia o desconforto. Jarrold usa a viagem para aproximar o casal e aprofundar a ferida do irmão, mantendo os três presos a desejos que não cabem no mesmo acordo.
Hayley Atwell interpreta Julia com firmeza e vulnerabilidade. A personagem conhece os benefícios de sua origem, mas também sabe que o sobrenome Flyte cobra obediência. Ela não pode tratar um casamento apenas como escolha pessoal. Sua religião, a aprovação da mãe e a preservação do lugar ocupado pela família pesam sobre cada decisão.
Uma mansão cheia de ausências
“Brideshead: Desejo e Poder” dedica grande atenção à atração exercida pela aristocracia. Charles observa pinturas, salões, jardins e refeições formais com o interesse de quem acaba de descobrir outro país dentro da Inglaterra. A propriedade representa beleza e acesso, porém guarda moradores incapazes de viver com a mesma liberdade prometida por seus privilégios.
A adaptação comprime muitos acontecimentos do livro de Evelyn Waugh e concentra sua força no triângulo formado por Charles, Sebastian e Julia. Algumas passagens avançam depressa demais, sobretudo quando a história atravessa vários anos. Mesmo assim, o elenco mantém a ligação emocional entre os períodos. Matthew Goode oferece unidade ao protagonista, Ben Whishaw faz de Sebastian a presença mais dolorosa da trama e Emma Thompson domina Brideshead mesmo quando permanece em silêncio.
Jarrold também acerta ao apresentar Charles como alguém seduzido por pessoas e por tudo o que as cerca. Seu amor por Julia existe, assim como seu afeto por Sebastian, mas a mansão participa dessa atração. Brideshead lhe oferece beleza, prestígio e uma identidade distante da casa fria onde cresceu. O problema surge quando ele percebe que entrar naquele mundo é mais fácil do que escolher o próprio lugar dentro dele.
O retorno de Charles durante a guerra fecha esse movimento sem entregar ao espectador um consolo confortável. A propriedade que antes recebia festas e reuniões familiares agora serve ao Exército. O homem que desejou pertencer àquele espaço volta com autorização militar, cercado por lembranças e diante de uma casa transformada pelo tempo. Brideshead continua de pé, mas já não pode oferecer a vida que Charles imaginou encontrar ali.

