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Em 2017, Jessie e Gerald viajam para uma casa isolada, onde uma tentativa de salvar o casamento transforma o fim de semana em pesadelo. Jessie Burlingame (Carla Gugino) e Gerald Burlingame (Bruce Greenwood) chegam a uma casa de campo cercada por mata e distante dos vizinhos. O casal espera usar o fim de semana para recuperar a intimidade perdida após anos de casamento. Há comida, vinho, roupas escolhidas para a ocasião e um quarto preparado para uma brincadeira sexual. O cenário parece adequado para dois adultos que desejam afastar a rotina. Talvez isolado até demais, como Jessie descobrirá em pouco tempo.

Gerald leva um par de algemas para a cama e prende os pulsos da esposa à cabeceira. A brincadeira muda quando ele assume um comportamento agressivo e Jessie pede que pare. O pedido provoca uma discussão sobre desejos, frustrações e ressentimentos acumulados. Antes que consiga libertá-la, Gerald sofre um mal súbito e cai no chão. Jessie permanece presa, sem telefone ao alcance das mãos, sem companhia e sem qualquer previsão de ajuda.

Esse é o ponto de partida de “Jogo Perigoso”, terror psicológico lançado pela Netflix e dirigido por Mike Flanagan a partir do romance de Stephen King. A história acompanha a luta de Jessie para sobreviver enquanto seu corpo perde forças e sua mente recupera lembranças que ficaram escondidas durante décadas. O quarto possui poucos elementos, mas cada um deles ganha importância. Um copo de água pode garantir algumas horas. Uma porta aberta pode trazer auxílio ou uma ameaça. A chave das algemas permanece perto o bastante para ser vista e longe demais para ser alcançada.

O perigo dentro do quarto

Jessie grita por socorro, força os braços e procura alguma maneira de sair da cama. Nada cede. A casa fica numa região afastada, e o casal não avisou a ninguém que precisaria de companhia. O isolamento escolhido para favorecer a intimidade passa a trabalhar contra ela. Quanto mais o tempo avança, maiores ficam a sede, a fraqueza e a dificuldade para distinguir fatos de alucinações.

A protagonista começa a conversar com versões imaginárias de si mesma e de Gerald. Essas figuras aparecem com aparência real, circulam pelo quarto e comentam suas tentativas de fuga. O Gerald criado por sua mente é sarcástico, cruel e pouco disposto a oferecer consolo. Já uma versão mais firme de Jessie procura analisar os objetos disponíveis e encontrar uma saída. As duas presenças revelam pensamentos que a personagem mantinha abafados, inclusive sobre a forma desigual pela qual o casal tratava desejos e decisões.

Bruce Greenwood interpreta Gerald com uma combinação incômoda de elegância e autoritarismo. Mesmo depois de perder o domínio físico da situação, o personagem continua presente na cabeça da esposa, lembrando-a de suas inseguranças. Carla Gugino assume a parte mais exigente do filme. Quase sempre presa à cama, ela sustenta o interesse por meio da voz, do olhar e das mudanças de comportamento provocadas pelo cansaço. Jessie passa do pânico à concentração e volta a desabar quando percebe a gravidade de cada escolha.

Mike Flanagan mantém a câmera próxima da personagem e limita boa parte da ação ao quarto. A restrição poderia deixar a história parada, mas o diretor usa a posição de Jessie para controlar as informações. O público vê aquilo que ela consegue enxergar e escuta ruídos cuja origem permanece desconhecida. Um movimento no corredor ou uma sombra perto da porta bastam para aumentar o perigo, pois Jessie não pode levantar e conferir o que existe ali.

As lembranças de uma menina

O confinamento também recupera um episódio ocorrido durante a infância de Jessie. Chiara Aurelia interpreta a personagem aos 12 anos, quando uma viagem familiar durante um eclipse deixou marcas profundas. Henry Thomas vive Tom, o pai da menina, enquanto Kate Siegel interpreta Sally, sua mãe. Essas recordações surgem aos poucos e ajudam a explicar por que Jessie cresceu acostumada a guardar sentimentos, aceitar imposições e desconfiar da própria percepção.

A ligação entre passado e presente oferece a “Jogo Perigoso” uma dimensão mais dolorosa do que a simples busca por uma chave. Jessie precisa descobrir por que a voz de Gerald possui tanta autoridade dentro de sua cabeça. Para continuar viva, ela terá de questionar as ordens e culpas que aceitou durante anos. O perigo físico permanece urgente, mas a memória também cobra atenção e consome uma energia que já está acabando.

Chiara Aurelia oferece à jovem Jessie uma mistura de inocência, medo e constrangimento. A menina percebe que algo está errado, embora os adultos ao redor possuam poder para controlar a versão dos acontecimentos. Carla Gugino mantém essa ferida na postura da personagem adulta. Pequenas hesitações revelam uma mulher que aprendeu a duvidar de si antes mesmo de procurar ajuda. Quando passa a examinar essas lembranças, Jessie conquista alguma força para enfrentar o quarto.

Uma luta sem espaço para descanso

O terror de “Jogo Perigoso” nasce menos de sustos repentinos do que da espera. Jessie precisa conservar forças, alcançar água e observar o ambiente, enquanto o próprio corpo anuncia que o tempo está terminando. A chegada da noite piora sua situação. A luz diminui, os sons ficam mais difíceis de reconhecer e uma figura misteriosa parece ocupar os cantos da casa. Ela não sabe se está diante de uma presença real ou de outra criação provocada pelo cansaço.

Flanagan trabalha essa dúvida sem transformar a história numa coleção de truques. Cada ameaça está ligada ao estado de Jessie e à falta de recursos ao redor da cama. Até um animal que entra na casa adquire importância, pois pode aproximar socorro ou deixar a situação ainda mais brutal. O diretor também reserva espaço para uma ironia amarga. Gerald planejou o fim de semana acreditando que controlaria todos os detalhes, mas sua escolha por uma casa remota retira da esposa qualquer chance comum de pedir ajuda.

A adaptação preserva o caráter íntimo do livro de Stephen King e entrega a Carla Gugino um papel que exige presença durante quase toda a duração. A atriz faz Jessie parecer frágil sem transformá-la numa vítima passiva. Ela observa, erra, tenta novamente e usa cada informação disponível. Suas decisões possuem peso porque o filme apresenta o custo físico de qualquer movimento.

“Jogo Perigoso” combina drama, suspense e terror numa história sobre uma mulher obrigada a lutar pela própria vida dentro de um quarto. O enredo permanece compreensível mesmo quando realidade, lembrança e alucinação passam a ocupar o mesmo espaço. Mike Flanagan conta o necessário sem abandonar o medo, e Carla Gugino mantém a personagem próxima do público. Jessie está algemada, com sede e cercada por ameaças, mas ainda pode escolher o próximo movimento. Numa situação tão cruel, essa pequena liberdade vale muito.


Filme: Jogo Perigoso
Diretor: Mike Flanagan
Ano: 2017
Gênero: Drama/Suspense/Terror
Avaliação: 3.5/5 1 1
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