A morte é um problema dos vivos. Os mortos, ao que se saiba, não reclamam da saudade que deixam, não precisam reorganizar gavetas, dormir do lado vazio da cama ou aprender a conviver com a ausência de uma voz que durante anos respondia do outro cômodo. William Bradwell recusa esse trabalho desagradável em “Mulher?”, e James Bird oferece-lhe a solução que um futuro tecnologicamente soberbo haveria de inventar: em vez de atravessar o luto, ele recebe Meredith, uma criatura artificial com o rosto, os modos e a personalidade da esposa morta. Tudo parece devidamente resolvido. Só existe um inconveniente. Meredith começa a suspeitar que talvez não tenha sido criada apenas para obedecer.
A ficção científica sempre desconfiou do paraíso oferecido pelas máquinas, talvez porque qualquer paraíso concebido pelo homem venha acompanhado de contrato, senha, mensalidade e alguém interessado em mandar. “Mulher?” não esconde a linhagem a que pertence, e seria impossível assistir ao filme sem pensar em histórias sobre androides que descobrem tarde demais que sua maravilhosa consciência foi desenvolvida apenas para servir a um amo. Bird, porém, encontra alguma personalidade ao inverter o ponto de partida. Aqui, a máquina não chega para conquistar o mundo. Chega para arrumar a casa, agradar um viúvo e interpretar todos os dias uma mulher morta. É uma prisão muito mais íntima.
Uma esposa feita para obedecer
William é detetive, circunstância que poderia transformá-lo no herói natural da história, e Jonathan Rhys Meyers empresta-lhe a rigidez necessária para que Bird faça justamente o contrário. Quanto mais ele procura entender a organização clandestina que combate o tratamento dispensado aos seres artificiais, mais incômoda se torna a vida doméstica que mantém com Meredith. A contradição é boa demais para ser desperdiçada: o homem investiga gente acusada de atacar uma ordem social enquanto, em casa, desfruta dos benefícios dessa ordem sem fazer muitas perguntas. Se Meredith sorri porque deseja sorrir ou porque alguém escreveu uma linha de código determinando que demonstre felicidade diante dele é uma questão que William prefere deixar para depois. Homens apaixonados e proprietários costumam ter esse talento para a abstração.
Elena Kampouris compreende que a personagem funciona melhor quando não tenta convencer o público de sua humanidade. Meredith hesita, observa, processa informações, repete comportamentos e, pouco a pouco, deixa pequenas frestas pelas quais alguma coisa indecifrável começa a escapar. Bird acerta ao resistir, durante boa parte do filme, à tentação de transformar essa mudança numa sucessão de acessos de cólera eletrônica. Muito mais perturbadora é a possibilidade de que um ser programado para amar descubra que o amor, da maneira como lhe foi concedido, talvez seja apenas outra palavra para servidão.
Há ainda uma perversidade particular no fato de Meredith carregar a aparência da falecida esposa de William. Não se trata somente de fabricar companhia para um homem sozinho, mas de reanimar uma relação anterior eliminando justamente aquilo que torna os relacionamentos insuportáveis e, por isso mesmo, humanos: a discordância, o mau humor, o desejo de ficar só, a vontade de ir embora. A nova mulher pode ser recalibrada. Pode receber instruções. Pode adequar-se ao gosto do dono. O casamento perfeito, descobre-se, talvez seja apenas aquele em que uma das partes perdeu o direito de dizer não.
Lembranças que talvez não existam
É quando “Mulher?” se concentra nisso que Bird faz seu melhor filme. A investigação policial, a corporação por trás dos seres sintéticos e o grupo que pretende libertá-los fornecem movimento à trama, mas nada é tão estimulante quanto Meredith parada diante de William, tentando decidir se determinada lembrança pertence a ela ou à mulher cuja existência foi usada como matéria-prima. Memória sempre foi uma fraude delicada até entre humanos. Alteramos detalhes, eliminamos inconveniências, engrandecemos momentos banais e acabamos convencidos de versões de nós mesmos que talvez jamais tenham existido. Numa criatura cuja lembrança pode ser instalada, apagada ou adulterada, a identidade vira um campo de batalha.
O roteiro, contudo, nem sempre confia nessa boa ideia. Há ocasiões em que “Mulher?” parece recear que sua discussão sobre consciência, domínio e consentimento não seja suficiente e então torna a empurrar a trama para o suspense convencional, com ameaças, conspirações e revelações destinadas a manter a roda girando. Não chega a comprometer o filme, mas o torna mais previsível precisamente quando Meredith começa a ficar menos previsível. A ficção científica costuma sofrer desse mal: cria um problema filosófico fascinante e, tomada por súbita insegurança, põe alguém para correr com uma arma na mão.
Quem decide o que é humano?
Sara Sampaio, Agam Darshi e Doron Bell ajudam a povoar esse universo em que humanos e seres produzidos industrialmente mantêm uma convivência aparentemente pacificada, mas Bird sabe que o verdadeiro conflito está comprimido entre Rhys Meyers e Kampouris. William deseja recuperar aquilo que perdeu; Meredith quer descobrir se alguma coisa nela jamais lhe pertenceu. Um olha para a mulher artificial e vê a continuação de uma história interrompida. A outra olha para o mesmo passado e começa a enxergar uma cela.
Talvez por isso o título brasileiro seja mais interessante do que parece. A interrogação depois de “Mulher” encerra a pergunta que William, os fabricantes de Meredith e mesmo os adversários do sistema tentam responder por ela. Seria uma mulher aquilo que possui um corpo feminino, lembranças, capacidade de desejar, medo, ciúme, prazer e consciência da própria submissão? Ou ainda faltaria alguma autorização expedida por quem a fabricou? James Bird não tem a profundidade de uma grande ficção científica filosófica, mas percebe a armadilha. Quando Meredith começa a fazer perguntas, pouco importa saber de que material ela é feita. O inquietante é constatar quantos seres humanos ao redor dela prefeririam que continuasse calada.

