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Em 1984, a jornalista Elena McMahon (Anne Hathaway) investiga o envolvimento dos Estados Unidos no envio clandestino de armas à América Central. Quando o jornal encerra a cobertura e seu pai adoece, ela aceita cumprir uma tarefa familiar. A escolha coloca a repórter dentro do caso que pretendia revelar. Dirigido por Dee Rees e baseado no romance de Joan Didion, “A Última Coisa que Ele Queria” reúne suspense político, drama familiar e uma quantidade cansativa de informações.

Elena trabalha ao lado de Alma Guerrero (Rosie Perez) na cobertura dos conflitos em El Salvador. As duas acompanham operações militares e procuram descobrir a origem de armamentos norte-americanos encontrados na região. A reportagem, porém, sofre uma interrupção quando a direção do jornal fecha o escritório local e retira as profissionais do país.

De volta a Washington, Elena tenta convencer seus superiores a manter a apuração. O pedido é rejeitado e ela acaba enviada para acompanhar a campanha de reeleição de Ronald Reagan. A mudança atende aos interesses do jornal, mas afasta a jornalista da pauta que considera mais importante. Enquanto candidatos repetem discursos ensaiados, ela continua procurando documentos, militares e autoridades capazes de explicar o caminho das armas.

Alma assume parte da cobertura eleitoral e permanece como principal apoio da colega. Rosie Perez imprime firmeza à personagem, embora receba pouco espaço. A amizade entre as duas traz alguma estabilidade a uma história tomada por telefonemas, nomes e deslocamentos. Quando Elena perde acesso à redação e aos recursos do jornal, Alma preserva a única ligação confiável com a investigação.

O favor pedido pelo pai

A situação muda quando Richard McMahon (Willem Dafoe), pai de Elena, é hospitalizado. Os dois mantêm uma relação desgastada por anos de afastamento, promessas descumpridas e negócios pouco transparentes. Mesmo debilitado, Richard insiste para que a filha conclua uma entrega importante. Ele apresenta o pedido com a naturalidade de quem solicita uma ida à farmácia, embora a carga envolva armas destinadas à América Central.

Elena sabe que o pai participa de atividades ilegais. Ainda assim, aceita a missão por culpa, preocupação e pela esperança de descobrir quem está por trás das remessas. A repórter acredita que pode usar sua experiência profissional para observar o esquema por dentro. O problema é que ela recebe instruções incompletas de Barry Sedlow (Mel Rodriguez), associado de Richard, e embarca sem conhecer compradores, garantias ou rotas de retorno.

A decisão parece improvável para uma jornalista veterana. Anne Hathaway, porém, consegue transmitir o cansaço de uma mulher pressionada pelo trabalho, pela doença do pai e pela distância da filha adolescente. Elena erra bastante, mas seus erros nascem de uma mistura reconhecível de afeto e teimosia. Ela quer resolver a pendência familiar em poucos dias e voltar com informações suficientes para publicar a matéria. Naturalmente, quase nada respeita esse plano.

Uma entrega fora do controle

Ao chegar à América Central, Elena percebe que entrou numa operação maior do que Richard descrevera. As condições da entrega mudam, o pagamento não corresponde ao combinado e o transporte de volta desaparece. Sem o apoio do jornal, ela precisa improvisar enquanto tenta descobrir quem autorizou o carregamento. Cada novo contato oferece uma parte da história e esconde várias outras.

Jones (Edi Gathegi), um dos homens ligados à operação, surge como possível aliado. Ele ajuda Elena em situações delicadas, mas não revela sua função completa. A jornalista permanece desconfiada porque todos parecem trabalhar para mais de um interessado. A prudência faz sentido, embora o roteiro esconda tantas informações que o público também começa a perder o fio da investigação.

Esse é o principal problema de “A Última Coisa que Ele Queria”. Dee Rees apresenta agentes, militares, empresários e representantes do governo sem estabelecer bem o peso de cada um. A montagem interrompe conversas e muda de lugar antes que as informações se acomodem. A confusão combina com a experiência de Elena, perdida numa rede internacional, mas dificulta o envolvimento com o suspense. Há momentos em que acompanhar o filme parece exigir bloco de anotações e uma disposição quase burocrática.

Um diplomata difícil de decifrar

Treat Morrison (Ben Affleck) aparece nesse ambiente como um diplomata ligado ao governo norte-americano. Elegante, sereno e sempre bem informado, ele demonstra interesse por Elena sem revelar tudo o que sabe. A jornalista se aproxima porque precisa de proteção e acesso a pessoas influentes. Morrison, por sua vez, faz perguntas sobre Richard e acompanha os passos dela com atenção inquietante.

Ben Affleck interpreta o personagem com frieza, mas o roteiro mantém Morrison distante por tempo demais. Sua presença deveria aumentar a pressão sobre Elena, porém muitas cenas preservam informações essenciais até o limite da compreensão. O mistério deixa de estimular curiosidade quando o espectador já não sabe quais perguntas deveria fazer.

Willem Dafoe tem participação menor, mas oferece a Richard uma combinação convincente de fragilidade, egoísmo e afeto. O pai entrega à filha uma carga perigosa e também uma dívida emocional. Elena deseja ajudá-lo, investigar o tráfico e retomar o contato com a própria filha. São objetivos suficientes para sustentar o drama, embora o roteiro coloque novas ameaças em circulação antes de desenvolver as anteriores.

Um suspense sobrecarregado

“A Última Coisa que Ele Queria” possui uma boa ideia central. Uma jornalista perde a distância profissional e vira personagem da reportagem que perseguia. O envolvimento dos Estados Unidos na América Central oferece um cenário político rico, enquanto a relação entre Elena e Richard acrescenta uma ferida familiar à investigação.

Anne Hathaway mantém Elena ativa mesmo quando o roteiro se torna nebuloso. A atriz transmite inteligência, exaustão e medo sem transformar a personagem numa heroína infalível. Rosie Perez e Willem Dafoe ajudam a mostrar os vínculos que influenciam suas escolhas. Ben Affleck preserva a ambiguidade de Morrison, embora sua participação dependa demais de segredos guardados pelo roteiro.

O filme avança entre redações, hotéis, aeroportos e gabinetes, mas nem sempre explica por que cada parada importa. Elena segue reunindo nomes, registros e rotas enquanto procura uma maneira de voltar para casa e publicar o que descobriu. A busca mantém algum interesse, embora a narrativa esconda peças essenciais e torne a apuração mais cansativa do que tensa. Quando a jornalista tenta recuperar o domínio da própria matéria, já entregou documentos, segurança e liberdade a pessoas que mal conhece.


Filme: A Última Coisa que Ele Queria
Diretor: Dee Rees
Ano: 2023
Gênero: Crime/Drama/Mistério/Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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