A memória é uma testemunha pouco confiável, e talvez por isso mesmo seja tão sedutora. Guardamos acontecimentos inteiros que nunca se deram exatamente como recordamos, apagamos outros sem nenhuma deliberação consciente e, de tempos em tempos, somos surpreendidos por alguma imagem, um cheiro, uma voz, capazes de devolver-nos a uma existência que julgávamos morta. Louise Andersen sofre de uma versão muito mais brutal dessa experiência: ela sabe que teve uma vida antes de chegar a Hidra, na Noruega, mas não consegue alcançá-la. Em “A Mulher Secreta”, Barbara Topsøe-Rothenborg faz dessa lacuna o ponto de partida para um suspense sobre identidade que acerta justamente quando deixa de perguntar quem Louise era e passa a investigar por que talvez tenha sido necessário esquecer.
Louise vive com Joachim numa tranquilidade que parece menos felicidade que trégua. Os dois administram um pequeno café, cercados pela natureza escandinava e por aquela espécie de silêncio que tanto pode ser paz como prenúncio. Natalie Madueño encontra uma boa chave para a personagem evitando fazer da amnésia um espetáculo de perplexidade permanente; Louise aprendeu a conviver com o buraco dentro de si, construiu hábitos, um relacionamento, uma ideia suficientemente confortável de futuro, e não parece passar os dias exigindo do destino a restituição do que lhe foi roubado. É precisamente aí que o filme encontra sua primeira ironia. Talvez uma pessoa sem passado possa ser feliz desde que ninguém venha devolvê-lo. Mas alguém vem.
A mulher que todos dizem conhecer
Um desconhecido garante que Louise não é Louise. Ela seria Helene Söderberg, desaparecida na Dinamarca três anos antes, mulher de outro homem, mãe de um garoto e integrante de uma família ligada a um poderoso grupo de navegação. É uma daquelas premissas que pedem ao espectador alguma condescendência já no vestíbulo, e Topsøe-Rothenborg sabe disso. Em vez de gastar energia tentando conferir solidez científica à amnésia ou transformar a protagonista numa paciente de manual de neurologia, prefere explorar o constrangimento mais perturbador da situação: de repente, uma multidão de estranhos sabe mais sobre Louise do que ela própria.
Não tarda para que a existência modesta na ilha comece a parecer uma sala de espera. Joachim, interpretado por Pål Sverre Hagen com uma melancolia que evita transformá-lo no namorado provisório que um thriller menos cuidadoso descartaria sem piedade, representa justamente aquilo que Louise conquistou quando já não sabia quem era. Do outro lado está Edmund, seu marido dinamarquês, e Claes Bang entende rapidamente que o personagem se torna tanto mais inquietante quanto menos esforço faz para sê-lo. Há sujeitos que levantam a voz para dominar uma sala; outros só precisam falar baixo. Bang pertence à segunda categoria e transporta esse talento para um homem cuja intimidade com Helene é, aos olhos dela, uma espécie de invasão.
É um movimento bastante perverso. Edmund conhece gostos, lembranças, episódios domésticos, talvez maneiras de olhar e de tocar que Louise não reconhece como suas, e a diferença entre os dois passa a ser também uma disputa pela autoridade sobre a própria personagem. Quem define Helene? O marido que viveu com ela, a família que a criou ou a mulher que acorda todos os dias dentro daquele corpo sem reconhecer a biografia que lhe apresentam?
“A Mulher Secreta” cresce quando se mantém nesse desconforto e perde alguma força sempre que sente necessidade de acelerar as revelações. Suspenses sobre memória costumam padecer de uma doença narrativa curiosa: o esquecimento acontece quando o roteiro precisa esconder alguma coisa e a lembrança volta quando chega a hora de revelá-la. Topsøe-Rothenborg não escapa inteiramente desse expediente. Certos fragmentos surgem com conveniência demais, e a investigação de Louise vai adquirindo um aspecto de caça ao tesouro interior em que cada pista desbloqueia precisamente a porta seguinte. Funciona. Nem sempre convence.
O retorno à Dinamarca
Ainda assim, existe algo atraente no retorno da protagonista à Dinamarca. Louise vai ao encontro de Helene como alguém que visita a casa de uma morta e descobre que a morta é ela própria. Luxo, dinheiro, família, casamento, maternidade: tudo aquilo que deveria funcionar como prova de uma vida bem-sucedida aparece contaminado pela pergunta óbvia que ninguém consegue responder satisfatoriamente. Por que ela fugiria disso?
É uma pergunta mais interessante que “quem fez alguma coisa com Helene?”, embora o filme às vezes prefira a segunda, mais fácil, mais afeita às engrenagens do noir nórdico. Aos poucos, o império familiar perde o brilho e passa a adquirir contornos menos respeitáveis; relações anteriormente apresentadas como amorosas parecem esconder controle, interesses e pactos velhos, e a elegância daquele mundo torna-se progressivamente claustrofóbica. Topsøe-Rothenborg trabalha bem essa inversão. Hidra, tão isolada, era liberdade. A prosperidade dinamarquesa, com seus interiores impecáveis e suas pessoas civilizadas, é que começa a parecer uma prisão.
Natalie Madueño segura o filme porque sua personagem precisa viver duas experiências ao mesmo tempo. Louise quer descobrir Helene, mas também passa a temê-la. Há alguma coisa profundamente incômoda na possibilidade de saber que fomos alguém de quem talvez não gostássemos, ou que fizemos escolhas que o nosso eu atual jamais faria. A atriz deixa esse conflito aparecer sem transformar cada descoberta numa crise histérica, e a contenção combina com uma narrativa que depende muito mais da suspeita que do choque. Quando a protagonista olha para os que dizem amá-la, frequentemente não sabemos se ela tenta lembrar-se deles ou descobrir se deveria fugir.
O problema é que o filme tem tantas cartas escondidas que passa parte do segundo ato preocupado em distribuí-las. Surge uma informação, depois outra, e outra, e o prazer do mistério começa a disputar espaço com a mecânica das reviravoltas. Há uma diferença grande entre perceber que alguém mente e ficar aguardando apenas qual será a mentira revelada na sequência seguinte. O primeiro produz paranoia; o segundo, expectativa. “A Mulher Secreta” começa muito mais perto da primeira categoria, mas por vezes cede à segunda.
Um casamento desigual
Mesmo assim, há inteligência na maneira como o casamento é colocado no centro do perigo. Edmund não precisa ser um monstro ostensivo para que sua presença perturbe. O simples fato de reivindicar uma intimidade que Louise não consegue confirmar já estabelece uma relação de poder desigual, quase obscena. Ela está diante de um homem que pode dizer “você gostava disso”, “você fazia aquilo”, “nós éramos assim”, e não dispõe de nenhuma testemunha interior que possa contradizê-lo. A amnésia deixa de ser então apenas um artifício de thriller e passa a servir a uma ideia muito mais áspera: sem memória, até nossa personalidade pode tornar-se propriedade de terceiros.
Pål Sverre Hagen oferece o contraponto necessário. Joachim conhece Louise, não Helene, e justamente por isso seu vínculo talvez seja o menos contaminado pelo passado. É claro que essa simplicidade também traz um problema que o filme não resolve completamente: quanto mais terrível parece a vida anterior da protagonista, mais fácil torna-se romantizar a segunda, como se bastasse atravessar o mar, abrir um café e apaixonar-se por um homem gentil para que três décadas de existência deixassem de cobrar sua parte. O passado nunca é tão educado.
Topsøe-Rothenborg parece saber disso e resiste, na maior parte do tempo, à tentação de fazer da recuperação da memória uma cura. Lembrar não significa voltar a ser. Essa talvez seja a ideia mais fértil do filme. Helene pode recuperar acontecimentos, reconhecer rostos, recompor a noite em que desapareceu e chegar perto da verdade sobre as pessoas que a cercavam, mas nada obriga Louise a devolver-lhe a vida. Uma identidade não é um documento encontrado no fundo de uma gaveta.
Aquilo que a memória não decide
“A Mulher Secreta” poderia ter ido ainda mais longe nesse conflito e confiado menos na quantidade de segredos que acumula. Quando prefere a psicologia, encontra um filme mais sombrio e mais inquietante; quando corre para amarrar os fios do mistério, deixa ver demais o mecanismo. Ainda assim, Madueño e Bang preservam alguma opacidade até quando o roteiro ameaça eliminá-la, e o embate entre os dois torna-se mais interessante que a simples descoberta de culpados ou inocentes.
No fim das contas, Louise sai em busca de uma mulher desaparecida e encontra alguém que não pode ressuscitar integralmente. Helene existiu, amou, teve um filho, fez escolhas, teve medo e em algum momento deixou tudo para trás. Recuperar o que aconteceu naquela noite é uma coisa. Decidir o que fazer com essa mulher depois de encontrá-la é outra, muito mais difícil. A memória pode devolver-nos o passado. Não tem autoridade alguma sobre aquilo que resolveremos ser depois dele.

