Há famílias em que ninguém aprende a falar antes que uma tragédia obrigue. Tom Kennedy perdera a mulher e ainda tenta descobrir como exercer sozinho uma paternidade para a qual talvez jamais tenha se sentido inteiramente pronto; Pete Willis, seu pai, passou uma vida interrogando monstros sem conseguir encontrar uma linguagem minimamente confortável para conversar com o próprio filho. Entre os dois está Jake, oito anos, idade em que uma criança já entende a morte o bastante para sofrer por ela, mas ainda pode inventar companhias para tornar o mundo menos hostil. “O Homem que Sussurra” começa justamente nesse ponto de fratura e James Ashcroft faz uma escolha inteligente ao não tratar o assassino em série como o centro absoluto da história. O perigo existe, é terrível, aproxima-se cada vez mais, mas durante boa parte do filme interessa menos saber quem está atrás das crianças que compreender por que três homens de uma mesma família parecem condenados a perder uns aos outros.
Tom é escritor de romances policiais, dessas profissões que o cinema adora usar para castigar personagens com a ironia de descobrirem que os crimes sobre os quais escrevem são muito mais suportáveis quando permanecem dentro dos livros. Adam Scott dá-lhe um permanente aspecto de homem atrasado para a própria vida. Viúvo, tenta recomeçar com Jake em Featherbank, uma cidade suficientemente tranquila para estimular a mentira de que certos lugares permanecem a salvo da perversidade humana. Não permanecem. Um garoto desaparece, a polícia encontra indícios que recordam uma série de assassinatos cometidos anos antes e, quando Jake também some, Tom precisa fazer justamente aquilo que evitara durante muito tempo: procurar Pete, o pai de quem se afastou. Robert De Niro entra então no filme como se carregasse não apenas as décadas de experiência de Willis na polícia, mas todos os anos em que pai e filho deixaram de dizer o que deveriam.
Pete, Tom e Jake
O roteiro de Ben Jacoby e Chase Palmer, adaptando o romance de Alex North, percebe que existe algo particularmente perturbador em crimes contra crianças quando o criminoso não precisa aparecer. Basta a possibilidade de sua presença. Uma porta entreaberta, uma voz que talvez tenha sido ouvida, um amigo imaginário, uma frase infantil que os adultos recebem com condescendência: Ashcroft sabe que o medo nasce melhor dessas pequenas desordens do cotidiano que de um facínora surgindo de faca em punho. Há ecos evidentes de “O Silêncio dos Inocentes” e “Seven”, talvez evidentes demais, sobretudo quando Pete e Amanda Beck, a detetive vivida por Michelle Monaghan, voltam ao encarcerado Frank Carter, o Homem que Sussurra original. Michael Keaton aparece pouco, mas parece compreender melhor que todos que esse tipo de personagem só funciona quando encontra algum prazer no próprio espetáculo. Seu Carter é afetado, mordaz, desagradavelmente confortável na condição de monstro célebre. De Niro, do outro lado, responde fazendo quase nada, e a princípio a economia é boa; depois, em algumas cenas, já não se sabe se estamos diante da contenção de Pete ou do desinteresse do ator.
Ashcroft também não consegue impedir que a engrenagem policial pareça conhecida. Crianças desaparecidas, um assassino condenado que continua manipulando gente do cárcere, crimes atuais que reproduzem um método antigo, a suspeita de um cúmplice, policiais correndo atrás de ligações que deveriam ter enxergado antes: qualquer espectador razoavelmente familiarizado com thrillers dos últimos quarenta anos saberá reconhecer as peças. O diretor tenta contornar o problema depositando mais peso sobre a família Kennedy, e aí o filme volta a respirar. Pete capturou um homem capaz das maiores barbaridades, mas não conseguiu evitar que Tom crescesse ressentido com ele; Tom ganha a vida imaginando violências e, quando o horror entra em sua casa, descobre-se tão indefeso quanto qualquer pai; Jake carrega o luto pela mãe ao mesmo tempo que percebe, com a perspicácia assustadora das crianças, que os adultos responsáveis por protegê-lo estão quebrados.
Acston Luca Porto é importante justamente porque não transforma Jake num daqueles meninos de filme de terror que falam como professores aposentados e passam o tempo anunciando o apocalipse. Há estranheza nele, claro, principalmente na relação com uma misteriosa menina que parece atravessar os limites entre imaginação, memória e alguma coisa que Ashcroft prefere não definir logo. O sobrenatural insinua-se sem tomar inteiramente o filme, decisão acertada porque “O Homem que Sussurra” perderia muito se começasse a explicar cada sombra. Nem todas as assombrações precisam vir dos mortos. Algumas passam de pai para filho com extraordinária eficiência.
Norman Collins e o fascínio pelo horror
É também por esse caminho que Hamish Linklater e Owen Teague entram numa narrativa já povoada demais. Linklater faz Norman Collins, um colecionador de objetos associados a crimes famosos, um daqueles sujeitos cuja curiosidade pelo macabro avança alguns centímetros além do admissível e acaba servindo para que o próprio filme ironize nossa fascinação por assassinos em série. Há uma indústria inteira construída em torno deles — livros, podcasts, documentários, souvenires, fotografias, cartas, gravações —, e Carter sabe que é uma celebridade. Keaton percebe isso e exibe uma vaidade quase cômica, como se seu personagem considerasse a prisão apenas um camarim menos confortável. Teague, por sua vez, traz uma fragilidade que Ashcroft usa com mais inteligência, porque nesse universo homens não se tornam cruéis apenas por desejarem exercer poder. Alguns passam a vida tentando merecer o amor de quem jamais soube amar.
Michelle Monaghan merecia mais. Amanda Beck tem inteligência, energia e autoridade para disputar o filme com Pete e Tom, mas o roteiro não lhe concede uma existência muito além do caso. Em vários momentos ela é apenas a pessoa encarregada de chegar à conclusão seguinte, entregar uma informação e colocar a investigação novamente em movimento. Isso incomoda porque Monaghan consegue sugerir uma personagem maior que a escrita. Scott sofre do problema inverso: Tom está em todo lugar e, por vezes, o ator precisa carregar tanta aflição que a dor perde um pouco da espontaneidade. Ainda assim, há algo adequado em sua aparência permanentemente desalojada, principalmente quando contracena com De Niro. Um parece querer arrancar do outro uma palavra que jamais vem.
Visualmente, Ashcroft prefere o cinza, interiores escuros e uma gravidade contínua que às vezes deixa de produzir tensão para produzir apenas peso. O filme tem 114 minutos, mas parece mais longo quando abandona Jake e concentra-se demais nos procedimentos da investigação. É curioso que um suspense sobre um homem que sussurra tenha seus melhores momentos justamente quando baixa o volume: uma conversa truncada entre pai e filho, o silêncio de Pete antes de responder a Tom, Jake olhando para alguma coisa que talvez esteja ali, talvez não. Sempre que tenta ser um grande thriller de serial killer, “O Homem que Sussurra” parece lembrar muitos filmes melhores. Quando se resigna a ser uma história sobre pais que deixam feridas nos filhos e filhos que passam metade da vida tentando não repetir os pais, encontra alguma personalidade.
No fim, Frank Carter é menos assustador pelo que fez que pelo que deixou. Assassinos envelhecem, são presos, morrem; aquilo que plantaram continua procurando hospedeiros. Pete sabe disso tarde demais, Tom começa a compreendê-lo e Jake talvez seja o primeiro Kennedy a ter alguma chance de interromper a transmissão. Robert De Niro e Adam Scott nem sempre alcançam juntos a intensidade que a relação exige, mas quando alcançam, o mistério policial torna-se quase secundário. O sussurro que interessa a Ashcroft não vem necessariamente de trás de uma porta. Às vezes vem de muito antes, de quando um menino percebe pela primeira vez que seu pai está diante dele, mas já não sabe como alcançá-lo.

