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Há um problema básico em filmar tornados: quando a coisa finalmente aparece, todo o resto corre o risco de virar decoração. Casas voam, automóveis rolam como latas vazias, árvores são arrancadas e o espectador esquece rapidamente quem estava discutindo com quem meia hora antes. “13 Minutos de Tormenta” faz uma escolha curiosa, e em boa medida acertada: Lindsay Gossling segura o monstro o quanto pode e dedica-se primeiro à cidade que ele vai destruir. Minninnewah, no interior de Oklahoma, é uma dessas comunidades americanas em que todos parecem separados por enormes distâncias e, ao mesmo tempo, sabem mais da vida alheia do que deveriam. Há agricultores quebrados, imigrantes tentando começar de novo, uma adolescente grávida, um rapaz escondendo dos pais a própria vida amorosa, uma criança surda e gente encarregada de avisar aos demais que o céu está prestes a cair. Cairá.

Gossling quer fazer muito mais que um filme-catástrofe. Às vezes quer fazer coisas demais. O roteiro distribui entre quatro famílias quase todo o repertório de conflitos sociais da América contemporânea, de imigração e intolerância religiosa a homossexualidade, gravidez indesejada, pobreza e o abismo entre aquilo que uma comunidade afirma defender e a maneira como trata quem destoa da paisagem. É uma ambição respeitável, mas também uma armadilha. Durante boa parte do primeiro ato, “13 Minutos de Tormenta” parece a reunião de quatro ou cinco filmes menores que ainda não sabem que deverão encontrar-se sob a mesma nuvem.

Quatro famílias sob o mesmo céu

Rick e Tammy vivem numa fazenda que já conheceu dias melhores. Trace Adkins empresta ao fazendeiro a rigidez de um homem acostumado a interpretar qualquer mudança como ameaça, enquanto Anne Heche faz de Tammy algo um pouco mais complexo, uma mulher capaz de acolher e ferir com a mesma convicção, desde que esteja certa de agir segundo seus princípios. O filho, Luke, guarda justamente o segredo que sabe ser intolerável dentro de casa: relaciona-se com Daniel, um dos trabalhadores da propriedade. Gossling não precisa esperar o tornado para mostrar que há coisas prestes a desabar naquela família.

Perto dali, Ana e Carlos tentam realizar a versão mais humilde possível do sonho americano. Ela trabalha num hotel; ele, apesar de hábil com máquinas, aceita o serviço que consegue por falar pouco inglês e viver sob a insegurança de quem nunca sabe se a vida construída num país estranho resistirá ao dia seguinte. Paz Vega é especialmente eficiente ao não transformar Ana numa santa da imigração. Há cansaço, orgulho, impaciência e uma alegria quase infantil diante da possibilidade de finalmente possuir uma casa. Essa pequena conquista ganha uma importância enorme porque Gossling sabe o que fará com o cenário mais adiante. O espectador também sabe. É um dos raros casos em que a previsibilidade ajuda.

Jess e Maddy vivem outra espécie de tormenta. A filha descobre-se grávida e tenta decidir o que fazer enquanto o homem envolvido na história demonstra ser muito menos adulto que ela. Thora Birch dá a Jess um pragmatismo que o filme deveria ter emprestado a mais personagens. Ela não precisa de discursos intermináveis para parecer uma mãe: olha para a filha, percebe que alguma coisa está errada, pergunta, espera. Sofia Vassilieva responde no mesmo registro, e as duas produzem alguns dos momentos mais humanos de uma narrativa que às vezes perde a mão justamente quando tenta provar sua humanidade.

É por Maddy que a história chega a Peyton, filha de Kim e Brad. Amy Smart e Peter Facinelli formam o casal talvez mais funcional do enredo, ela ligada ao gerenciamento de emergências, ele meteorologista, ambos suficientemente familiarizados com tempestades para saber que familiaridade nenhuma protege contra a natureza. Peyton é surda, e Shaylee Mansfield transforma uma característica que poderia ter virado mais um item na extensa lista de questões sociais do roteiro em algo concreto, físico, decisivo. Quando a ameaça deixa de ser uma imagem no radar e ganha ruas, telhados, vidraças e corpos, é ela quem oferece ao filme seu melhor ponto de vista: enquanto todos dependem de sirenes, gritos e ordens, Peyton precisa compreender o perigo por outros sinais. Pela primeira vez, a catástrofe deixa de ser espetáculo e passa a ser experiência.

Quando o tornado chega

Até ali, Gossling havia trabalhado longamente para o tornado. Quando ele chega, chega depressa. E isso é melhor do que parece. Quem espera uma atualização de “Twister” (1996), com a câmera perseguindo funis por estradas e atores correndo de objetos arremessados pelo vento, provavelmente terá a impressão de ter comprado ingresso para outro filme. A diretora não está particularmente interessada na tempestade enquanto entidade cinematográfica. Interessa-lhe o segundo seguinte.

Esse é o ponto em que “13 Minutos de Tormenta” melhora muito. A cidade que antes era composta de casas, oficinas, quartos de hotel, celeiros e ruas reconhecíveis reduz-se a madeira, metal, barro, sangue e gente procurando gente. As pequenas guerras particulares perdem momentaneamente sua majestade. Não porque deixem de existir, mas porque a sobrevivência impõe uma hierarquia brutal aos problemas. É difícil sustentar certas vaidades quando alguém precisa ser retirado debaixo de uma parede.

O filme, contudo, comete um pecado típico de melodramas de catástrofe: acredita um pouco demais no poder moral dos escombros. Gossling parece tentada a fazer do tornado uma espécie de juiz celestial capaz de reorganizar preconceitos, aproximar pais e filhos, dissolver desconfianças e ensinar solidariedade a quem, poucas horas antes, mal reconhecia a humanidade do vizinho. Seria confortável se grandes tragédias funcionassem assim. A História demonstra o contrário com irritante frequência. Pessoas podem sair melhores debaixo das ruínas, claro. Também podem sair iguais. Ou piores.

Por isso os melhores momentos do longa não são aqueles em que alguém aprende uma lição, mas os instantes de suspensão em que ninguém ainda teve tempo de aprender nada. Um pai procura um filho. Uma mãe não sabe onde está a filha. Alguém chama por um nome sem receber resposta. Outro desconhecido ajuda porque há uma pessoa ferida à sua frente e isso basta. Nessas horas, o roteiro abandona por alguns minutos a necessidade de explicar a América e o filme encontra enfim sua própria força.

Anne Heche e Thora Birch entendem muito bem essa mudança de temperatura. Paz Vega também. Depois do tornado, seus personagens já não precisam carregar placas dizendo o que representam, e as atrizes ficam livres para simplesmente reagir àquilo que veem. Trace Adkins beneficia-se da mesma operação: Rick torna-se mais interessante quando precisa agir e já não tem tempo para defender suas certezas. A natureza, nesse aspecto, presta um pequeno favor ao roteiro.

“13 Minutos de Tormenta” poderia ter sido mais seco, menos ansioso para acomodar tantas causas dentro de uma cidade tão pequena. Há ocasiões em que Minninnewah parece ter sido desenhada não por urbanistas, mas por um roteirista determinado a fazer todos os debates americanos se encontrarem na mesma esquina. Assim mesmo, a opção de dedicar mais atenção às pessoas que ao vendaval diferencia o filme da pletora de produções em que a destruição é o único personagem verdadeiramente desenvolvido.

No fim das contas, os treze minutos do título não dizem respeito apenas ao tempo necessário para encontrar um abrigo. São treze minutos durante os quais tudo aquilo que parecia sólido revela-se provisório: a fazenda, a casa recém-sonhada, os ressentimentos, a autoridade dos pais, a convicção religiosa, a impressão de que haverá tempo para resolver depois aquilo que não se teve coragem de enfrentar agora. Gossling exagera quando pretende que uma tormenta dê respostas a todos. Mas acerta ao lembrar que ela pode arrancar, num intervalo ridiculamente curto, quase todas as desculpas.


Filme: 13 Minutos de Tormenta
Diretor: Lindsay Gossling
Ano: 2021
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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