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Em 2004, Tony Scott levou John Creasy (Denzel Washington) à Cidade do México, onde o ex-agente aceita proteger uma menina em meio a uma onda de sequestros. John Creasy chega ao México para visitar Paul Rayburn (Christopher Walken), antigo companheiro de trabalho e uma das poucas pessoas que ainda toleram seu silêncio. Creasy atuou em operações secretas, bebe em excesso e carrega lembranças que prefere não dividir. Sua relação com a própria vida está por um fio. Rayburn percebe o estado do amigo e consegue para ele um emprego de guarda-costas.

Em “Chamas da Vingança”, a Cidade do México vive sob o medo dos sequestros de crianças pertencentes a famílias ricas. Samuel Ramos (Marc Anthony), empresário do setor automobilístico, precisa contratar um profissional para proteger sua filha e cumprir uma exigência do seguro. Sua mulher, Lisa Ramos (Radha Mitchell), recebe Creasy com certa desconfiança, mas aceita a escolha por acreditar na experiência dele.

A pessoa protegida é Lupita Ramos (Dakota Fanning), chamada de Pita, uma menina de 9 anos falante, curiosa e pouco disposta a respeitar a muralha emocional do novo funcionário. Ela deseja saber quem Creasy é, o que fez antes de chegar ali e por que parece tão aborrecido com o planeta inteiro. Ele responde pouco, mantém a seriedade e tenta tratar a convivência apenas como trabalho.

Pita, porém, possui o tipo de insistência que derruba qualquer plano de isolamento. Aos poucos, as perguntas deixam de incomodá-lo tanto. A menina passa boa parte do dia ao lado dele, seja no trajeto para a escola, nas aulas de piano ou durante os treinos de natação. O homem contratado para mantê-la viva começa, sem admitir, a recuperar o interesse pela própria existência.

A amizade nasce na piscina

Creasy percebe que Pita tem talento para a natação, embora perca segundos importantes por causa do medo do tiro de largada. Ele assume os treinamentos e impõe uma rotina mais disciplinada. O trabalho inclui repetições, orientações firmes e uma confiança que cresce entre os dois. A piscina oferece a Creasy uma função muito diferente daquela exercida em seu passado.

Essas cenas dão a “Chamas da Vingança” sua parte mais sensível. Dakota Fanning interpreta Pita sem excesso de doçura ou esperteza artificial. A menina é afetuosa, mas também fala demais, insiste em perguntas inconvenientes e ocupa todos os espaços deixados pelo guarda-costas. Denzel Washington responde com uma atuação contida, construída por olhares, pausas e pequenos gestos de cuidado.

A relação entre os dois fornece a base emocional necessária para tudo o que virá depois. Sem esse período de convivência, Creasy seria apenas mais um sujeito armado distribuindo punições. Tony Scott reserva tempo para mostrar por que Pita se torna importante para ele. O afeto nasce durante tarefas comuns e ganha força antes que a violência tome conta da história.

O sequestro muda o trabalho

A rotina é destruída quando homens armados cercam Creasy e Pita na saída de uma aula de piano. Ele percebe a movimentação suspeita e tenta impedir o ataque, mas acaba gravemente ferido. Os criminosos levam a menina, enquanto o guarda-costas é afastado do caso durante sua recuperação.

Os sequestradores exigem dez milhões de dólares para libertar Pita. Samuel busca reunir o valor, Lisa aguarda notícias e a operação de pagamento envolve intermediários e policiais. Nada ocorre conforme a família esperava. O resgate desaparece, a comunicação com os criminosos fica ameaçada e a possibilidade de recuperar a criança se torna cada vez mais incerta.

Creasy desperta ferido e passa a ser tratado com suspeita pelas autoridades. Miguel Manzano (Giancarlo Giannini), agente da polícia federal mexicana, percebe indícios de corrupção dentro da própria corporação. A jornalista Mariana Garcia Guerrero (Rachel Ticotin) também investiga casos semelhantes e reúne informações sobre policiais ligados a grupos de sequestradores.

Paul Rayburn ajuda o amigo a permanecer protegido durante a recuperação. Quando Creasy descobre que a investigação oficial pode ter sido comprometida, decide procurar os responsáveis por conta própria. Seu objetivo inclui identificar quem planejou o crime, quem recebeu o dinheiro e quem ofereceu proteção aos sequestradores.

Uma investigação feita à força

A segunda metade de “Chamas da Vingança” abandona boa parte da delicadeza anterior e mergulha na vingança. Creasy usa contatos, armas, fotografias e informações fornecidas por Mariana para seguir os participantes do crime. Cada pessoa interrogada oferece uma nova ligação, levando-o de executores menores a figuras com maior poder.

O filme passa a combinar investigação policial, ação e violência pesada. Creasy conhece os métodos usados por organizações criminosas e sabe pressionar quem tenta esconder informações. Tony Scott não suaviza suas punições. Algumas sequências possuem brutalidade suficiente para incomodar até quem chegou preparado para um suspense de vingança.

Denzel Washington impede que o protagonista seja engolido pela violência. Creasy age com frieza, mas permanece marcado pela culpa e pelo afeto que desenvolveu por Pita. Sua busca nasce da raiva, embora também revele a tentativa desesperada de cumprir uma promessa de proteção. Ele falhou quando a menina foi levada e passa a tratar cada nome descoberto como uma dívida pessoal.

A corrupção policial torna a procura ainda mais perigosa. Creasy enfrenta criminosos que contam com uniformes, cargos e acesso a informações sigilosas. Manzano tenta agir dentro da lei, enquanto Mariana usa seu trabalho jornalístico para expor relações que as autoridades prefeririam manter escondidas. Os três seguem caminhos diferentes, embora procurem pessoas ligadas ao mesmo sequestro.

Tony Scott acelera a vingança

Tony Scott emprega câmera inquieta, cortes curtos, alterações de velocidade e palavras sobrepostas à imagem. Nos primeiros minutos, essa escolha chega a disputar espaço com a história. A montagem parece incapaz de ficar sentada por mais de cinco segundos, mesmo quando Creasy e Pita sustentariam a cena sem qualquer auxílio.

Depois do sequestro, o estilo se ajusta melhor à busca do protagonista. As interrupções acompanham sua ansiedade e o pouco tempo disponível para descobrir o paradeiro da menina. Telefones, carros, ruas movimentadas e registros bancários deixam pistas incompletas. Creasy precisa unir cada informação antes que outro participante desapareça ou destrua provas.

A Cidade do México também possui presença decisiva. O longa percorre bairros ricos, vias congestionadas, delegacias e áreas dominadas pelo crime. Há exageros na maneira pela qual o lugar é retratado, sobretudo pela insistência em associá-lo à corrupção e à violência. Ainda assim, o ambiente ajuda a criar uma sensação constante de vigilância e insegurança.

O afeto sustenta a violência

“Chamas da Vingança” dura mais de duas horas e poderia perder algumas cenas sem prejudicar o enredo. A caçada se estende, repete métodos e por vezes demonstra prazer excessivo nas punições aplicadas por Creasy. Mesmo assim, a ligação construída entre ele e Pita mantém o interesse. O público sabe o que aquela menina representou para um homem que havia desistido de quase tudo.

Tony Scott entrega um suspense violento, sentimental e carregado de energia. Christopher Walken traz sobriedade a Paul Rayburn, Radha Mitchell dá força ao desespero de Lisa e Giancarlo Giannini oferece equilíbrio a Manzano. Marc Anthony interpreta Samuel com a inquietação de um pai cercado por pressões financeiras e familiares.

O grande mérito permanece com Denzel Washington e Dakota Fanning. Ele apresenta um homem destruído que volta a cuidar de alguém. Ela transforma Pita numa criança viva, afetuosa e às vezes deliciosamente inconveniente. Quando o sequestro separa os dois, “Chamas da Vingança” já ofereceu a Creasy uma razão suficiente para atravessar a cidade e perseguir cada pessoa envolvida no crime.


Filme: Chamas da Vingança
Diretor: Tony Scott
Ano: 2004
Gênero: Ação/Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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