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No início dos anos 1950, Eilis Lacey (Saoirse Ronan) deixa a pequena Enniscorthy, na Irlanda, para trabalhar e estudar no Brooklyn, em Nova York. A mudança, planejada por sua irmã Rose (Fiona Glascott), abre uma possibilidade de futuro para a jovem, que encontra poucas oportunidades em sua cidade. Entre a saudade da família, a adaptação aos Estados Unidos e o romance com Tony Fiorello (Emory Cohen), Eilis começa a criar raízes longe de casa. Uma perda familiar, porém, exige seu retorno e coloca diante dela duas vidas possíveis.

Uma jovem sem espaço na Irlanda

Eilis mora com Rose e a mãe, Mary Lacey (Jane Brennan), numa cidade onde emprego e casamento parecem obedecer a uma fila pouco generosa. Ela trabalha aos domingos na mercearia da desagradável senhorita Kelly (Bríd Brennan), uma mulher que trata clientes e funcionárias com a simpatia de uma porta emperrada. O salário é pequeno, as perspectivas também.

Rose percebe que a irmã precisa sair daquele ambiente para ter alguma independência. Com a ajuda do padre Flood (Jim Broadbent), sacerdote irlandês que vive em Nova York, consegue emprego e hospedagem para Eilis nos Estados Unidos. A decisão oferece uma saída profissional, mas cobra a separação entre as duas irmãs.

A viagem de navio derruba qualquer fantasia elegante sobre começar de novo. Eilis passa mal e perde o acesso ao banheiro da cabine, ocupado por passageiras egoístas. Georgina (Eva Birthistle), sua companheira de quarto, conhece os desconfortos da travessia e oferece comida, conselhos e instruções para a chegada. Graças a ela, a jovem desembarca com alguma segurança, embora ainda assustada com o país que terá de aprender a habitar.

A solidão no Brooklyn

Em Nova York, Eilis passa a morar na pensão da senhora Kehoe (Julie Walters), junto de outras jovens irlandesas. A proprietária controla horários, roupas e conversas durante o jantar. Julie Walters dá à personagem uma severidade divertida, sobretudo quando transforma a mesa em tribunal para assuntos tão graves quanto maquiagem, namorados e o comportamento das hóspedes.

Eilis também começa a trabalhar numa loja de departamentos. A supervisora, senhorita Fortini (Jessica Paré), percebe que a nova funcionária atende os clientes sem entusiasmo. O problema nasce da saudade. Longe da mãe e de Rose, Eilis atravessa os dias contando as horas para receber cartas da Irlanda.

O padre Flood intervém antes que essa tristeza comprometa o emprego. Ele inscreve a jovem num curso noturno de contabilidade no Brooklyn College, área em que ela deseja trabalhar. As aulas ocupam parte do tempo livre e oferecem uma meta concreta. Pouco a pouco, Eilis aprende a circular pela cidade, melhora no atendimento e passa a depender menos das notícias vindas de Enniscorthy.

John Crowley acompanha essa adaptação com sensibilidade e discrição. A mudança aparece nos gestos de Eilis, nas roupas, na maneira de caminhar e na segurança adquirida durante as conversas. Saoirse Ronan sustenta essas transformações sem recorrer a grandes demonstrações. Sua personagem continua reservada, mas deixa de parecer uma visitante perdida.

Tony transforma a rotina

Durante um baile da comunidade irlandesa, Eilis conhece Tony Fiorello (Emory Cohen), um encanador ítalo-americano. Ele admite que frequenta aqueles eventos porque gosta das jovens irlandesas, confissão que poderia soar ensaiada, mas ganha graça pela falta de malícia do rapaz. Tony acompanha Eilis até a pensão e procura manter o contato.

O namoro cresce entre passeios, encontros depois do trabalho e conversas sobre o futuro. Tony fala depressa, demonstra afeto sem cerimônia e pertence a uma família numerosa. Eilis, mais contida, observa antes de se entregar. A diferença entre os dois dá leveza à relação e impede que o romance fique açucarado demais.

Quando Tony leva a namorada para jantar com os Fiorello, as colegas da pensão ensinam Eilis a comer espaguete sem manchar o vestido. A aula improvisada revela o tamanho da preocupação criada por uma refeição. Durante o encontro, Frankie (James DiGiacomo), o irmão mais novo de Tony, oferece opiniões pouco diplomáticas sobre irlandeses. O menino quase arruína a noite, mas também torna a família mais verdadeira e menos decorativa.

Tony apresenta a Eilis seus planos de construir casas em Long Island ao lado dos irmãos. Pela primeira vez desde a mudança, ela consegue imaginar uma vida permanente nos Estados Unidos. O Brooklyn deixa de representar apenas trabalho e estudo. Torna-se o lugar onde existem afeto, formação profissional e uma casa que ainda será erguida.

O retorno para Enniscorthy

Uma notícia dolorosa vinda da Irlanda interrompe essa estabilidade. Eilis decide voltar temporariamente para acompanhar a mãe. Tony teme que a distância enfraqueça o compromisso dos dois e pede uma prova de que ela retornará. A exigência coloca o casal diante de uma escolha séria antes da viagem.

Ao chegar a Enniscorthy, Eilis encontra uma cidade diferente daquela que deixou. A mudança ocorre menos nas ruas do que na maneira pela qual as pessoas passam a enxergá-la. A jovem tímida que trabalhava na mercearia agora possui experiência numa loja nova-iorquina e formação em contabilidade.

Ela assume temporariamente o trabalho que pertencia a Rose e demonstra competência. Nancy (Eileen O’Higgins), sua amiga, prepara o casamento e inclui Eilis nos encontros sociais. A mãe também se acostuma novamente com sua presença, o que torna a data da partida cada vez mais desconfortável.

Nesse período, Eilis conhece melhor Jim Farrell (Domhnall Gleeson), rapaz educado, de família conhecida e com boas condições financeiras. Jim representa a vida que poderia ter surgido na Irlanda caso as oportunidades tivessem chegado antes. Ele oferece companhia e estabilidade sem a energia falante de Tony. Domhnall Gleeson interpreta o personagem com delicadeza, sem transformá-lo num adversário desagradável.

Duas vidas possíveis

O roteiro adaptado por Nick Hornby, baseado no romance de Colm Tóibín, cria uma situação difícil porque nenhum dos caminhos parece absurdo. Tony ama Eilis e participou de sua vida no Brooklyn. Jim surge quando ela volta mais madura e preparada para ocupar um espaço em Enniscorthy. Escolher um deles também significa escolher uma cidade, uma família e uma versão de si mesma.

Eilis adia algumas decisões enquanto os compromissos irlandeses se acumulam. O trabalho pode se tornar permanente, o casamento de Nancy prolonga a visita e Jim demonstra interesse. Enquanto isso, as cartas de Tony chegam de Nova York e lembram que existe uma vida esperando do outro lado do oceano.

Saoirse Ronan torna essa dúvida compreensível mesmo quando Eilis age de maneira frustrante. A atriz permite que vergonha, desejo e culpa convivam no mesmo olhar. Ela não apresenta a personagem como vítima de dois pretendentes. Eilis participa da confusão, guarda informações e aproveita por algum tempo a possibilidade de permanecer entre dois lugares.

“Brooklyn” possui a elegância de um romance de época, mas preserva questões bastante atuais. Partir pode oferecer independência sem eliminar a saudade. Voltar pode trazer conforto sem devolver a pessoa ao ponto em que estava. John Crowley trata essas escolhas com serenidade, apoiado por uma atuação extraordinariamente humana de Saoirse Ronan.

A história avança para uma decisão que envolve muito mais do que Tony ou Jim. Eilis precisa reconhecer onde construiu sua própria vida e assumir o preço dessa escolha. Quando o passado ameaça decidir por ela, a jovem finalmente toma para si o direito de escolher a passagem e o destino.


Filme: Brooklyn
Diretor: John Crowley
Ano: 2015
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
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