Hobbits não foram feitos para aventuras. Têm pés grandes, casas pequenas, horários rígidos para as refeições e uma concepção razoavelmente saudável do que significa aproveitar a existência. Talvez seja justamente por isso que J.R.R. Tolkien tenha escolhido um deles para atravessar montanhas, cavernas e territórios tomados por criaturas que fariam qualquer cidadão prudente voltar correndo para casa. “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” entende essa piada essencial, mas Peter Jackson sofre de um problema que Bilbo Bolseiro jamais teria: não sabe quando já é suficiente.
Depois de transformar “O Senhor dos Anéis” numa das grandes realizações do cinema fantástico contemporâneo, Jackson retorna à Terra-média e decide extrair uma trilogia de um livro consideravelmente mais modesto. O resultado dessa escolha está em cada dobra dos 166 minutos do primeiro volume. Há momentos esplêndidos, outros desnecessários, alguns simplesmente longos demais e uma impressão permanente de que o diretor está tentando converter uma aventura relativamente singela numa nova epopeia porque já não sabe visitar aquele universo sem convocar exércitos. Ainda assim, Bilbo não se deixa contaminar pela grandiloquência. Martin Freeman encontra no personagem uma mistura muito engraçada de civilidade e irritação, começando pela invasão de sua casa por treze anões que comem, bebem, cantam, quebram pratos e comportam-se como se o anfitrião fosse apenas mais um móvel da sala.
Entre Thorin e a despensa de Bilbo
Gandalf, interpretado por Ian McKellen com a autoridade de quem parece ter conhecido magos de verdade, chega antes e conduz a pequena conspiração destinada a arrancar Bilbo do Condado. A missão é recuperar Erebor, reino tomado pelo dragão Smaug, e restaurar a linhagem de Thorin Escudo-de-Carvalho. Richard Armitage empresta ao líder dos anões uma solenidade quase sempre excessiva, mas útil para contrapor-se à perplexidade de Freeman. Thorin acredita que está restaurando a honra de seu povo; Bilbo, por outro lado, ainda está tentando entender por que não pode tomar o chá em paz. Entre esses dois estados de espírito, Jackson monta quase todo o filme.
Ao mesmo tempo, a Terra-média continua deslumbrante. Andrew Lesnie fotografa paisagens que já conhecemos sem dar-lhes aspecto de cartão-postal reciclado, enquanto Howard Shore devolve à música aquele componente mítico que parece existir desde muito antes dos personagens. Além disso, a direção de arte cerca cada povo de objetos, texturas e arquiteturas próprias.
Entretanto, a abundância começa a cobrar juros. Jackson expande referências dos apêndices de Tolkien, introduz ameaças que apontam para “O Senhor dos Anéis” e alonga confrontos cujo principal objetivo parece ser justificar o tamanho industrial da empreitada. Por isso, o filme às vezes se comporta como se uma história grande precisasse, necessariamente, parecer enorme.
Quando a tecnologia mostra demais
A experiência com a alta taxa de quadros, os célebres 48 fotogramas por segundo em determinadas exibições, também expôs um paradoxo curioso: quanto mais nítida a fantasia, mais evidente pode ficar sua fabricação. Figurinos, maquiagem e cenários ganharam uma definição que às vezes aproximava a Terra-média de um espetáculo teatral filmado. Era tecnologia de ponta trabalhando, inadvertidamente, contra a ilusão. Ainda assim, nada disso importa muito quando Bilbo cai na caverna onde vive Gollum.
Andy Serkis volta ao personagem com uma precisão assombrosa, e Jackson finalmente reduz a escala. No entanto, não há exército, cidade arrasada ou monstro colossal. Há dois seres numa gruta, um anel, algumas adivinhas e a possibilidade de alguém não sair dali. Desse modo, é disparada a melhor sequência do filme, justamente porque recupera Tolkien em sua essência: inteligência, medo, humor e compaixão cabendo no mesmo buraco escuro.
“O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” poderia ser menor e talvez por isso seria maior. Jackson enfeita demais uma história que já tinha encantamento de sobra, mas Martin Freeman impede que a maquinaria engula o homem — ou, neste caso, o hobbit. Afinal, Bilbo parte porque alguma coisa nele suspeita que conforto não é a mesma coisa que vida. Quando finalmente atravessa a porta redonda de casa, ainda não sabe que está deixando para trás muito mais que uma despensa bem-abastecida. Nós sabemos. E seguimos junto.

