Depois de certa idade, a vida parece entrar na frequência paralela e melancólica que aos poucos relega a um plano distante tudo quanto pensávamos nos satisfazer. Uns lutam contra o invasor, outros não veem saída e se entregam. De qualquer forma, perdura a sensação de que o existir foge-nos, deixando no lugar alguma coisa entre a teimosia e a morte ela mesma. Nessas horas, toda ajuda é bem-vinda e métodos pouco ortodoxos ganham status de ciência — ao menos até que surja uma ideia melhor, para problemas que não esperam.
Gente como Phil Bassett, o protagonista de “Agora ou Nunca”, não desperta a curiosidade de ninguém, no máximo o desdém mascarado de comiseração, e assim ele tenta ir levando. Aqui, como é de seu gosto, Mike Leigh descortina os bastidores da vida da classe trabalhadora da Grã-Bretanha da virada do século, mas adiciona um toque de desalento ao mirar um homem exasperantemente comum, perdido nos sonhos reles que não pode viver.
Desencanto com graça
A bordo de um táxi alugado, Phil se refugia das mazelas de uma Londres cinza e inamistosa, volta para casa num conjunto habitacional popular e vai à segunda parte de sua tragédia. Ele é casado com Penny, uma caixa de supermercado já conformada com aquilo que a sorte lhe preparou, e é pai de Rachel e Rory, dois filhos gordos como ele, cada qual com suas carências.
Num roteiro meticuloso, Leigh confere a todos esses personagens o seu momento próprio. Mostra Rachel no asilo onde trabalha como faxineira e depois lendo sozinha no quarto, enquanto Rory passa os dias no sofá, de onde só sai para comer e arrumar confusão com um vizinho que nunca reage. Talvez Phil tenha legado à prole esse desajuste para com o mundo sem querer, até pelo DNA, um argumento que o diretor-roteirista elabora sensível ao que o ótimo elenco tem na manga. Timothy Spall sublinha os confrontos internos de Phil numa performance sem artificialismos, com Lesley Manville naquele silêncio que grita.

