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Por mais íntimas que pareçam, escolhas nunca são individuais de todo. Podem definir a vida de alguém para o bem ou para o mal e um dia, muito antes do que se pense e do que se queira, revelam o que esconderam em anos. Aquele sentimento de estar sempre à mercê do juízo de quem nunca se preocupou em calçar nossos sapatos e experimentar na carne nossas dores é um dos flagelos com os quais todos temos de aprender a lidar, e homens como Trond Sander, resolutamente afastados de um mundo premido pelo politicamente correto, passam por vilões. Contudo, se resistência é a palavra, o norueguês Hans Petter Moland é a pessoa mais adequada para reger os silêncios eloquentes de “Cavalos Roubados”. Dono de um currículo repleto de tramas que misturam suspense, dilemas éticos e arfante clamor por reparação, Moland sabe muito bem o que extrair de seu protagonista, falando de passados que não passam nunca e de erros que nenhuma penitência expia.

O passado é para sempre

No prólogo, Trond é um homem já raspando na velhice no inverno de 1999, morando sozinho numa choupana no interior da Noruega, sem alegrias nem tristezas. Sem que se perceba, Moland vai levando a narrativa para o verão de 1948, quando o país ainda tentava reerguer-se da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), após a ocupação alemã iniciada em abril de 1940 e encerrada em maio de 1945. O ermitão lembra-se de um episódio da adolescência, numa passagem que o diretor torna especialmente melancólica com a ajuda da fotografia de Rasmus Videbæk.

Orientando-se pelo romance homônimo de Per Petterson, de 2003, o roteiro de Moland congrega morte, luto e solidão na paisagem exuberante e misteriosa do leste norueguês. Descortina uma complexa relação entre um garoto de quinze anos e o pai que admira a uma respeitosa distância e dá ao elenco a liberdade necessária para que a história chegue onde deve. Stellan Skarsgård dá substância a um Trond entre a resignação e uma cólera de si mesmo, mas o núcleo do jovem Trond, de Jon Ranes, também enche os olhos.


Filme: Cavalos Roubados
Diretor: Hans Petter Moland
Ano: 2019
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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