Discover

Ricos vão desenvolvendo hábitos estranhos até para si mesmos, tudo para se manter o mais distantes quanto conseguirem da massa ignara, os pobres mortais que, trocando em miúdos, permitem-lhes jamais descer do pedestal de glória e encantamento com que o destino os regalara. É claro que nunca há garantia o bastante de que fortunas colossais não derretam de um minuto para o outro e a magia se desvaneça para sempre. E por isso é que abastados e suas camarilhas rodeiam-nos primando pela sutileza, mas também sabendo projetar suas garras quando necessário, dando conta dos predadores antes de serem vistos. Muito dinheiro é capaz de esconder mazelas ainda mais penosas que a falta do mais básico, como Lone Scherfig mostra no atordoante “Clube dos Intocáveis”, um comentário mordaz sobre o poder como dispositivo de manipulações as mais repulsivas e aparentemente despropositadas, mas que guardam uma estranha lógica e uma razão.

Festim diabólico

Miles Richards chega a Oxford cheio de sonhos e de planos que podem ou não virar realidade. A dramaturga inglesa Laura Wade adapta o texto de “Posh”, sua peça levada aos palcos em 2010, fazendo do calouro o mestre de cerimônia da história. É a figura charmosa e enigmática que leva quem assiste pelos desvãos quase milenares de uma das mais rigorosas universidades do mundo, e logo percebe-se que certas lendas fazem sentido.

Miles é um rapaz decente, mas não é ingênuo e entende que precisa aceitar as regras do jogo caso queira fazer parte do Riot Club do título original e estar entre os que mandam, o que tem um preço. Scherfig mistura com destreza glamour e a atmosfera lúgubre que galvaniza o texto de Wade e, na versão cinematográfica, a crescente rivalidade entre os personagens de Max Irons e Sam Claflin ajuda a segurar o público até o último (e revelador) instante.


Filme: Clube dos Intocáveis
Diretor: Lone Scherfig
Ano: 2014
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

Leia Também