Ronnie Miller (Miley Cyrus) desembarca numa cidade litorânea da Geórgia com uma missão bastante simples. Sobreviver às férias, falar o mínimo possível com o pai e voltar para Nova York. Sua mãe, Kim (Kelly Preston), acredita que a temporada pode aproximar a jovem de Steve Miller (Greg Kinnear), que vive sozinho desde o divórcio. Ronnie discorda dessa esperança com toda a energia disponível aos 17 anos. Ela culpa o pai pela separação, abandonou o piano que os unia e trata a casa dele quase como uma sala de espera.
Dirigido por Julie Anne Robinson, “A Última Música” adapta a obra de Nicholas Sparks e segue uma fórmula conhecida do escritor. Há uma praia ensolarada, um rapaz bonito, uma família ferida e assuntos importantes mantidos em silêncio. A diferença está no papel reservado à música. O piano representa uma ligação antiga entre Ronnie e Steve, mas também guarda a raiva que ela acumulou desde a partida dele. Voltar a tocar exige que a adolescente aceite outra vez a presença do pai em sua vida.
Férias na casa do pai
Steve recebe Ronnie e Jonah (Bobby Coleman), o filho mais novo, sem exigir demonstrações de carinho. Jonah logo se interessa pelo trabalho do pai na reconstrução de um vitral para a igreja local. Ronnie prefere passar os dias fora de casa e deixa evidente que não pretende facilitar aquela reunião familiar. Steve poderia impor horários e regras, porém sabe que autoridade paterna não compra confiança. Ele oferece espaço à filha, mesmo quando a distância entre os dois transforma qualquer conversa numa tarefa cansativa.
Jonah ajuda a tornar essa convivência mais leve. Curioso, falante e disposto a participar de tudo, o menino circula pela casa sem carregar a mesma mágoa da irmã. Bobby Coleman traz espontaneidade ao personagem e impede que o drama fique pesado cedo demais. Greg Kinnear segue por outro caminho. Seu Steve fala pouco, observa bastante e aceita algumas grosserias porque ainda deseja recuperar a proximidade com Ronnie. A paciência dele tem limites, mas a pressa poderia afastá-la de vez.
Longe da família, Ronnie conhece Blaze (Carly Chaikin), uma jovem que vive uma relação complicada com Marcus (Nick Lashaway). A amizade começa pela identificação entre duas garotas deslocadas, embora a agressividade de Marcus logo coloque Ronnie numa situação desagradável. A recém-chegada percebe que andar pela praia sem conhecer as pessoas e suas histórias cobra um preço. O episódio também revela sua impulsividade. Ela busca independência, mas ainda toma decisões movida pela raiva e demora a avaliar quem merece confiança.
Um romance perto do mar
Will Blakelee (Liam Hemsworth) aparece primeiro como o rapaz popular que Ronnie gostaria de manter a distância. Bonito, atleta e pertencente a uma família rica, ele parece ter saído pronto de uma coleção de romances juvenis. A aproximação ocorre quando os dois passam a proteger um ninho de tartarugas marinhas perto da casa de Steve. A tarefa exige turnos de vigilância, cria encontros frequentes e permite que Will se apresente sem depender apenas do sorriso cuidadosamente treinado.
Ronnie resiste, mas a convivência derruba parte de sua desconfiança. Will trabalha como voluntário num aquário, conhece os animais e respeita o interesse dela pelo ninho. Liam Hemsworth interpreta o rapaz com simpatia, embora o roteiro lhe entregue conflitos familiares pouco desenvolvidos. Miley Cyrus está mais confortável quando Ronnie abandona a irritação constante e permite que surjam curiosidade, afeto e insegurança. A química entre os dois sustenta o romance, mesmo quando a história segue caminhos fáceis de prever.
O namoro também leva Ronnie a ambientes diferentes daqueles que frequenta na praia. Will pertence a uma família influente, cercada por expectativas sociais e aparências bem cuidadas. Ela chega a esse universo sem disposição para representar a garota adequada, o que rende algumas situações desconfortáveis. O contraste mostra que o rapaz guarda problemas atrás da vida privilegiada. Ainda assim, certas questões recebem menos atenção do que mereciam, pois o roteiro precisa manter o casal em movimento e preservar espaço para o drama familiar.
A música abre uma passagem
Enquanto Ronnie se apaixona, Steve continua trabalhando no vitral com Jonah e espera que a filha volte ao piano por vontade própria. Ele foi professor da Juilliard e conhece o talento dela, mas sabe que pressioná-la transformaria a música em outra briga. O instrumento permanece dentro da casa, disponível e silencioso. Quando Ronnie se aproxima novamente das teclas, pai e filha recuperam uma forma de comunicação perdida desde o divórcio.
Essa relação oferece os trechos mais sensíveis de “A Última Música”. Greg Kinnear interpreta Steve com delicadeza e dá ao personagem uma serenidade que esconde preocupações maiores. Ele deseja aproveitar a presença dos filhos, embora certas informações ainda não tenham sido compartilhadas. Miley Cyrus enfrenta cenas emocionalmente exigentes e oscila em alguns instantes, sobretudo quando o roteiro pede mudanças bruscas. Mesmo assim, sua atuação cresce quando Ronnie precisa deixar a postura defensiva e olhar para o pai sem a velha raiva servindo de escudo.
Julie Anne Robinson mantém a história acessível e não procura disfarçar o desejo de emocionar. Algumas coincidências chegam bem na hora, certos conflitos poderiam ganhar mais profundidade e a trilha sonora avisa quando o espectador deve preparar o lenço. Há momentos em que Nicholas Sparks parece organizar o verão inteiro para que ninguém saia da praia com os olhos secos. A sinceridade dos atores, contudo, preserva o envolvimento, principalmente nas cenas familiares.
Um verão com prazo curto
“A Última Música” funciona melhor quando deixa o romance juvenil dividir espaço com a convivência entre Ronnie, Steve e Jonah. Will ajuda a adolescente a baixar a guarda, mas o reencontro com o piano dá peso à história. A música devolve a pai e filha uma intimidade que as conversas ainda não conseguem recuperar. Cada nota aproxima os dois, enquanto o fim das férias torna o tempo compartilhado mais precioso.
O longa possui sentimentalismo, previsibilidade e alguns personagens secundários pouco aproveitados. Também oferece uma história calorosa sobre pessoas que perderam anos importantes e recebem uma oportunidade limitada de permanecer juntas. Sem revelar os acontecimentos decisivos, basta dizer que o verão obriga Ronnie a rever a imagem que guardava do pai. Quando ela volta a sentar diante do piano, Steve finalmente consegue ouvir a filha que esperou durante tanto tempo.

