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Em “Guerra e Revolta”, disponível na Netflix, dois amigos criados na Coreia do século 16 acabam separados pela escravidão, pela invasão japonesa e por uma acusação devastadora. Dirigido por Kim Sang-man, o longa acompanha Cheon-yeong (Gang Dong-won), espadachim mantido como propriedade de uma família militar, e Jong-ryeo (Park Jeong-min), jovem aristocrata educado para servir à corte. O vínculo entre eles sobrevive por anos, mas cobra um preço cada vez maior daquele que nasceu sem direito à própria liberdade.

Cheon-yeong chega ainda criança à residência da família de Jong-ryeo. Embora tenha talento incomum com a espada, ele é tratado como escravo por causa de uma dívida herdada. Suas tentativas de fuga terminam em capturas e castigos. A casa reconhece sua habilidade apenas quando ela pode beneficiar o herdeiro.

Jong-ryeo precisa passar no exame militar, mas não possui a destreza esperada pelo pai. Cheon-yeong assume seu treinamento e os dois criam uma amizade sincera, embora marcada pela diferença entre senhor e servo. Eles dividem lições, brincadeiras e sonhos, mas somente um pode atravessar os portões quando quiser.

O pai de Jong-ryeo promete libertar Cheon-yeong caso o rapaz ajude seu filho a conquistar uma vaga no serviço militar. A proposta parece oferecer uma saída. Cheon-yeong aceita participar do plano e usa sua capacidade para garantir ao amigo a aprovação, a patente e uma valiosa espada entregue como prêmio. Quando chega a hora de cumprir o acordo, a família se nega a libertá-lo.

Essa quebra de palavra define boa parte de “Guerra e Revolta”. Jong-ryeo gosta do amigo e tenta ajudá-lo, mas também desfruta da estrutura que o mantém preso. Cheon-yeong percebe que seu talento pode render honra aos nobres sem lhe oferecer sequer o direito de escolher onde viver. A amizade permanece, porém passa a carregar uma ferida difícil de esconder.

A invasão destrói antigas certezas

A situação muda em 1592, quando o Japão invade a Coreia e inicia uma guerra que duraria sete anos. O rei Seonjo (Cha Seung-won) foge da capital acompanhado por soldados e membros da corte. A população, abandonada diante do avanço inimigo, reage contra palácios e residências aristocráticas. Há fúria suficiente para queimar uma cidade inteira e ainda sobrar raiva para a manhã seguinte.

Cheon-yeong aproveita o caos para escapar da casa onde viveu como propriedade. Durante a revolta, a família de Jong-ryeo sofre uma tragédia. Informações incompletas levam o jovem aristocrata a acreditar que o antigo amigo é responsável pelas mortes. A suspeita apaga anos de convivência e transforma a promessa de liberdade em desejo de vingança.

Kim Sang-man apresenta essa ruptura por meio de lembranças espalhadas ao longo da história. A escolha permite descobrir, aos poucos, o que cada homem sabe e onde nasceu o engano que os separou. O recurso também preserva certa dúvida sobre a possibilidade de reconciliação, sem interromper o avanço da guerra.

Jong-ryeo permanece ao lado do rei e cresce dentro do exército oficial. Cheon-yeong segue outro caminho e passa a lutar com voluntários que defendem vilarejos abandonados pela corte. Ambos enfrentam o invasor, mas fazem isso em grupos diferentes e por razões bastante distintas. Um protege a ordem que lhe deu prestígio. O outro luta por um país que nunca o reconheceu como cidadão livre.

O escravo vira lenda militar

Cheon-yeong entra para a milícia comandada por Kim Ja-ryeong (Jin Seon-kyu), líder respeitado entre os combatentes populares. O grupo reúne camponeses, artesãos e sobreviventes dispostos a enfrentar os japoneses com poucos recursos. Entre eles está Beom-dong (Kim Shin-rok), guerreira franca, corajosa e pouco interessada nas solenidades masculinas que costumam acompanhar qualquer disputa por comando.

Vestindo a roupa azul ligada ao exame militar, Cheon-yeong passa a ser reconhecido nos campos de batalha. Sua fama chega às tropas japonesas, que o identificam pela cor e por sua habilidade com a espada. O uniforme deveria representar a autoridade reservada aos oficiais da corte. Nas mãos de um escravo fugitivo, ganha um sentido bem menos confortável para os nobres.

O principal adversário estrangeiro é Genshin (Jung Sung-il), general japonês violento e experiente. Ele reconhece a capacidade de Cheon-yeong e deseja vencê-lo pessoalmente. As lutas entre os dois possuem velocidade e personalidade, pois cada espadachim apresenta uma maneira própria de atacar. Kim Sang-man filma os combates com energia, mas mantém os rostos e os movimentos legíveis. O sangue ocupa bastante espaço, embora nunca consiga esconder a disputa humana por trás das lâminas.

“Guerra e Revolta” também reserva atenção ao rei Seonjo. Cha Seung-won interpreta o monarca com uma combinação saborosa de vaidade, medo e oportunismo. Enquanto os voluntários morrem defendendo o território, o soberano pensa na preservação do trono e na reconstrução do palácio. Sua preocupação com arquitetura chega a ser quase cômica diante de um país coberto por cadáveres.

A paz conserva velhas injustiças

Quando a guerra se aproxima do encerramento, os combatentes populares esperam receber reconhecimento, comida e alguma participação na reconstrução do reino. Ja-ryeong acredita que os homens e mulheres que defenderam Joseon merecem tratamento digno. Seonjo, porém, teme que uma milícia armada conquiste influência política e ameace a autoridade da corte.

Esse choque dá ao longa uma dimensão maior que a rivalidade entre Cheon-yeong e Jong-ryeo. A invasão japonesa destrói cidades e famílias, mas também expõe a crueldade existente dentro da própria Coreia. Nobres exigem lealdade daqueles que mantêm escravizados. O rei cobra sacrifícios de uma população que abandonou durante a invasão. A paz anunciada pelos poderosos preserva muitas das condições que alimentaram a revolta.

Park Jeong-min oferece densidade a Jong-ryeo sem apagar seus privilégios. O personagem sofre perdas profundas, mas escolhe acreditar na acusação que sustenta sua vingança. Gang Dong-won faz de Cheon-yeong um homem sereno fora das batalhas e feroz quando precisa empunhar a espada. Kim Shin-rok traz firmeza a Beom-dong, enquanto Jin Seon-kyu empresta humanidade ao líder Ja-ryeong.

Apesar da quantidade de personagens, mudanças temporais e alianças militares, “Guerra e Revolta” mantém seu centro nos dois amigos. O roteiro escrito por Shin Chul e Park Chan-wook trata a relação com sensibilidade, sem transformar Cheon-yeong em santo ou Jong-ryeo em vilão simples. O afeto existiu, mas jamais teve força suficiente para anular a diferença entre alguém que possuía direitos e outro que podia ser vendido.

O filme reúne ação, drama histórico e uma crítica firme à divisão social. Algumas passagens políticas poderiam ser mais enxutas, e certos personagens secundários recebem menos atenção do que mereciam. Ainda assim, a aventura conserva vigor durante suas batalhas e interesse nos trechos mais íntimos. Cheon-yeong busca liberdade, Jong-ryeo procura vingança e o rei tenta preservar o trono. Entre os três, o país continua pagando a conta.


Filme: Guerra e Revolta
Diretor: Kim Sang-man
Ano: 2024
Gênero: Ação/Drama/Épico/Guerra/História
Avaliação: 3.5/5 1 1
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