Uma guerra civil é um país tentando amputar parte de si mesmo sem anestesia. E talvez por isso filmes sobre esses conflitos tenham tanta dificuldade em separar heroísmo de delírio. “Deuses e Generais” sofre precisamente desse mal. Ronald F. Maxwell regressa à Guerra Civil Americana uma década depois de “Gettysburg”. E, adaptando o romance de Jeff Shaara, retrocede aos primeiros anos do confronto, entre a ruptura da União e a morte de Thomas “Stonewall” Jackson, em 1863. São quase quatro horas de batalhas, despedidas, orações, discursos, canhões e homens convencidos de que Deus acompanha pessoalmente cada deslocamento de tropas. A ambição impressiona. A solenidade, nem sempre. Maxwell deseja fazer um épico, mas em muitas passagens termina erguendo um mausoléu.
O diretor distribui a narrativa sobretudo entre Jackson, Robert E. Lee e Joshua Lawrence Chamberlain, três homens que chegam à guerra por caminhos distintos e oferecem ao filme a possibilidade de escapar do simplismo. Lee, vivido por Robert Duvall, abandona o Exército dos Estados Unidos quando a Virgínia adere à Confederação; Chamberlain deixa a vida acadêmica no Maine para ingressar nas fileiras da União; Jackson parece ter nascido pronto para alguma campanha bíblica em que pólvora e providência divina sejam manifestações da mesma força. Stephen Lang compreende muito bem essa criatura. Seu general é rígido, esquisito, profundamente religioso, sentimental quando ninguém está olhando e assustadoramente eficiente no campo de batalha. Há momentos em que Lang parece atuar sozinho contra o peso monumental do próprio filme — e vence.
Um general convertido em mito
Maxwell interessa-se de tal maneira por Jackson que todo o resto vai se curvando a sua presença. Na Primeira Batalha de Bull Run, o militar conquista o apelido que o eternizaria; em Fredericksburg, já é uma figura quase mitológica; em Chancellorsville, quando acaba atingido pelo fogo dos próprios homens, a narrativa começa a tomar a forma de uma paixão religiosa. O problema não é Jackson rezar, porque sua devoção está fartamente documentada. O problema é “Deuses e Generais” rezar junto com ele. Cada silêncio parece pedir reverência. Cada conversa tem a gravidade de uma passagem das Escrituras e todo general confederado corre o risco de abandonar a condição humana para entrar diretamente num vitral.
Aí está também a questão mais incômoda do filme. Há uma desproporção evidente entre a complexidade moral concedida aos homens do Sul e a maneira como a causa que sustenta aquela guerra aparece quase reduzida a um detalhe inconveniente. A escravidão existe, mas surge domesticada, lateral, incapaz de contaminar seriamente a aura de honra que envolve os confederados. Os personagens negros recebem espaço insuficiente para que aquela instituição brutal tenha o peso histórico que deveria, enquanto Lee, Jackson e seus soldados falam reiteradamente de pátria, liberdade, família e dever. Chamberlain serve como contraponto e Jeff Daniels confere dignidade ao oficial da União. Mas Maxwell dá aos sulistas a metafísica e aos nortistas, muitas vezes, apenas a missão. Não por acaso, historiadores apontaram justamente essa aproximação do longa com a tradição da chamada “Causa Perdida”, que romantizou a Confederação e relegou a escravidão a segundo plano.
Quando a guerra finalmente fala
Quando para de discursar e deixa a guerra falar, “Deuses e Generais” melhora consideravelmente. Maxwell conhece aquele universo. Sabe posicionar centenas de soldados num campo, entende a importância da fumaça que impede homens de enxergar quem estão matando e registra com eficiência o absurdo militar de fileiras inteiras caminhando em direção ao fogo. Fredericksburg concentra o melhor dessa habilidade. Soldados da União avançam contra posições confederadas praticamente inexpugnáveis, caem aos montes e são substituídos por outros que repetem o mesmo movimento, como se a disciplina pudesse convencer a morte a respeitar regulamentos. Por alguns minutos, nenhum discurso é necessário. Os cadáveres resolvem a questão.
Mas Maxwell raramente confia tanto nas imagens. Logo alguém volta a explicar o significado da honra, da fé, do sacrifício ou da Virgínia, e a duração transforma a solenidade em penitência. O filme não é lento apenas porque tem ênfase contemplativa. É repetitivo porque insiste em demonstrar sentimentos que seus melhores atores já haviam tornado perfeitamente claros. Duvall faz de Lee um homem cansado antes mesmo de a derrota tornar-se uma possibilidade concreta, sem precisar de grandes gestos. Daniels acha em Chamberlain a angústia de um intelectual obrigado a trocar livros por cadáveres. Lang, contudo, permanece o centro gravitacional de tudo, inclusive quando Jackson está à beira da morte e enfim surge algo que o roteiro passara horas tentando fabricar: fragilidade.
Um épico menor que sua História
“Deuses e Generais” quer saber por que homens aparentemente decentes aceitam matar outros homens também aparentemente decentes, e essa seria uma pergunta grandiosa o bastante para justificar seus 218 minutos. O impasse é que não se pode falar seriamente da Guerra Civil Americana retirando do centro da sala justamente a instituição que fez aquela casa pegar fogo. Maxwell contempla bravura, amizade, fidelidade, religião e sofrimento com uma dedicação quase arqueológica, mas hesita diante da ferida que tornaria tudo aquilo verdadeiramente trágico. Stonewall Jackson termina maior que a vida graças a Stephen Lang. O filme, por sua vez, acaba menor que a História que decidiu contar.

