Em 1194, Robin de Locksley (Kevin Costner) retorna das Cruzadas à Inglaterra e descobre que o xerife de Nottingham domina a região pela violência. Sem o rei Ricardo Coração de Leão no país, o nobre perde a casa, torna-se procurado e se une a Azeem (Morgan Freeman) e aos foragidos da floresta de Sherwood para proteger os camponeses e recuperar as terras tomadas pelo tirano.
Dirigido por Kevin Reynolds, “Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões” apresenta seu protagonista numa prisão em Jerusalém. Robin consegue fugir ao lado de Azeem, um mouro que decide acompanhá-lo por ter uma dívida de vida com o inglês. Os dois formam uma dupla improvável e atravessam diferenças religiosas, culturais e até sanitárias. Azeem conhece tratamentos médicos que deixam os ingleses com a expressão de quem acabou de ver um truque de feira.
Quando retorna à propriedade da família, Robin descobre que seu pai foi assassinado e que sua casa está em ruínas. O responsável é o xerife de Nottingham (Alan Rickman), que aproveita a ausência do rei Ricardo para tomar terras, cobrar impostos e eliminar possíveis opositores. Robin perde o patrimônio, o título e a proteção concedida aos nobres. Resta a ele seguir pela mata com soldados em seu encalço.
A vingança pessoal logo ganha outra dimensão. Os camponeses vivem acuados, a comida escasseia e qualquer desobediência recebe punição severa. Robin percebe que recuperar a própria casa seria pouco enquanto o xerife mantivesse toda a região sob domínio. A decisão de lutar transforma o antigo cruzado em fora da lei e coloca uma recompensa por sua captura.
A floresta vira abrigo
Na floresta de Sherwood, Robin e Azeem cruzam o caminho de Little John (Nick Brimble), líder de um grupo formado por homens expulsos de suas terras. A recepção passa longe da cordialidade. Antes de conseguir abrigo, Robin precisa demonstrar que sabe lutar e que não pretende tratar aqueles moradores como empregados. A disputa física com Little John oferece uma das passagens mais leves da aventura e inicia uma amizade construída com pancadas, água e orgulho ferido.
Will Scarlett (Christian Slater) recebe o recém-chegado com hostilidade maior. Ele questiona suas ordens, critica sua origem aristocrática e deixa evidente que possui razões particulares para desconfiar dele. Essa resistência impede que Robin assuma o comando apenas pelo sobrenome. Para ganhar espaço, ele ensina técnicas de combate, ajuda a fortalecer o acampamento e propõe ataques contra as caravanas ligadas ao xerife.
Sherwood deixa de ser apenas esconderijo e passa a acolher famílias perseguidas. Casas improvisadas surgem entre as árvores, crianças circulam pelo acampamento e os homens treinam com arcos e espadas. O grupo toma alimentos e riquezas transportados pelos poderosos e entrega parte dos bens aos pobres. A fama de Robin cresce entre os moradores, mas também oferece ao xerife pistas e motivos para enviar mais soldados à floresta.
Azeem merece espaço maior
Morgan Freeman faz de Azeem uma das figuras mais interessantes de “Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões”. O personagem não existe apenas para seguir Robin ou ajudá-lo nos combates. Ele possui conhecimentos próprios, corrige equívocos do companheiro e observa os costumes ingleses com uma mistura de espanto e paciência. Em vários trechos, parece ser o único adulto numa sala ocupada por homens armados e excessivamente confiantes.
A presença de Azeem também expõe o preconceito daquela comunidade medieval. Muitos habitantes o tratam com medo por nunca terem convivido com um homem negro e muçulmano. Ele responde demonstrando habilidade com medicina, ciência e armas. O roteiro nem sempre desenvolve esse contraste com a profundidade possível, mas Freeman garante autoridade ao personagem e impede que ele desapareça atrás do protagonista.
Kevin Costner interpreta Robin com firmeza e certa serenidade, embora seu sotaque americano tenha virado uma das características mais comentadas do longa. O ator não tenta transformar Locksley num inglês historicamente impecável. Seu herói parece um homem dos anos 1990 transportado para a Idade Média, com senso de justiça moderno, cabelo bem cuidado e uma confiança que sobreviveria até a uma reunião de condomínio.
Marian participa da resistência
Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio) recebe Robin com cautela. Ele traz notícias dolorosas sobre o irmão dela, morto durante a fuga de Jerusalém, e ainda assume uma postura protetora que ela não pediu. Marian sabe se defender, conhece os riscos políticos da região e não aceita ser tratada como alguém incapaz de tomar decisões.
A aproximação entre os dois cresce entre provocações, divergências e gestos de confiança. O romance ocupa espaço importante, mas não interrompe a luta contra Nottingham. Marian possui ligação com a família real e pode obter informações fora do alcance dos homens de Sherwood. Essa posição também desperta o interesse do xerife, que pretende usar o casamento e a linhagem dela para fortalecer seu poder.
Mary Elizabeth Mastrantonio oferece presença e inteligência à personagem, mesmo quando o roteiro se ocupa mais das ações de Robin. Sua Marian participa dos acontecimentos e reconhece o custo pago pelos camponeses. A relação amorosa funciona melhor quando os dois discordam, pois Costner abandona por alguns minutos a pose de líder e parece genuinamente desconcertado diante dela.
Alan Rickman rouba a atenção
O xerife de Nottingham poderia ser apenas outro tirano vestido de preto, mas Alan Rickman transforma o vilão numa figura imprevisível, cruel e muito divertida. Ele muda de assunto no meio de uma ameaça, perde a paciência com subordinados e trata questões de Estado com o temperamento de alguém contrariado durante o jantar. Ainda assim, seus abusos possuem efeitos reais sobre os moradores.
Rickman atua num registro mais exagerado que o restante do elenco, e essa escolha combina com a grandeza assumida pela produção. Quando Nottingham entra em cena, o filme ganha velocidade e uma dose bem-vinda de irreverência. O ator sabe que interpreta um vilão de aventura popular e aproveita cada ordem absurda, cada olhar irritado e cada demonstração de vaidade.
Kevin Reynolds aposta em castelos, muralhas, cachoeiras, batalhas e paisagens inglesas para recuperar o tamanho da lenda. Algumas passagens se estendem além do necessário, sobretudo quando a solenidade toma conta da história. A trilha de Michael Kamen ajuda a manter o espírito aventureiro e transforma cavalgadas e deslocamentos pela floresta em acontecimentos maiores.
“Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões” reúne romance, ação e aventura numa produção feita para ocupar uma tela grande. O sotaque de Costner pode passear livremente pelo Atlântico, mas Morgan Freeman, Mary Elizabeth Mastrantonio e Alan Rickman dão personalidade ao conjunto. Entre flechas, espadas e impostos abusivos, o longa preserva o prazer de acompanhar gente comum aprendendo a reagir enquanto Robin prepara Sherwood para enfrentar o próximo ataque.

