A maldade quase sempre precisa de uma boa assessoria de imprensa. Antes que alguém seja definitivamente transformado em monstro, convém escolher uma versão dos acontecimentos, repeti-la com convicção, encontrar meia dúzia de cidadãos respeitáveis dispostos a jurar que tudo se passou daquela maneira e, principalmente, providenciar um inimigo fácil de reconhecer. Em “Wicked”, Jon M. Chu retorna à Terra de Oz para mostrar que a Bruxa Má do Oeste talvez tenha sido apenas a mulher errada no lugar errado, com uma inconveniência adicional. Elphaba nasceu verde. Não haveria marca mais eficiente para alguém que uma sociedade inteira aprenderia a temer. O extraordinário no filme é que Chu consegue transformar uma fantasia musical caríssima numa história bastante simples sobre o instante em que uma pessoa descobre que ser aceita pode custar exatamente aquilo que ela não deveria entregar.
O caminho até aqui é longo. “Wicked” nasce do romance publicado por Gregory Maguire em 1995, que revirava o universo criado por L. Frank Baum em “O Mágico de Oz”, de 1900, e mais tarde chegaria aos palcos no musical de Stephen Schwartz e Winnie Holzman. Chu herda, portanto, uma mitologia já conhecida até por quem nunca abriu o livro ou assistiu ao espetáculo, e inteligentemente começa pelo fim. Elphaba está morta, a população festeja, e Glinda chega envolta em rosa e reverência para confirmar a boa notícia. Uma criança pergunta se a bruxa sempre fora má. A resposta exige que a narrativa volte muitos anos, quando aquela criatura amaldiçoada pela memória coletiva era apenas uma jovem tentando atravessar a vida sem pedir desculpas pela própria aparência.
Duas jovens, dois lugares em Oz
Elphaba, de Cynthia Erivo, chega à Universidade de Shiz acompanhando Nessarose, a irmã mais nova, e não deveria sequer permanecer ali. Um acidente provocado por seus poderes chama a atenção de Madame Morrible, interpretada por Michelle Yeoh, que identifica na garota uma força capaz de interessar ao próprio Mágico. Antes disso, porém, ela terá de sobreviver à colega de quarto que a vida lhe reserva. Galinda é tudo quanto Elphaba não consegue ser: bonita segundo os padrões de Oz, rica, barulhenta, admirada, infantilmente segura de que sua presença melhora qualquer ambiente. Ariana Grande compreende o perigo de transformar essa criatura numa caricatura insuportável e faz algo mais difícil. Sua Galinda é ridícula muitas vezes, mas jamais descartável.
A amizade das duas é o verdadeiro motor de “Wicked”, muito mais que feitiços, animais falantes ou cidades verdes. Chu sabe disso e não tem pressa na Universidade de Shiz. Há gordura nos 160 minutos, evidentemente, e algumas passagens parecem alongadas por respeito excessivo ao espetáculo teatral. Mas a demora também permite observar o deslocamento das personagens. A sequência do salão de baile, depois que Elphaba aparece usando o chapéu pontudo que recebera como presente maldoso de Galinda, talvez seja o momento em que o filme finalmente deixa de ser um musical vistoso e ganha alma. Elphaba começa a dançar sozinha enquanto todos a observam e riem; Galinda entende o que fez, aproxima-se e acompanha seus movimentos. Não é preciso que ninguém cante nada. Pela primeira vez, uma delas sente vergonha de si mesma e a outra deixa de senti-la.
Quando a fantasia mostra os dentes
A partir daí, tudo o que parecia apenas decoração começa a mostrar dentes. O professor Dillamond, um bode que leciona história, testemunha o desaparecimento progressivo dos direitos dos animais de Oz, alguns já proibidos de ensinar e cada vez mais impedidos até de falar. O autoritarismo de “Wicked” não chega com tropas marchando pelas ruas. Começa com pequenas concessões, uma humilhação aqui, uma proibição acolá, até que a perseguição possa ser apresentada como providência necessária. Nesse ponto, a ingenuidade de Elphaba torna-se tão importante quanto sua rebeldia. Ela ainda acredita que o Mágico, figura celebrada desde a infância, resolverá tudo assim que souber da injustiça.
Jeff Goldblum é uma escolha particularmente feliz porque seu Mágico jamais parece um tirano convencional. Ele é afável, engraçado, quase paternal, um homem que compreendeu muito antes dos outros que poder não depende de possuir qualquer qualidade extraordinária. Basta convencer a multidão de que se possui. Quando Elphaba finalmente chega à Cidade das Esmeraldas ao lado de Galinda, “Wicked” abandona boa parte de sua inocência. O encontro tão desejado revela que o grande homem por trás do mito necessita justamente dos poderes da jovem para ampliar um projeto de controle que ela julgava estar prestes a combater.
O preço da recusa
É também quando Cynthia Erivo toma o filme para si. Sua Elphaba nunca precisa ser reduzida à coitada perseguida por gente ruim, e talvez esteja aí a maior virtude da atuação. Há orgulho naquela mulher, alguma arrogância, uma raiva acumulada desde a infância e uma necessidade quase desesperada de provar que o mundo se enganou a seu respeito. Erivo conserva tudo isso quando a personagem percebe que finalmente poderia ter o que sempre quis — admiração, pertencimento, proximidade com o poder — desde que aceitasse fechar os olhos. Sua recusa faz nascer a Bruxa Má do Oeste que Oz precisava inventar.
Ariana Grande segue no extremo oposto, e nem por isso Galinda é moralmente mais simples. Ela também percebe o embuste, mas entende que permanecer perto do poder pode ser mais confortável que enfrentá-lo. Jonathan Bailey, como Fiyero, acrescenta um pouco de caos sedutor a essa engrenagem, enquanto Michelle Yeoh vai retirando de Madame Morrible a aparência de mentora benevolente até revelar uma mulher perfeitamente adaptada ao mecanismo que transforma dissidência em ameaça pública.
A hora de desafiar a gravidade
Quando chega “Defying Gravity”, Chu já não precisa esconder a natureza política de sua fantasia. Elphaba sobe, literalmente, enquanto abaixo dela uma cidade inteira começa a receber a versão oficial de sua história. Galinda fica. Essa separação importa mais que todo o aparato visual reunido para levá-las até ali, porque nenhuma das duas sai realmente vitoriosa. Uma descobre o preço da liberdade; a outra, talvez sem perceber ainda, começa a pagar pelo conforto da aprovação. “Wicked” pode cobrir tudo de esmeraldas, vestidos, vassouras e canções, mas sua melhor mágica é bem menos inocente: mostrar como uma mulher se transforma em vilã no exato momento em que se recusa a obedecer.

