Ney Matogrosso completou 85 anos em 1º de agosto. A idade impressiona menos do que o fato de que, passados mais de cinquenta anos desde os Secos & Molhados, ele continue sendo difícil de enquadrar em qualquer daquelas gavetas confortáveis onde a cultura costuma guardar seus veteranos. Ney não virou monumento de si mesmo. Continua cantando, subindo ao palco, escolhendo repertório, provocando. O novo episódio do podcast Travessia, que acaba de entrar no ar na Revista Bula, aproveita o aniversário para voltar a essa trajetória.
Apresentado pelos jornalistas Fernando Vives e Edison Veiga e produzido pela Central 3, o Travessia existe desde 2016 e tem uma fórmula tão simples quanto fértil. Cada programa escolhe dez canções e parte delas para contar uma história da música brasileira. As gravações puxam artistas, compositores, discos, episódios de bastidores, épocas inteiras. No fim, o que poderia ser apenas uma boa seleção musical frequentemente se transforma numa reportagem sonora, com a vantagem nada desprezível de que a própria música está lá para confirmar — ou desmentir — o que se diz sobre ela.
Ney já havia passado por esse tratamento em 2016, quando completou 75 anos. Dez anos depois, Vives e Veiga voltam ao personagem no episódio 217, “Ney Matogrosso, 85 anos”, com 1h04 de duração. Material não falta. Poucos artistas brasileiros misturaram com tamanha desenvoltura voz, interpretação, figurino, corpo, teatro e provocação pública. Menos ainda conseguiram fazer isso durante cinco décadas sem terminar convertidos numa reprodução bem-comportada daquilo que foram um dia.
É uma carreira que começou a ganhar dimensão nacional no início dos anos 1970, quando Ney surgiu à frente dos Secos & Molhados parecendo ter desembarcado de algum lugar para o qual a televisão brasileira ainda não possuía departamento de classificação. Depois veio uma carreira solo capaz de atravessar repertórios, parceiros e gerações sem perder uma característica essencial: a voz pode ser imediatamente reconhecível, mas o artista nunca parece muito interessado em repetir a si mesmo.
O Travessia acompanha justamente esse movimento por meio das canções. Não pretende empacotar Ney Matogrosso numa homenagem de aniversário — risco considerável quando o homenageado chega aos 85 anos com uma carreira desse tamanho —, mas usar o repertório para voltar a seus deslocamentos, escolhas e reinvenções. É um método que combina especialmente com um artista cuja biografia pública sempre esteve misturada àquilo que canta e, sobretudo, ao modo como decidiu cantar.
Desde julho, o Travessia integra também a programação editorial da Revista Bula. O novo episódio pode ser ouvido diretamente na área especial do projeto na revista, que reúne ainda os programas anteriores e acompanha a publicação quinzenal da série. O áudio original continua hospedado pela Central 3. Para quem perdeu a primeira viagem com Ney, feita quando ele tinha 75 anos, há inclusive uma vantagem: dez anos depois, a história ganhou mais dez anos de Ney Matogrosso.

