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A fortuna compra quase tudo: iates, empregados, automóveis que custam o preço de apartamentos e uma legião de bajuladores dispostos a rir antes mesmo que o milionário termine a piada. Não compra, contudo, uma próstata obediente nem o amor de uma filha. “Bom Caminho” parte desse choque entre aquilo que o dinheiro resolve depressa e o que ele apenas consegue adiar, e Gennaro Nunziante encontra no personagem de Checco Zalone uma criatura adequada para a experiência: um quase cinquentão que nunca trabalhou, vive da fortuna erguida pelo pai no negócio de sofás e encara a própria existência como uma longa temporada de férias. O reencontro de Nunziante e Zalone, quase dez anos depois de “Quo Vado?”, acabou produzindo um fenômeno ainda maior que os anteriores: o filme ultrapassou “Avatar” e tornou-se a maior bilheteria da história do mercado italiano.

Checco é um sujeito muito engraçado porque não suspeita do quão ridículo pode ser. Não se trata exatamente de um idiota, distinção importante para que a comédia funcione, mas de alguém que jamais precisou desenvolver qualquer competência além da habilidade para desfrutar do patrimônio alheio. O corpo começa a avisá-lo de que a festa não será eterna justamente quando outra notícia invade seu sossego: Cristal, a filha adolescente que ele conhece muito menos do que imagina, desapareceu. A ex-mulher Linda o convoca a Roma e, depois de alguma investigação conduzida com os métodos pouco ortodoxos que se esperam dele, Checco descobre que a garota partiu para percorrer o Caminho de Santiago. São centenas de quilômetros entre França e Espanha, dormindo onde houver cama e avançando sob sol, frio ou chuva, programa que para um homem habituado a transformar qualquer desconforto em problema de outra pessoa equivale a uma expedição ao inferno.

O milionário quando o dinheiro falha

Nunziante e Zalone, também responsáveis pelo roteiro, constroem boa parte do humor na simples transferência desse nababo para um mundo em que o cartão de crédito perde poderes mágicos. Checco leva para o caminho sua arrogância, os hábitos de novo-rico, o apetite pelo supérfluo e a convicção de que tudo possui um preço, inclusive a boa vontade da própria filha. É aí que “Bom Caminho” mostra sua melhor face. A peregrinação serve menos como experiência religiosa que como método rudimentar de educação sentimental: andar, cansar, sentir dor, dividir espaço, esperar. Coisas banais para quase todos tornam-se grandes acontecimentos para alguém que passou cinquenta anos sendo poupado da vida.

Cristal poderia ter virado apenas a adolescente sensata encarregada de explicar ao pai e à plateia o significado correto das coisas, mas Letizia Arnò escapa da armadilha. Há irritação genuína na forma como a garota responde às aproximações do pai, e sobretudo um cansaço que nenhuma discussão consegue resolver. O filme fica melhor quando Nunziante percebe que a reconciliação entre os dois não pode acontecer porque Checco formula uma frase bonita ou finalmente compra o presente certo. Precisa acontecer no atrito. Beatriz Arjona, na pele de Alma, ajuda a impedir que a relação escorregue cedo demais para o melodrama, funcionando como uma presença serena no meio de dois personagens que ainda não aprenderam a conversar. Martina Colombari, como Linda, e Hossein Taheri, vivendo Tarek, completam um núcleo em que Zalone encontra espaço para alvejar tanto os endinheirados vulgares como certa sofisticação intelectual cuidadosamente performada.

A sátira perde ferocidade

O problema é que um caminho que tem Santiago por destino dificilmente consegue esconder por muito tempo onde pretende chegar dramaticamente. Passada a primeira metade, a sátira vai cedendo lugar à regeneração previsível do protagonista, e o homem que produzia graça porque parecia impermeável a qualquer forma de consciência começa a receber, uma após outra, as lições necessárias para sair melhor do outro lado. Zalone continua ótimo no manejo do corpo, na pausa antes da resposta indevida e naquele mecanismo particularmente seu de pronunciar barbaridades com a candura de quem acredita estar prestando um serviço à civilização. Só que Nunziante parece ter menos coragem de deixá-lo indefeso diante das consequências da própria estupidez.

Talvez seja esta a grande mudança de “Bom Caminho”. O Checco de outros tempos precisava ser suportado; este começa a pedir para ser compreendido. Há alguma perda nisso, porque a ferocidade da sátira diminui justamente quando a história passa a interessar-se mais pelo homem que pela caricatura. Em compensação, surge uma ternura inesperada, que Arnò sabe administrar melhor que o próprio protagonista. O filme não precisa transformar Checco num santo — felizmente não o faz —, mas obriga-o a descobrir uma verdade que seus milhões nunca haviam conseguido lhe ensinar: ser pai não é um título vitalício adquirido no nascimento de uma criança. É um trabalho diário. Para um homem cuja maior realização fora nunca trabalhar, Santiago realmente ficava muito longe.


Filme: Bom Caminho
Diretor: Gennaro Nunziante
Ano: 2025
Gênero: Comédia
Avaliação: 4/5 1 1
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