Irrequieto, inconformado, o sueco August Strindberg (1849-1912) mergulhava de cabeça nas incoerências da sociedade e das famílias, chegando a enlouquecer temporariamente, quiçá por atingir a razão que há na insânia. Seus personagens espelham essa fascinante confusão mental, como se vê em “Miss Julie”, um de seus trabalhos mais perturbadores. Passados 137 anos desde sua estreia, em 14 de março de 1889, numa formatura da Real Academia Dinamarquesa de Ciências e Letras, em Copenhague, a peça continua atilada ao retratar as tensões entre classes, um pano de fundo para chegar a temas mais espinhosos. Uma das atrizes mais relevantes do nosso tempo, Liv Ullmann capta essa urgência de Strindberg quanto a embrenhar-se nas complexidades da mente humana, e vai desvendando três personagens infelizes, guerreando entre si ao passo que sufocam desejos e frustrações.
A cozinha do diabo
A adaptação de Ullmann prima pela fidelidade ao texto original, a não ser por um detalhe: aqui, a história se passa numa quinta em Fermanagh, na Irlanda do Norte. Tudo acontece na curta noite do solstício estival no hemisfério norte, e não por acaso é quando ricos e pobres esquecem suas diferenças e celebram o dia de São João juntos. Os festejos não são animados o bastante para invadir a cozinha da mansão do conde, pai da senhorita Julie, onde estão a aia Kathleen e Jean, o valete, um seu amigo íntimo. O desejo de pertencer, de fazer parte de um grupo, de um clube de iluminados, de arúspices que chegam à sabedoria misteriosa do mundo antes que os outros é uma obsessão para Jean, que balança de uma mulher para a outra sem pejo, e o mal-estar recrudesce no ambiente claustrofóbico escolhido a dedo por Strindberg, mestre em instilar no público emoções dúbias. A gradual proximidade de Julie e seu criado, observada com uma estranha resignação por Kathleen, prenuncia uma ruptura cruenta, elaborada pela diretora-roteirista com particular atenção aos diálogos e aos monólogos, deixando que Jessica Chastain, Colin Farrell e Samantha Morton brilhem em conjunto e cada qual em seu próprio momento. Ullmann sabe exatamente o que fazer com tudo isso.

