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Adaptar a história mais conhecida do cristianismo tem uma dificuldade curiosa: quase todo mundo sabe como ela termina. Maria ficará grávida, José hesitará, Herodes verá perigo na criança, os dois chegarão a Belém e um menino nascerá numa estrebaria. Adam Anders não tenta criar suspense em torno do que está definido há dois milênios. Prefere cometer uma heresia muito mais interessante do ponto de vista cinematográfico: transformar a Natividade num musical pop, com coreografias, humor romântico e um rei Herodes que parece ter escapado de um espetáculo da Broadway.

“Jornada para Belém” marca a estreia de Anders na direção de longas e reconta o nascimento de Jesus por meio de canções originais, melodias natalinas e uma aproximação deliberadamente juvenil de Maria e José. Fiona Palomo e Milo Manheim assumem os personagens centrais, enquanto Antonio Banderas recebe Herodes e, com ele, autorização tácita para divertir-se muito mais que todos os outros.

A primeira boa decisão é permitir que Maria seja uma garota antes de transformá-la num ícone. Palomo imprime-lhe impaciência, sonhos e alguma rebeldia, atributos que aproximam a personagem de qualquer moça atormentada por um futuro decidido pelos outros. O casamento com José não nasce como romance arrebatador; há estranhamento, negociação e aquela falta de jeito que sempre deveria existir entre duas pessoas muito jovens a quem adultos informam que devem passar a vida juntas. Quando surge o anúncio de Gabriel, a fé não apaga a perplexidade. Ainda bem.

Um Herodes que prefere o palco ao trono

Milo Manheim oferece a José um pouco mais de leveza do que a iconografia costuma permitir ao carpinteiro, e Anders insiste em aproximar os dois por canções e pequenos embates afetivos. O recurso às vezes é excessivamente açucarado, como se a Judeia tivesse sido tomada por adolescentes de um programa musical americano, mas há método na maluquice. O diretor sabe que ninguém precisa de outra reconstituição solene da viagem a Belém; as igrejas e o cinema já produziram centenas delas.

Banderas compreende essa liberdade antes de todos. Seu Herodes é vaidoso, teatral, assustador e ridículo — muitas vezes na mesma cena. Ao interpretar um governante ameaçado por um recém-nascido, o ator faz do medo do poder uma coisa quase cômica, porque sempre há algo profundamente risível no homem cercado por soldados que não consegue dormir por causa de um bebê. A exuberância do personagem, contudo, também expõe uma fraqueza do filme: às vezes o espetáculo é tão chamativo que o mistério que justificaria tudo fica escondido atrás dele.

“Jornada para Belém” não pretende converter incrédulos nem oferecer grandes descobertas aos que conhecem os Evangelhos. Anders faz algo mais modesto, e talvez mais útil: devolve movimento a figuras que a tradição congelou em presépios. Maria sua, teme e se irrita; José duvida; Herodes esperneia; gente canta onde provavelmente deveria apenas falar. Nem tudo funciona, mas há vida. Para uma história repetida todo dezembro há vinte séculos, conseguir isso já se aproxima de um pequeno milagre.


Filme: Jornada para Belém
Diretor: Adam Anders
Ano: 2023
Gênero: Drama/Musical
Avaliação: 3.5/5 1 1
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