Lançado em 1989, “Ata-me!” mostra Pedro Almodóvar em plena Madri, acompanhando uma paixão obsessiva que nasce torta e piora antes de qualquer promessa de romance.
Ricky (Antonio Banderas) acaba de receber alta de um hospital psiquiátrico e sai com uma certeza perigosa na cabeça. Ele quer encontrar Marina Osorio (Victoria Abril), uma atriz que conheceu antes e com quem teve um envolvimento sexual. Para Ricky, aquele encontro virou destino. Para Marina, foi apenas um episódio perdido em uma vida já cheia de confusão, trabalho, remédios, dor e homens querendo decidir por ela.
É dessa diferença brutal de percepção que “Ata-me!” nasce. Dirigido por Pedro Almodóvar, o filme mistura comédia, crime, drama e romance em uma história desconfortável, provocadora e muito mais estranha do que a sinopse sugere. Ricky não procura Marina para pedir desculpas, conversar ou tentar uma aproximação comum. Ele aparece com a convicção de quem acredita ter achado a mulher da própria vida. O problema é que Marina não foi consultada sobre esse projeto doméstico.
Marina trabalha em um set de filmagem, tentando se afastar da imagem de estrela pornográfica e construir outra fase profissional. Ela está cercada por câmeras, técnicos, figurinos e por Máximo Espejo (Francisco Rabal), diretor veterano que a admira e também mantém certa influência sobre ela. A rotina já não parece simples. Marina lida com dores, dependência química e uma carreira observada por muita gente. Quando Ricky entra em cena, esse mundo frágil perde qualquer aparência de controle.
Marina vira alvo de Ricky
Ricky decide sequestrar Marina e a mantém presa em seu apartamento. A violência do gesto é o ponto mais incômodo da trama, porque o personagem acredita estar praticando uma espécie de cortejo radical, quase uma versão criminosa de pedido de casamento. Ele quer que ela o conheça, que veja nele um homem carinhoso, confiável e disposto a formar uma família. Marina, amarrada e assustada, enxerga outra coisa. Vê um desconhecido que tirou dela a liberdade, o trabalho e a possibilidade de pedir ajuda.
A graça amarga do filme nasce dessa distância entre o que Ricky imagina estar fazendo e o que de fato acontece. Antonio Banderas interpreta o personagem com uma mistura de ingenuidade e ameaça. Ricky sorri, cozinha, fala de futuro e tenta agir com delicadeza, mas tudo isso ocorre dentro de um sequestro. Almodóvar extrai desconforto dessa contradição. O espectador pode rir de certas situações, mas o riso vem sempre acompanhado de uma pergunta incômoda sobre poder, desejo e consentimento.
Victoria Abril dá a Marina uma energia essencial para que o filme não fique preso apenas à obsessão de Ricky. A personagem não é tratada como vítima passiva. Ela reage, avalia o ambiente, observa os pontos fracos do sequestrador e tenta preservar algum espaço de decisão mesmo quando está fisicamente presa. Marina tem medo, raiva, dor e cansaço, mas também mantém uma inteligência viva, às vezes sarcástica, diante daquele romance absurdo que lhe foi imposto à força.
A irmã procura respostas
Lola (Loles León), irmã de Marina, tem papel importante nesse cerco que se forma ao redor da protagonista. Ela percebe a ausência da atriz, estranha o desaparecimento e tenta juntar sinais de que algo saiu do lugar. Sua presença lembra que Marina não existe apenas dentro do apartamento de Ricky. Ela tem laços, trabalho, compromissos e uma vida que começa a fazer falta. Cada tentativa de Lola de encontrá-la aumenta o risco para Ricky e dá ao filme uma pressão de crime.
Máximo Espejo também ajuda a compor esse retrato de um ambiente onde Marina é desejada, observada e disputada. O set de filmagem, com sua mistura de vaidade, dependência e hierarquia, revela que a liberdade da personagem já era relativa antes do sequestro. Ela estava tentando mudar de imagem, mas continuava presa ao olhar dos outros. Ricky apenas torna essa prisão literal, com cordas, portas fechadas e uma rotina forçada que transforma afeto em vigilância.
Essa é uma das perversidades mais fortes de “Ata-me!”. O filme trata o apartamento como um palco apertado, onde cada objeto ganha peso. A cama, o telefone, os remédios, a porta e as cordas deixam de ser elementos comuns e viram parte da disputa entre fuga e permanência. Quando Ricky sai para buscar o que Marina precisa, a rua surge como promessa de alívio e também como ameaça. Ele pode ser descoberto, pode falhar, pode voltar pior. Ela, por sua vez, continua sem saída garantida.
O romance fica torto
Pedro Almodóvar trabalha essa história com uma ousadia típica de sua fase mais conhecida, mas sem esconder a sujeira moral da premissa. “Ata-me!” não pede ao público uma aceitação tranquila do comportamento de Ricky. O filme parece mais interessado em observar até onde uma fantasia romântica pode ficar monstruosa quando ignora a vontade da outra pessoa. O amor, ali, não chega como cuidado puro. Chega como posse, insistência e tentativa de transformar violência em intimidade.
Ao mesmo tempo, a direção não transforma Marina em símbolo ou lição. Ela permanece humana, contraditória, ferida e capaz de escolhas difíceis. Isso torna a experiência mais espinhosa. A relação entre os dois não cabe em uma leitura simples, porque Almodóvar mistura ternura, medo, desejo e absurdo sem pedir licença ao bom gosto tradicional. Há momentos em que a cena flerta com o pastelão, outros em que a tensão pesa no corpo da personagem. Essa instabilidade é parte do incômodo.
A química entre Victoria Abril e Antonio Banderas sustenta boa parte dessa zona perigosa. Banderas faz de Ricky um homem bonito, desajustado e assustadoramente convicto. Victoria Abril responde com uma Marina que não se entrega fácil ao papel de refém romântica. Entre os dois, o filme cria uma dança desigual, marcada por feridas físicas, carências antigas e uma ideia de amor que parece ter aprendido tudo errado nos lugares mais inadequados possíveis.
Almodóvar aperta o nó
Vista hoje, a premissa de “Ata-me!” pode causar ainda mais desconforto do que causava em 1989. Isso não enfraquece o filme. Pelo contrário, obriga o espectador a encarar com mais atenção o que Almodóvar coloca em jogo. A obra não suaviza a gravidade do sequestro, mas também não abandona seus personagens em categorias fáceis. Ricky é perigoso, Marina é complexa, Lola é necessária, Máximo é ambíguo, e todos circulam por um universo onde desejo e controle andam perigosamente perto.
“Ata-me!” segue provocador e transforma uma ideia de romance em caso policial, sem abrir mão do humor e da estranheza afetiva. É um filme sobre alguém que quer ser amado, mas começa retirando da outra pessoa o direito de escolher. Também é sobre uma mulher tentando respirar dentro de um espaço fechado por mãos alheias. Entre o riso e o mal-estar, Almodóvar aperta o nó com firmeza, deixando Marina diante de uma decisão que pertence apenas a ela.

