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Em 2001, Steven Spielberg levou o público a um futuro marcado pelo aquecimento global, onde David (Haley Joel Osment), um menino-robô programado para amar, é acolhido por uma família que tenta suportar a ausência do filho doente. Dentro da casa dos Swinton, o experimento criado pela Cybertronics ganha um peso que seus fabricantes parecem ter ignorado. David oferece afeto permanente, mas depende de adultos que podem desistir dele.

Em “A.I. Inteligência Artificial”, o derretimento das calotas polares elevou o nível dos oceanos e deixou cidades costeiras debaixo d’água. Com menos territórios habitáveis e controles severos sobre a população, os países mais ricos passaram a fabricar robôs humanoides. Conhecidos como mechas, eles trabalham, cuidam de casas e atendem diferentes necessidades humanas.

O professor Allen Hobby (William Hurt), responsável por uma divisão da Cybertronics, deseja avançar nessa produção. Sua proposta é criar uma criança mecânica capaz de amar os pais adotivos. A empresa desenvolve David (Haley Joel Osment), um garoto de aparência delicada, comportamento educado e devoção programada para durar por toda a existência.

Henry Swinton (Sam Robards), funcionário da Cybertronics, recebe David para levá-lo para casa. Sua esposa, Monica (Frances O’Connor), sofre porque Martin (Jake Thomas), o filho do casal, permanece em animação suspensa devido a uma doença rara. Os médicos ainda procuram uma cura, enquanto a família vive entre a esperança e a possibilidade de uma perda definitiva.

David chega para preencher esse espaço. A intenção parece razoável dentro da lógica da empresa, porém Monica não reage ao garoto como cliente satisfeita diante de um produto novo. Ela observa seus movimentos precisos, seu sorriso constante e sua disposição exagerada para agradar. David possui a forma de uma criança, embora seus hábitos revelem algo fabricado.

Monica aceita o novo menino

A convivência transforma a resistência inicial de Monica. David acompanha seus passos, procura participar da rotina e demonstra uma afeição que parece sincera, mesmo tendo origem num programa. Haley Joel Osment interpreta o menino com pouca movimentação facial, postura firme e olhar atento. Essa contenção faz David parecer inocente e inquietante na mesma medida.

Monica recebe instruções para ativar o vínculo afetivo do garoto. A escolha exige cuidado porque o procedimento é permanente. Depois de ouvir uma sequência específica de palavras, David passa a reconhecê-la como mãe e concentra nela todo o amor que possui. A Cybertronics sabe iniciar esse laço, mas deixa para a família o trabalho bem mais complicado de conviver com ele.

Teddy, o antigo urso robótico de Martin, torna-se companheiro de David. O brinquedo fala, oferece conselhos e vigia algumas decisões do menino. Também traz leveza às situações por encarar os dramas familiares com uma seriedade quase burocrática. Entre um garoto que deseja ser humano e um urso que parece ter mais bom senso que muitos adultos, a casa ganha uma dupla curiosa.

Por algum tempo, David ocupa o lugar deixado por Martin. Monica se aproxima do menino mecânico, prepara sua rotina e aceita sua presença. Henry permanece desconfiado. Para ele, a criatura pertence à empresa e pode apresentar falhas. Para David, aquela casa já representa família, e Monica passou a ser o centro de sua existência.

Martin volta para casa

A situação muda quando surge um tratamento para a doença de Martin. O filho biológico desperta, retorna para casa e conhece o menino criado para substituí-lo durante sua ausência. A chegada que deveria completar a felicidade dos Swinton abre uma disputa silenciosa por atenção, espaço e pertencimento.

Martin percebe que David reage de maneira literal às provocações. Ele usa essa característica para colocá-lo em situações desconfortáveis e recuperar a exclusividade que possuía antes da doença. David tenta copiar hábitos humanos porque acredita que poderá agradar Monica. O problema está em sua incapacidade de reconhecer ironia, ciúme e malícia infantil.

Jake Thomas interpreta Martin sem transformá-lo num vilão mirim. O garoto voltou de uma experiência dolorosa e descobriu outro filho vivendo com seus pais e usando seus brinquedos. Sua hostilidade nasce do medo de perder o lugar que julgava garantido. Ainda assim, suas provocações colocam David em situações cada vez mais perigosas.

Monica fica dividida entre a afeição construída pelo mecha e a proteção de Martin. Henry passa a considerar David uma ameaça dentro de casa. A família que aceitou o experimento percebe que não recebeu um brinquedo sofisticado. Recebeu uma criança programada para amar, incapaz de desligar o próprio sentimento quando os adultos mudam de ideia.

David procura a Fada Azul

A história deixa o ambiente doméstico quando David precisa seguir sem a proteção dos Swinton. Ao lado de Teddy, ele conhece um mundo onde robôs descartados procuram peças, abrigo e alguma chance de continuar funcionando. Os humanos utilizam os mechas enquanto eles são úteis, mas demonstram pouca compaixão quando esses seres deixam de cumprir sua função.

Nesse caminho surge Gigolô Joe (Jude Law), um robô criado para oferecer companhia amorosa. Elegante, falante e muito mais experiente, Joe conhece os perigos enfrentados pelos mechas. Jude Law dá ao personagem movimentos ensaiados e uma simpatia meio profissional. Ele parece ter saído de um anúncio de perfume futurista, embora carregue problemas bem menos glamourosos.

Joe ajuda David a circular por lugares desconhecidos e procurar informações. O menino recorda a história de Pinóquio e passa a acreditar que a Fada Azul poderá transformá-lo numa criança humana. Em sua lógica, essa mudança resolveria tudo. Se ganhar um corpo verdadeiro, Monica voltará a amá-lo e permitirá seu retorno para casa.

Essa crença sustenta a parte mais aventureira de “A.I. Inteligência Artificial”. David e Joe atravessam espaços dominados por consumo, violência e entretenimento, enquanto Teddy tenta impedir que a dupla tome decisões ainda piores. O menino procura uma figura de conto de fadas usando recursos tecnológicos, uma combinação estranha que Spielberg trata com sensibilidade.

Spielberg acompanha o olhar infantil

Steven Spielberg mantém a história próxima da percepção de David. O garoto recebe informações fragmentadas e interpreta o comportamento humano a partir daquilo que aprendeu em casa. A câmera acompanha essa limitação e deixa parte das ameaças fora de seu alcance. O público percebe perigos que David ainda não consegue identificar, o que aumenta a apreensão sem depender de sustos fáceis.

Haley Joel Osment sustenta “A.I. Inteligência Artificial” com uma atuação disciplinada. David fala baixo, observa muito e mantém uma educação desconcertante mesmo quando está em risco. Seu desejo é simples. Ele quer voltar para Monica. A complexidade nasce dos adultos, que fabricaram uma criança capaz de amar sem criar uma forma digna de responder a esse afeto.

Frances O’Connor também oferece humanidade a Monica. A personagem sente carinho, medo, culpa e insegurança diante de uma situação para a qual ninguém poderia estar preparado. Seu vínculo com David dá ao enredo uma dor bastante concreta. A mãe pode interromper a convivência, porém o menino continuará ligado a ela.

“A.I. Inteligência Artificial” combina drama familiar, aventura e ficção científica com algumas oscilações de ritmo. Spielberg se demora em certos trechos e insiste na emoção mais do que o necessário. Ainda assim, o filme é perturbador ao transformar uma invenção extraordinária num problema doméstico reconhecível. David foi programado para amar para sempre, enquanto os humanos ao redor dele conservam o direito de mudar de vontade.


Filme: A.I.: Inteligência Artificial
Diretor: Steven Spielberg
Ano: 2001
Gênero: Aventura/Drama/Ficção Científica
Avaliação: 4.5/5 1 1
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