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Homens cultivam amizades estranhas. Podem passar décadas sem dizer que gostam uns dos outros. No entanto, sabem quais cervejas comprar, qual mesa escolher no bar e o ponto exato em que uma piada velha ainda provoca riso. Além disso, sabem a hora em que o amigo está precisando de companhia sem jamais pedir. O problema aparece quando uma mulher atravessa essa estrutura minuciosamente desorganizada. Alguém então descobre que aquilo que julgava amizade talvez guardasse também posse, dependência e um medo nada confessável de ficar sozinho.

Olli e Matze são inseparáveis desde meninos. Moram juntos e trabalham na mesma imobiliária. Eles planejam uma viagem ao redor do mundo com a seriedade de dois exploradores do século 19. Isso muda quando Matze conhece Rebecca. Em questão de pouco tempo, cerveja e fliperama cedem espaço a corrida, mingau e programas de casal. Olli chega à conclusão mais confortável possível: seu amigo sofreu lavagem cerebral. Marco Petry, que assina o roteiro com Janina Petry, transforma essa paranoia numa guerra pela atenção de Matze. A disputa é levada por Kostja Ullmann, David Kross e Janina Uhse.

A premissa é boa porque Olli está obviamente errado, mas não inteiramente. Pessoas apaixonadas somem. Mudam hábitos, reorganizam horários e aprendem alimentos que desprezavam. Passam a usar “nós” em frases nas quais até então só cabia “eu”. A comédia poderia encontrar nesse fenômeno banal um estudo muito divertido sobre homens adultos descobrindo que amizade também exige negociação. Em vez disso, Petry insiste durante tempo demais na ideia de que namoradas domesticam homens. Assim, sugere que todo sujeito comprometido vira um fugitivo de sua própria casa, como demonstra Schmitti, vivido por Ferdinand Hofer.

A guerra particular de Olli

O resultado é irregular. Ullmann tem energia suficiente para transformar Olli num idiota suportável. Kross acerta ao fazer de Matze o sujeito que demora mais que todos para perceber o tamanho da batalha travada em seu nome. Rebecca começa como alvo do ressentimento masculino, mas melhora bastante quando entende que Olli pretende eliminá-la do tabuleiro. A partir daí, resolve jogar também. Uma festa que degringola em desastre põe os dois adversários às claras. O filme, enfim, encontra a comédia que procurava: não há adulto naquela disputa, somente duas crianças grandes tentando provar quem gosta mais do mesmo homem.

O problema é que Petry parece desconfiar de suas próprias piadas e passa a sublinhá-las, esticando situações que já haviam cumprido sua função. A “lavagem cerebral” reaparece, os comportamentos masculinos tornam-se caricaturas e parte da graça evapora diante do esforço para produzi-la. A amizade de Olli e Matze merecia mais espaço justamente porque é ali que está a pequena melancolia escondida debaixo da farsa.

Não é Rebecca quem destrói a vida que os dois haviam planejado. Matze cresce, apaixona-se e percebe que talvez deseje outra coisa. Olli, por seu turno, fica parado, segurando um itinerário de viagem que já não corresponde ao mundo. “Meu Melhor Amigo, sua Namorada e Eu” é mais engraçado quando admite isso e bem menos quando volta à guerra dos sexos. Certos amigos não têm medo de perder a amizade. Têm medo de descobrir que o outro consegue viver sem eles.


Filme: Meu Melhor Amigo, sua Namorada e Eu
Diretor: Marco Petry
Ano: 2026
Gênero: Comédia
Avaliação: 3.5/5 1 1
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