Em “Na Mira do Perigo”, um fazendeiro endividado acolhe um menino mexicano no Arizona e cruza os Estados Unidos para protegê-lo de criminosos.
Jim Hanson (Liam Neeson) vive sozinho em uma propriedade rural na fronteira do Arizona com o México. Ex-atirador do Corpo de Fuzileiros Navais, ele passa os dias cuidando do gado, patrulhando suas terras e tentando impedir que o banco tome o rancho. A situação financeira piorou após a morte de sua esposa, cujo tratamento consumiu boa parte do dinheiro disponível. Sua companhia mais fiel é Jackson, um cão que parece ter mais paciência com o dono do que muita gente teria.
Dirigido por Robert Lorenz e lançado em 2021, “Na Mira do Perigo” começa nesse cotidiano de solidão e contas vencidas. A rotina muda quando Jim encontra Rosa (Teresa Ruiz) e seu filho Miguel (Jacob Perez) perto da cerca que separa os Estados Unidos do México. Os dois fugiram de um cartel e procuram abrigo em território norte-americano. O fazendeiro pensa primeiro em chamar a patrulha de fronteira, porém a chegada de homens armados transforma aquela ocorrência numa ameaça muito maior.
Rosa pede que Jim proteja Miguel e o leve até parentes que vivem em Chicago. O pedido coloca o fazendeiro diante de uma escolha incômoda. Ele pode entregar o menino às autoridades e voltar aos problemas do rancho ou assumir uma responsabilidade capaz de colocar sua própria vida em risco. Jim escolhe a estrada, ainda que sua expressão sugira que viajar com uma criança nunca esteve entre seus planos para a semana.
Uma promessa feita na fronteira
Miguel está assustado e não confia no homem que assumiu sua proteção. Jim também não sabe lidar com uma criança que fala pouco, carrega perdas recentes e rejeita suas ordens. A relação começa marcada por silêncio, irritação e distância. O menino deseja chegar à família. O fazendeiro quer cumprir a promessa sem criar laços ou fazer perguntas demais.
O roteiro escrito por Chris Charles, Danny Kravitz e Robert Lorenz encontra sua parte mais humana nessa convivência. Jim trata a viagem como uma missão militar, com destino definido e pouca conversa. Miguel, porém, não é uma encomenda que pode ser colocada no banco do passageiro. Ele sente medo, fome, saudade e raiva. Cada parada revela que a tarefa exige mais do que pontaria e experiência com armas.
Sarah Pennington (Katheryn Winnick), enteada de Jim e agente da patrulha de fronteira, conhece as dificuldades financeiras do fazendeiro e tenta ajudá-lo. Ela representa uma ligação possível com as autoridades, mas Jim sabe que o cartel possui recursos para localizar Miguel. Sua escolha de seguir por conta própria deixa os dois passageiros com proteção limitada, pouco dinheiro e uma longa distância pela frente.
A estrada guarda novos riscos
Mauricio (Juan Pablo Raba) lidera a perseguição com a frieza de quem não aceita perder o alvo. Ele e seus homens atravessam a fronteira e seguem os rastros deixados durante a viagem. Uma compra, um cartão usado ou uma parada mal escolhida pode revelar onde Jim e Miguel estão. O suspense nasce dessa diferença de recursos. O cartel dispõe de veículos, armas e contatos, enquanto o fazendeiro conta com uma caminhonete cansada e conhecimentos adquiridos décadas antes.
“Na Mira do Perigo” usa postos de gasolina, hotéis e estradas secundárias para manter a sensação de ameaça. Esses espaços poderiam oferecer descanso, mas viram pontos de exposição. Jim precisa escolher onde dormir, em quem confiar e quanto tempo pode permanecer num lugar. A viagem ganha urgência porque os criminosos diminuem a distância sempre que ele deixa algum registro pelo caminho.
Robert Lorenz trabalha a ação sem transformar Jim numa figura indestrutível. O ex-fuzileiro sabe atirar e observar o terreno, mas sente o peso da idade, sofre com a falta de dinheiro e comete erros. Liam Neeson leva ao personagem um cansaço que combina com sua situação. Jim perdeu a esposa, pode perder o rancho e agora precisa manter vivo um menino que mal aceita conversar com ele.
Liam Neeson longe da invencibilidade
O papel pertence a uma categoria bastante conhecida na carreira de Liam Neeson. Mais uma vez, o ator interpreta um homem experiente obrigado a enfrentar criminosos para proteger alguém vulnerável. “Na Mira do Perigo” não esconde essa fórmula e tampouco apresenta grandes novidades dentro dela. A diferença está no tom mais contido e na atenção dada ao vínculo entre Jim e Miguel.
Neeson interpreta o fazendeiro com poucas palavras e gestos econômicos. Seu personagem guarda sentimentos atrás de uma postura severa, mas a convivência com Miguel revela pequenas mudanças. Jim começa preocupado em cumprir uma obrigação. Aos poucos, passa a prestar atenção nas necessidades do menino e percebe que chegar a Chicago dependerá também da confiança entre os dois.
Jacob Perez oferece a Miguel uma mistura convincente de fragilidade e resistência. O garoto não aceita Jim somente porque o roteiro precisa unir a dupla. Ele desconfia, questiona e preserva a memória da mãe. Essa reação impede que a relação fique açucarada. O afeto surge em ações pequenas, muitas vezes cercadas por impaciência. Até uma refeição pode virar uma negociação diplomática entre um homem teimoso e uma criança igualmente decidida.
Ação conhecida com coração sincero
Juan Pablo Raba interpreta Mauricio sem transformar o criminoso numa caricatura barulhenta. O personagem exerce pressão por meio da persistência e da violência. Sua aproximação muda o ritmo da viagem e obriga Jim a abandonar qualquer esperança de passar despercebido. Katheryn Winnick tem participação menor, mas Sarah ajuda a situar o passado do protagonista e as razões pelas quais ele insiste em conservar a propriedade.
A direção mantém a câmera próxima dos viajantes e reserva os momentos de ação para situações nas quais uma escolha muda a posição dos personagens. O interesse maior permanece na convivência dentro da caminhonete. O roteiro observa duas pessoas feridas que precisam dividir espaço antes de dividirem confiança. Essa simplicidade favorece Liam Neeson, ator capaz de transmitir tristeza sem transformar cada lembrança numa declaração solene.
“Na Mira do Perigo” segue uma rota previsível e pode soar familiar para quem acompanha os filmes recentes de Neeson. Ainda assim, a produção encontra alguma delicadeza na relação entre Jim e Miguel. A aventura oferece perseguições, armas e criminosos, mas preserva espaço para o luto e a responsabilidade. Jim entra na estrada para cumprir uma promessa. Cada quilômetro torna essa promessa mais pessoal, enquanto Mauricio se aproxima da caminhonete e diminui o tempo disponível para chegar a Chicago.

