Steven Spielberg levou o público a um futuro marcado pelas mudanças climáticas, pela escassez de recursos e pela presença de robôs entre humanos. Em “A.I.: Inteligência Artificial”, David (Haley Joel Osment) é criado para amar e entregue a uma família que sofre com a doença do filho biológico. Quando o garoto retorna para casa, o pequeno androide perde o lugar que acreditava ter conquistado e parte em busca de uma maneira de se tornar humano.
O derretimento das calotas polares elevou o nível dos oceanos e deixou várias cidades costeiras debaixo d’água. Com menos áreas habitáveis, os governos passaram a controlar o crescimento da população. Os robôs, conhecidos como mechas, assumiram tarefas antes destinadas aos seres humanos. Eles trabalham, prestam serviços e obedecem aos donos, mas continuam vistos como produtos substituíveis.
Nesse cenário, o professor Allen Hobby (William Hurt), responsável por uma empresa de tecnologia, apresenta uma novidade ambiciosa. Sua equipe desenvolveu David, o primeiro menino artificial programado para amar uma mãe de maneira permanente. A ideia parece revolucionária, embora ninguém tenha pensado muito no que fazer quando esse afeto deixa de ser desejado. Criar um coração eletrônico é simples perto da responsabilidade de acolhê-lo.
Henry Swinton (Sam Robards), funcionário da empresa, aceita levar David para casa. Seu filho, Martin (Jake Thomas), permanece em criostase enquanto os médicos procuram uma cura para uma doença grave. Henry acredita que o androide poderá preencher parte da ausência. Monica Swinton (Frances O’Connor), sua mulher, recebe a proposta com desconforto, pois ainda espera recuperar o menino verdadeiro.
David chega à residência com roupas infantis, fala educada e um olhar atento a cada movimento de Monica. Ele observa a rotina familiar, segue a nova mãe pelos cômodos e tenta descobrir qual comportamento poderá lhe garantir um lugar. Monica demora a se aproximar, mas acaba pronunciando o código que ativa o vínculo afetivo do androide. A decisão muda a relação entre os dois, pois o amor de David passa a ser permanente e não poderá ser simplesmente desligado.
O filho verdadeiro volta para casa
A convivência ganha outro rumo quando os médicos descobrem um tratamento para Martin. O garoto retorna e reassume seu espaço na família, cercado pelos pais, pelos brinquedos e pelas lembranças que David jamais viveu. Para Monica e Henry, aquela volta representa uma alegria esperada durante anos. Para David, significa perder a posição que julgava ocupar.
Martin percebe a ingenuidade do androide e começa a provocá-lo. Ele apresenta jogos, desafios e comparações que expõem as diferenças entre os dois. David tenta copiar o irmão porque acredita que a semelhança poderá garantir o carinho de Monica. Seu esforço, porém, produz situações perigosas e aumenta a preocupação dos adultos.
A rivalidade entre os meninos transforma pequenos episódios domésticos em provas de pertencimento. Martin tem história, parentesco e direitos reconhecidos. David possui apenas uma programação afetiva que não admite interrupção. Haley Joel Osment interpreta essa condição com contenção. Seus gestos são delicados, a fala permanece serena e o olhar revela um menino incapaz de compreender por que o amor oferecido não basta para mantê-lo dentro daquela casa.
Monica passa a viver entre o carinho que desenvolveu por David e o medo de que sua presença coloque Martin em risco. Henry assume uma postura mais fria e recorda que o androide pertence à empresa. A família que o recebeu como filho volta a tratá-lo como equipamento. Spielberg deixa uma questão incômoda pairar sobre a residência. O problema está na criança artificial ou nos adultos que ativaram um sentimento sem garantir proteção?
O abandono muda a história
Após uma série de incidentes, Monica decide afastar David. Ela sabe que entregá-lo à empresa poderá levar à destruição do modelo, por isso o deixa em uma floresta ao lado de Teddy, um urso robótico que acompanhava Martin. A despedida ocorre sob a incompreensão do menino, que pede outra oportunidade e promete mudar seu comportamento.
David interpreta o abandono a partir da história de “Pinóquio”. Se o boneco de madeira conseguiu virar criança, talvez a Fada Azul possa realizar a mesma transformação com ele. O androide passa a acreditar que Monica voltará a amá-lo quando ele se tornar um menino de verdade. A partir dessa esperança, deixa a floresta e inicia uma busca por alguém que possa atender ao pedido.
Teddy permanece ao seu lado e traz leveza às situações mais tensas. Pequeno, prudente e bastante sensato, o urso costuma demonstrar mais juízo do que muitos humanos presentes na história. Sua companhia também impede que David fique completamente sozinho depois de perder a família.
A floresta revela um universo distante da casa dos Swinton. Robôs abandonados procuram peças entre restos metálicos para continuar funcionando. Eles vivem escondidos porque grupos humanos organizam espetáculos nos quais mechas são destruídos diante de plateias. A violência surge do ressentimento contra criaturas fabricadas para substituir trabalhadores, parceiros e empregados.
David é capturado junto com outros robôs, mas sua aparência infantil causa dúvida entre os espectadores. Destruir uma máquina velha parece diversão para aquela multidão. Desmontar um menino diante do público já provoca outra reação. A semelhança com uma criança lhe oferece uma chance de escapar, embora também aumente a confusão sobre sua existência.
Gigolo Joe entra na busca
Durante essa passagem pelo mundo dos mechas descartados, David conhece Gigolo Joe (Jude Law), um robô criado para oferecer companhia amorosa. Elegante, falante e muito mais experiente, Joe está sendo perseguido por um crime que não cometeu. Ele aceita acompanhar o menino e usa seu conhecimento das cidades para procurar informações sobre a Fada Azul.
Jude Law dá ao personagem uma segurança divertida, marcada pelos passos calculados e pela habilidade de transformar qualquer lugar em palco. Joe conhece os desejos dos adultos, enquanto David ainda acredita na lógica dos contos infantis. Um foi fabricado para seduzir. O outro nasceu para amar. Ambos dependem das necessidades humanas e podem ser descartados quando deixam de agradar.
A dupla segue para Rouge City, uma cidade repleta de luzes, anúncios e atrações voltadas ao prazer. Ali, David consulta o Dr. Know, um serviço capaz de responder perguntas mediante pagamento. As informações recebidas indicam uma possível ligação entre a Fada Azul e Manhattan. David aceita a pista porque não possui outra forma de reencontrar Monica.
A aventura cresce sem abandonar a tristeza que acompanha o protagonista. Cada lugar visitado apresenta novos recursos tecnológicos, mas nenhum deles resolve a falta deixada pela mãe. David atravessa cidades, enfrenta perseguições e procura seu criador, sempre movido pela mesma esperança. Ele acredita que uma mudança física poderá recuperar o afeto perdido.
Spielberg observa os humanos
“A.I.: Inteligência Artificial” mistura drama familiar, aventura e ficção científica sem transformar a tecnologia em mero adereço. Os robôs possuem tarefas determinadas, donos e prazo de utilidade. Quando deixam de atender às expectativas, são abandonados, perseguidos ou substituídos. David ocupa uma condição ainda mais cruel porque foi programado para conservar um sentimento que seus criadores podem rejeitar.
Spielberg filma o menino com proximidade e permite que o público acompanhe sua confiança, sua confusão e sua persistência. O ritmo sofre em alguns trechos, sobretudo quando a história deixa a intimidade da família e passa por muitos ambientes. Ainda assim, a atuação de Haley Joel Osment mantém o interesse e dá unidade às mudanças de cenário.
Frances O’Connor também oferece uma interpretação sensível para Monica. Ela ama Martin, sente culpa diante de David e toma decisões que deixam marcas profundas. A personagem nunca parece inteiramente confortável com o papel de mãe adotiva de uma máquina. Sua hesitação fornece ao filme uma de suas dores mais humanas.
Lançado há mais de duas décadas, “A.I.: Inteligência Artificial” imagina uma tecnologia capaz de desenvolver vínculos antes que os seres humanos estejam preparados para assumir responsabilidade por eles. David cruza um mundo gigantesco carregando um desejo bastante simples. Ele quer voltar para casa e ser amado por Monica. Essa busca sustenta a história e transforma um menino artificial em sua presença mais humana.

