Ava Faulkner (Jessica Chastain) ganha a vida executando pessoas escolhidas por uma organização clandestina. Ela viaja por diferentes países, usa identidades falsas e cumpre missões planejadas para parecerem acidentes ou mortes naturais. Há, porém, um hábito que começa a preocupar seus superiores. Antes de matar, Ava pergunta aos alvos o que fizeram para merecer aquela sentença. Em “Ava”, lançado em 2020, o diretor Tate Taylor acompanha uma assassina que perde a proteção dos empregadores após questionar suas ordens e comprometer uma operação importante.
A missão que piora sua situação ocorre na Arábia Saudita. Ava deve eliminar um general alemão sem deixar sinais de assassinato, mas recebe informações incorretas sobre o disfarce que usará. A falha desperta a atenção dos seguranças e transforma uma operação discreta em uma sequência de tiros e luta corporal. Ela consegue escapar, embora o número de mortos torne impossível esconder que o plano saiu do controle.
O episódio confirma uma suspeita dentro da organização. Ava continua eficiente, mas já não cumpre suas ordens com a frieza esperada. A personagem está sóbria há algum tempo e tenta permanecer longe do álcool e das drogas que quase destruíram sua vida. Essa recuperação também parece ter devolvido uma consciência que sua profissão exige manter adormecida. Para seus chefes, perguntas representam desobediência. Para ela, representam a tentativa de descobrir quem está pagando pelas mortes e por qual motivo.
Duke (John Malkovich) é o homem encarregado de orientá-la. Antigo superior de Ava no Exército, ele também participou de sua recuperação e assumiu uma função paterna em sua vida. Quando a agente volta da missão fracassada, Duke afirma que os dados estavam errados e concede alguns dias de descanso. Sua proteção, contudo, possui alcance limitado. Acima dele está Simon (Colin Farrell), um dirigente educado no tom e brutal nas decisões, que considera Ava um risco para toda a operação.
O retorno para Boston
A licença leva Ava de volta a Boston, onde sua mãe está internada com problemas cardíacos. Bobbi (Geena Davis) recebe a filha com afeto, mas os oito anos de ausência continuam presentes em cada conversa. Ava também reencontra Judy (Jess Weixler), a irmã que permaneceu perto da mãe e carregou sozinha muitas responsabilidades familiares. O encontro possui abraços, ressentimentos e aquele desconforto típico de famílias que guardaram perguntas demais para uma única visita.
A situação fica ainda mais delicada por causa de Michael (Common). Ele foi noivo de Ava e agora mantém um relacionamento com Judy. A antiga intimidade entre os dois continua perceptível, o que transforma um jantar familiar numa reunião em que ninguém sabe muito bem onde colocar as mãos. Judy observa a irmã com desconfiança, Michael cobra os anos de silêncio e Ava tenta explicar sua ausência sem revelar que passou boa parte deles matando desconhecidos em outros países.
Michael também voltou a se envolver com jogos e acumulou uma dívida perigosa. Ava decide ajudá-lo e procura Toni (Joan Chen), responsável pelo local onde ele perdeu dinheiro. O encontro permite que a protagonista use suas habilidades profissionais para resolver um problema doméstico, embora a intervenção tenha um preço. Ao entrar naquela disputa, ela aproxima Judy e Michael do universo violento que pretendia manter distante da família.
A assassina vira o alvo
Enquanto Ava procura consertar os laços pessoais, Simon decide que sua permanência representa um perigo. O problema vai além da operação fracassada. Ela questiona vítimas, busca motivos e pode acabar descobrindo informações que deveriam permanecer enterradas. Simon passa a movimentar agentes contra ela, deixando Duke diante de uma escolha dolorosa entre obedecer à organização ou proteger a mulher que ajudou a formar.
Ava percebe a mudança quando sofre um ataque apresentado como ocorrência casual. A experiência permite que ela reconheça técnicas, movimentos e intenções de alguém treinado. A suspeita cresce porque Duke tenta acalmá-la, mas não oferece uma explicação convincente. Sem acesso aos arquivos da organização e sem saber quantas pessoas receberam ordens para matá-la, Ava precisa identificar os perseguidores enquanto mantém a família longe deles.
O suspense nasce dessa sobreposição. Ava pode sobreviver a uma luta, mas não controla as mágoas de Judy, a saúde de Bobbi nem as dívidas de Michael. Tate Taylor intercala os ataques com reuniões familiares, dando a Jessica Chastain espaço para interpretar uma mulher muito mais confortável diante de uma arma do que diante da própria mãe. A diferença rende algumas passagens leves, sobretudo quando a protagonista tenta participar de encontros comuns carregando segredos suficientes para arruinar a sobremesa.
Jessica Chastain segura o filme
Chastain oferece presença física às cenas de ação sem transformar Ava em uma combatente indestrutível. Ela apanha, perde o fôlego e precisa avaliar cada ambiente antes de agir. Essa vulnerabilidade combina com a recuperação da personagem, que enfrenta uma ameaça profissional enquanto tenta permanecer sóbria. John Malkovich acrescenta cansaço e afeto a Duke, enquanto Colin Farrell interpreta Simon com uma calma que torna suas ordens ainda mais ameaçadoras.
O roteiro de Matthew Newton reúne muitos problemas em pouco tempo. A perseguição da organização, o alcoolismo, o romance interrompido, a rivalidade entre irmãs e a dívida de Michael competem pela atenção. Alguns desses fios recebem menos espaço do que mereciam, e certas relações parecem prontas para um desenvolvimento que nunca chega. Mesmo assim, o enredo permanece compreensível e oferece motivos concretos para cada movimento de Ava.
Jessica Chastain sustenta a assassina competente e a filha constrangida sem tratá-las como pessoas separadas. Seu maior inimigo pode estar dentro da organização, mas sua batalha mais delicada acontece em Boston, onde cada segredo ameaça ferir alguém que ela ainda deseja proteger. Cercada por agentes treinados e conflitos familiares, Ava abandona a espera e prepara a própria defesa antes que seus empregadores alcancem sua mãe, sua irmã e Michael.

