Discover

Em “A Chamada”, suspense de ação lançado em 2023 e dirigido por Nimród Antal, Liam Neeson volta ao território que o transformou em astro tardio do gênero. A diferença é que, desta vez, ele não atravessa a cidade derrubando inimigos com as próprias mãos. Seu personagem, Matt Turner, está preso ao banco do motorista, em Berlim, com os filhos no banco de trás e uma bomba instalada sob seu assento. O perigo começa quando uma ligação anônima avisa que qualquer movimento errado pode matar todos dentro do carro.

Matt Turner (Liam Neeson) é um executivo financeiro bem-sucedido, do tipo que parece conhecer melhor a temperatura do mercado do que o humor da própria família. Ele mora em Berlim, trabalha sob pressão e vive afastado da esposa, Heather (Embeth Davidtz), e dos filhos, Zach (Jack Champion) e Emily (Lilly Aspell). A relação dentro de casa já está desgastada quando ele aceita levar as crianças à escola. O gesto deveria ser simples, quase banal, mas vira uma armadilha quando um celular desconhecido toca no carro.

A voz do outro lado da linha informa que há um explosivo sob o banco do motorista. Matt teria acionado o artefato ao se sentar. Se ele sair do veículo, a bomba detona. Se as crianças tentarem sair, o risco é o mesmo. Se pedir ajuda, também. A partir desse momento, “A Chamada” transforma um trajeto escolar em uma prisão móvel. O carro deixa de ser meio de transporte e vira sala de interrogatório, esconderijo, cela e palco de uma crise familiar que ninguém pode abandonar.

O trabalho invade a família

O roteiro parte de uma tensão simples, mas eficiente. Matt não é apresentado como herói. Ele é um pai ausente, um marido em crise e um profissional viciado em controle. Antes mesmo da ameaça tomar conta da história, ele já está no telefone tentando acalmar um investidor nervoso a pedido do chefe, Anders Müller (Matthew Modine). O detalhe importa porque revela o tamanho do problema. Matt leva os filhos à escola, mas continua preso ao escritório.

Zach (Jack Champion) reage com irritação ao pai. Emily (Lilly Aspell) ainda busca proteção, mas também sente que algo saiu do lugar. O drama familiar não ocupa o filme por acaso. Ele aumenta o desconforto dentro do carro. Matt precisa convencer os filhos a ficarem quietos, obedecer a uma voz desconhecida, atender às exigências do criminoso e manter alguma aparência de calma. Para um homem acostumado a lidar com dinheiro alheio, cuidar da própria família se revela uma operação bem mais complicada.

A presença de Liam Neeson ajuda muito nessa construção. O ator carrega no rosto uma mistura de cansaço, culpa e raiva contida. Ele já viveu homens muito mais preparados para a violência em outros filmes, mas Matt Turner não tem esse luxo. Ele não pode sair correndo, não pode partir para briga e não pode proteger os filhos com força física. Sua única arma é ganhar tempo, enquanto o desconhecido do telefone aperta o cerco a cada ordem.

Berlim sob suspeita

Enquanto Matt tenta seguir as instruções, a polícia passa a enxergá-lo como ameaça. A agente Angela Brickmann (Noma Dumezweni), da Europol, entra na história para rastrear o carro e conter o risco nas ruas de Berlim. Para ela, a situação parece menos uma chantagem contra um pai e mais uma operação perigosa envolvendo um homem ao volante de um veículo com explosivos. Essa inversão aumenta a pressão, porque Matt deixa de fugir apenas do criminoso. Ele também precisa escapar da leitura errada das autoridades.

O filme trabalha melhor quando sustenta essa dupla pressão. Dentro do carro, a voz anônima decide o próximo movimento. Fora dele, viaturas e agentes fecham espaços. Matt tenta provar que não controla a ameaça, mas cada quilômetro percorrido o deixa mais suspeito. Há algo cruel nesse tipo de suspense, porque a vítima parece culpada antes de conseguir explicar o que aconteceu. O relógio corre, as crianças entram em pânico e a cidade vira um mapa de saídas bloqueadas.

Nimród Antal filma boa parte da ação no interior do veículo, o que exige atenção ao rosto dos atores e aos pequenos gestos. Um olhar pelo retrovisor, uma mão que hesita no câmbio, uma criança prestes a abrir a porta. Esses detalhes seguram a tensão quando o roteiro permanece fiel ao espaço apertado. O problema aparece quando a história tenta parecer maior do que é. Algumas passagens soam previsíveis, e certos conflitos parecem desenhados para cumprir etapas conhecidas do gênero.

Neeson ainda segura o filme

Mesmo com limitações, “A Chamada” tem uma qualidade que não deve ser desprezada. Liam Neeson sabe ocupar uma cena de perigo sem exagerar. Ele não precisa explicar o medo de Matt, porque a respiração pesada e o olhar preso no retrovisor dizem bastante. Quando Zach desafia o pai ou Emily pede segurança, o ator encontra uma fragilidade rara em seus thrillers recentes. O personagem quer salvar os filhos, mas também precisa encarar o pai que se tornou antes da ameaça aparecer.

O elenco ao redor dele tem funções bem marcadas. Jack Champion dá a Zach a impaciência de um adolescente que já não compra as promessas do pai. Lilly Aspell interpreta Emily com vulnerabilidade, sem transformar a menina em enfeite de perigo. Embeth Davidtz aparece como Heather, a esposa cansada de ocupar o segundo lugar na vida de Matt. Matthew Modine, como Anders Müller, representa o mundo financeiro que cerca o protagonista. Noma Dumezweni dá firmeza a Angela Brickmann, a autoridade que precisa agir antes que a situação saia de vez do controle.

O humor, quando surge, vem quase por acidente, na distância entre a pose profissional de Matt e a humilhação de vê-lo obedecer a instruções absurdas no trânsito. O homem que lida com grandes cifras não consegue sequer abrir a porta do próprio carro. É uma ironia amarga, mas combina com o filme. “A Chamada” não busca leveza, porém encontra alguma graça seca na falência de um sujeito que passou tempo demais achando que controle era sinônimo de poder.

Suspense eficiente, mas limitado

A maior fraqueza de “A Chamada” está na sensação de déjà-vu. A premissa do carro preso por uma bomba é forte, mas o desenvolvimento nem sempre surpreende. O filme avança por ligações, ameaças, pistas e perseguições, sem escapar muito do repertório já conhecido em thrillers de chantagem. Ainda assim, a narrativa é limpa o bastante para manter o interesse. O espectador compreende o que Matt precisa fazer, o que o impede de agir e por que cada minuto pesa.

Nimród Antal tem bons instantes quando deixa a câmera presa ao rosto de Neeson e aos filhos no banco traseiro. A tensão perde força quando a ação externa assume uma escala mais convencional. Berlim poderia ter mais personalidade, com ruas, distâncias e bloqueios usados de maneira mais marcante. Em vários momentos, a cidade parece apenas um corredor para a próxima ligação. O carro, por outro lado, permanece como o espaço mais forte do filme, porque ali estão o medo, a culpa e a urgência.

“A Chamada” entrega um suspense compreensível, enxuto e sustentado por um ator que ainda sabe dar peso a situações improváveis. Matt Turner (Liam Neeson) passa a história tentando salvar Zach (Jack Champion) e Emily (Lilly Aspell), proteger Heather (Embeth Davidtz) de uma ameaça que chegou tarde demais à porta de casa e convencer Angela Brickmann (Noma Dumezweni) de que não é o vilão daquela manhã. O carro continua rodando porque parar virou a pior escolha possível.


Filme: A Chamada
Diretor: Nimród Antal
Ano: 2023
Gênero: Ação/Mistério/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Leia Também