Há dias em que a vida não desaba de uma vez. Vai caindo aos pedaços, um boleto, uma humilhação, uma ameaça, uma porta fechada, até que a pessoa percebe estar soterrada por coisas que, isoladamente, talvez parecessem pequenas. Tyler Perry ergue “Até a Última Gota” sobre esse acúmulo e entrega a Taraji P. Henson uma mulher que passou tempo demais sendo mandada calar a boca. Janiyah é mãe solo, trabalha, cuida da filha e vive na margem econômica em que um único imprevisto basta para fazer ruir uma semana inteira. O filme acompanha o momento em que a sucessão de golpes a leva ao limite. Henson estrela ao lado de Sherri Shepherd e Teyana Taylor.
Perry nunca teve medo do melodrama e continua não tendo. Seu cinema acredita em emoções expostas, personagens cercados por grandes injustiças e viradas que chegam com estrondo. Em mãos menos cuidadosas, Janiyah poderia transformar-se apenas numa mártir montada para arrancar lágrimas, mas Henson não permite. Há raiva demais naquela mulher para a santidade.
A atriz carrega no rosto a exaustão de quem precisa resolver tudo antes de ter o direito de sentir alguma coisa. Janiyah não tem reserva financeira, rede confiável, patrão compreensivo ou instituições dispostas a enxergá-la como indivíduo. Cada pessoa com algum poder em seu caminho parece acrescentar mais uma exigência, e Perry vai tornando o dia progressivamente insuportável.
É evidente que o mecanismo pode soar calculado. Um desastre segue o outro com uma precisão que às vezes denuncia o roteirista ajeitando peças no tabuleiro. Ainda assim, existe coerência dramática na escalada. Para gente protegida por dinheiro, carro, plano de saúde, parentes e alguma influência, certos transtornos são inconvenientes. Para Janiyah, podem ser definitivos.
O grande cenário do filme termina sendo um banco. Uma operação que deveria ser simples ganha contornos de crise, policiais aparecem, as saídas diminuem e, de repente, aquela mulher que ninguém queria ouvir está cercada por pessoas obrigadas a prestar atenção. É uma ironia cruel. Janiyah só se torna visível quando todos passam a considerá-la perigosa.
Quando o invisível só ganha atenção pelo perigo
Teyana Taylor dá à policial Kay Raymond uma presença que impede a segunda metade de cair inteiramente no jogo de ameaça e resposta. A personagem compreende que há alguma coisa ali que a linguagem oficial não consegue explicar, e a relação à distância entre as duas mulheres produz os melhores momentos do suspense.
Perry exagera, como costuma exagerar, e algumas revelações reorganizam o que vínhamos assistindo de maneira talvez excessivamente conveniente. Não se trata de defeito novo no diretor. Seu cinema prefere atingir o público no plexo a acariciar-lhe o queixo, e “Até a Última Gota” só existe porque aceita essa vocação.
Taraji P. Henson é o elemento que organiza tudo. Janiyah não enlouquece de repente, nem é possuída por uma entidade obscura. Vai sendo empurrada, centímetro por centímetro, até um lugar no qual as regras de quem está seguro já não servem para ela.
Talvez essa seja a parte mais incômoda do filme. Sempre parece haver uma última gota. O problema é que ninguém sabe qual será até o copo transbordar.

