Matar é o ofício de Tyler Rake, mas morrer parece ser seu desejo. “Resgate” se sustenta nessa contradição desde que Chris Hemsworth aparece como um mercenário australiano arruinado por uma dor que o filme revela sem pressa, entregue a trabalhos de que pessoas mais apegadas à vida manteriam distância regulamentar. Quando recebe a missão de entrar em Daca e tirar de lá Ovi, filho adolescente de um chefão do narcotráfico indiano sequestrado por um rival, Rake não enxerga propriamente um menino a salvar. Enxerga uma oportunidade de continuar avançando na direção do abismo. Sam Hargrave dirige o thriller de 2020 e faz de Hemsworth, Rudhraksh Jaiswal e Randeep Hooda os eixos de uma operação que rapidamente sai do controle.
Hargrave compreende uma coisa que muitos diretores de ação esquecem: violência só impressiona quando se sabe onde estão os corpos. Por isso, mesmo nas sequências mais caóticas, a câmera acompanha Rake como se também ela estivesse correndo, tropeçando em escadas, atravessando apartamentos, entrando em carros, saltando telhados, sem a montagem histérica que costuma transformar luta em borrão. Há uma longa sequência no primeiro terço em que a técnica quase vira exibicionismo, mas o diretor segura as rédeas porque Hemsworth dá à coreografia um peso físico verdadeiro. Ele apanha. Cansa. Sangra. Parece sentir.
O menino é o contraponto necessário. Ovi não deseja ser herdeiro de império criminoso algum e tampouco entende por que precisa pagar pelos negócios do pai, e Rudhraksh Jaiswal evita transformá-lo em mascote sentimental do herói. Aos poucos, ele e Rake chegam à intimidade constrangida de duas pessoas que não deveriam estar juntas, mas que passam a depender uma da outra. É quando o filme deixa de ser somente uma formidável exibição de pancadaria.
Rake carrega a culpa de não ter estado onde deveria quando seu próprio filho adoeceu, e “Resgate” sabe que uma explicação simples pode ser mais eficiente que uma tese inteira. O mercenário não protege Ovi porque descubra subitamente a bondade, essa conversão instantânea tão frequente nos filmes americanos. Ele o protege porque reconhece na fragilidade daquele garoto alguma coisa que não conseguiu defender antes. A redenção, aqui, custa caro e não vem acompanhada de música celestial.
Daca vira um campo de sobrevivência
Randeep Hooda acrescenta outra camada interessante como Saju, homem que também tenta recuperar Ovi e cujo caminho se cruza com o de Rake de maneira pouco amistosa. Hargrave consegue evitar por algum tempo o esquema elementar do mocinho e do vilão, porque quase todos agem movidos por obrigações que parecem razoáveis quando observadas de perto. Só os grandes criminosos têm o privilégio da certeza.
Daca aparece como um labirinto fervente, superpovoado, sufocante, e há algo desconfortável no uso de Bangladesh como enorme campo de combate para estrangeiros. O filme nunca resolve essa questão e talvez nem queira enxergá-la. Ainda assim, a geografia claustrofóbica aumenta a impressão de que não há porta de saída, apenas passagens provisórias entre uma ofensiva e outra.
Hemsworth chegou ao personagem carregando Thor nas costas e poderia ter feito de Rake outro semideus. O mérito maior de “Resgate” é justamente obrigá-lo a descer à Terra. Sem martelo, sem capa, sem piada para aliviar cada ferimento, ele descobre que um homem de ação fica muito mais interessante quando, em vez de querer sobreviver a qualquer custo, precisa encontrar uma razão para não morrer.

