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Papai Noel sempre foi um sujeito poderoso, mas ninguém imaginava que o velho de barba branca dispusesse de um esquema de segurança comparável ao de uma potência nuclear, com guarda-costas, equipamentos de vigilância, criaturas mitológicas e uma cadeia de comando para a qual distribuir brinquedos na madrugada de 24 de dezembro é quase uma operação militar. “Operação Natal” parte dessa heresia simpática e a leva tão a sério que, durante alguns bons momentos, Jake Kasdan consegue fazer o impossível: transformar o Natal num filme de espionagem sem matar inteiramente a magia. Dwayne Johnson é Callum Drift, chefe da segurança do Polo Norte; Chris Evans, Jack O’Malley, caçador de recompensas e rastreador de reputação duvidosa convocado depois que Santa Claus, o Red One interpretado por J.K. Simmons, é sequestrado.

Kasdan conhece muito bem o tamanho de Johnson, em todos os sentidos. Já o dirigira nos dois “Jumanji” e sabe que não adianta fazer do ator um cidadão comum, porque o cinema nunca acreditou nisso. Callum é um brutamontes sisudo, um elfo que parece ter passado décadas levantando peso e reprimindo sentimentos, e o filme acerta ao colocar diante dele um Chris Evans deliberadamente mais relaxado, insolente, quase cafajeste. Jack não acredita em nada que não possa lhe render dinheiro, postura especialmente inconveniente quando seu parceiro é um servidor público do espírito natalino.

O desaparecimento de Nick é só o empurrão necessário para que os dois atravessem um mundo no qual a mitologia das festas de dezembro existe de verdade. Krampus, bruxas e outros espantalhos do imaginário cristão e pagão deixam de ser apenas enfeites de uma árvore bastante cara e tornam-se habitantes de um universo paralelo, e é nessa mistura improvável que “Operação Natal” encontra sua melhor personalidade. Kasdan brinca com o infantil sem infantilizar de todo o espectador, embora algumas piadas deem a impressão de terem sido aprovadas por uma comissão de executivos preocupados em não desagradar ninguém.

Há dinheiro demais em cada enquadramento, e isso constitui virtude e problema. As criaturas, as perseguições, os veículos, os efeitos digitais e os cenários abarrotados de luzes dão à produção aquele brilho de shopping center que combina com o Natal contemporâneo, festa religiosa convertida há décadas numa olimpíada do consumo. O filme chega a roçar essa ironia, mas recua sempre que poderia ficar realmente interessante. Seria pedir demais que uma aventura financiada para agradar famílias atacasse com decisão a mercantilização da data, e Kasdan sabe de que lado do caixa está.

Quando o Polo Norte vira operação militar

Lucy Liu aparece como Zoe Harlow, comandante de uma organização que fiscaliza eventos sobrenaturais, enquanto Kiernan Shipka assume o papel da ameaça que põe toda essa engrenagem em movimento. O roteiro gosta de acumular figuras, lugares e regras, mas, no fundo, “Operação Natal” depende de uma coisa muito simples: Callum precisa recuperar a fé nos homens e Jack, ao menos alguma fé em si mesmo.

Johnson não surpreende; faz exatamente aquilo que seus admiradores esperam. Evans é quem areja a brincadeira, aproveitando o prazer bastante visível de encarnar um homem que não precisa salvar a pátria, defender a honra de nenhum uniforme ou permanecer bonito enquanto pronuncia frases edificantes. Seu Jack O’Malley é um irresponsável, e irresponsáveis costumam render histórias melhores.

“Operação Natal” está longe de reinventar o cinema natalino, mas pelo menos compreende que renas voadoras e trenós já não impressionam uma geração criada com super-heróis capazes de desmontar universos. Por isso acrescenta músculos, espionagem, pancadaria e um Papai Noel que malha. Pode parecer um sacrilégio. O verdadeiro milagre é funcionar por tanto tempo.


Filme: Operação Natal
Diretor: Jake Kasdan
Ano: 2024
Gênero: Ação/Comédia/Fantasia
Avaliação: 3.5/5 1 1
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