Criminosos célebres têm uma segunda arma depois que são presos; o fascínio do público. Em algum momento, o horror deixa de pertencer às vítimas e começa a ser apropriado por jornais, programas de televisão, documentários, livros e filmes, todos interessados em compreender o incompreensível e, não raro, em explorar o que deveria provocar apenas repulsa. “Maníaco do Parque” entra nesse terreno pantanoso sabendo do risco. Maurício Eça volta a um dos episódios mais perturbadores da crônica policial brasileira, mas cria Elena, jornalista iniciante vivida por Giovanna Grigio, para dividir a narrativa com Francisco, o motoboy interpretado por Silvero Pereira.
A escolha é inteligente porque evita, pelo menos em parte, que Francisco se torne o proprietário do próprio filme. Elena quer uma grande matéria e percebe na sucessão de desaparecimentos a chance de deixar de ser apenas a moça a quem os homens da redação entregam tarefas menores. A ambição profissional não a transforma numa oportunista; ao contrário, dá ao roteiro um segundo conflito, talvez mais interessante que a simples caçada ao assassino. Há um criminoso nas ruas, mas também há uma redação disposta a reduzir mulheres mortas a manchetes de impacto.
Giovanna Grigio sustenta essa personagem com uma inquietação que vai ficando menos juvenil conforme a investigação avança. Elena começa perseguindo uma história e, pouco a pouco, entende que a história a persegue. Eça usa a repórter como filtro para boa parte do que sabemos sobre Francisco, expediente que funciona melhor quando o filme resiste à tentação de entrar na cabeça do assassino.
Silvero Pereira tem um problema oposto; precisa encarnar alguém conhecido sem cair na imitação de arquivo policial. Seu Francisco é amável quando convém, prestativo quando precisa, comum demais para que se reconheça de imediato o monstro. É nessa banalidade que a atuação ganha força. Os assassinos em série do cinema costumam ser sujeitos de inteligência excepcional, donos de manias excêntricas e frases que parecem escritas para trailers. Aqui, o mal vem de motocicleta, conversa, sorri, mente e seduz. Não precisa de máscara.
O perigo de transformar o criminoso em espetáculo
O filme é menos feliz quando se aproxima das agressões. Há uma fronteira delicadíssima entre mostrar a violência necessária para que o espectador compreenda o horror e convertê-la em espetáculo, sobretudo quando as personagens se inspiram em mulheres reais. Eça nem sempre escapa dessa armadilha. Algumas passagens parecem insistir um pouco além do necessário, como se a brutalidade precisasse ser novamente demonstrada depois de já estar plenamente estabelecida.
Ainda assim, “Maníaco do Parque” encontra um eixo moral ao voltar reiteradamente a Elena e às mulheres em volta do caso. Isso não elimina a velha atração do true crime pelo algoz — seria ingenuidade pretender que eliminasse —, mas desloca o olhar o bastante para perguntar quem ganha quando um monstro vira celebridade.
Há filmes que oferecem ao criminoso uma espécie de imortalidade artística que ele jamais mereceu. Este chega perto do precipício, olha para baixo e consegue recuar na maior parte do tempo. Silvero Pereira dá a Francisco a força ameaçadora necessária, porém é Giovanna Grigio quem impede que ele se apodere de tudo. Talvez a maior vitória de “Maníaco do Parque” seja essa; no fim das contas, o homem que queria controlar suas vítimas não consegue controlar o próprio filme.

