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A civilização moderna desenvolveu uma habilidade admirável para dar nomes científicos ao que teme, cercar o inexplicável com especialistas, instalar refletores, convocar militares e, ao fim, agir como se houvesse dominado alguma coisa. A Noruega de “O Troll da Montanha” é esse país organizado, tecnológico e seguro de si que descobre de maneira nada gentil que certas histórias contadas pelos avós talvez não fossem apenas um recurso para obrigar crianças a ir cedo para a cama. Roar Uthaug arranca um gigante de pedra das montanhas de Dovre e o põe para caminhar em direção à civilização, fazendo com o folclore escandinavo o que japoneses fizeram com seus próprios medos ao dar vida a Godzilla. A diferença é que este monstro tem a aparência da própria paisagem que o homem acreditava ter domesticado.

Nora Tidemann, a paleontóloga interpretada por Ine Marie Wilmann, entra na história porque o Estado precisa de alguém capaz de fornecer uma explicação racional para pegadas grandes demais, destruição demais e testemunhas assustadas demais. O roteiro de Espen Aukan dispõe a personagem entre dois mundos: de um lado, a ciência em que construiu sua vida; do outro, Tobias, o pai de quem se afastou, homem tratado como excêntrico justamente por levar a sério as velhas narrativas sobre trolls. É essa fratura familiar que impede o filme de ser apenas uma coleção de helicópteros, explosões e miniaturas digitais de prédios esmagados. Uthaug sabe que monstros ficam mais interessantes quando alguém os reconhece antes de todos os outros.

O diretor já havia demonstrado em “A Onda” que conhece os prazeres menos nobres do filme-catástrofe, e não renuncia a nenhum deles. Autoridades reúnem-se em salas cheias de telas, militares defendem soluções militares — surpresa alguma — e o bicho segue crescendo na narrativa enquanto seres humanos discutem protocolos. Há muito de cinema americano nesse esqueleto, e por vezes “O Troll da Montanha” parece “Godzilla” transplantado para um país com menos arranha-céus e mais fiordes. O que o salva é precisamente aquilo que Hollywood teria dificuldade de reproduzir: a criatura não veio de outro planeta, não nasceu de radiação, tampouco é resultado de algum laboratório clandestino. Ela estava ali antes de todos, fundida à pedra, transformada em superstição porque a história oficial precisou sepultar aquilo que não lhe convinha.

A criatura que a ciência não explica

Uthaug hesita entre fazer do troll uma fera e uma vítima, e essa hesitação faz bem ao filme. Quando o monstro avança sobre estradas e cidades, existe o prazer quase infantil da destruição em escala, mas também uma melancolia estranha em observá-lo. Ele parece menos empenhado em conquistar o mundo que em tentar compreender onde foi parar o mundo que conhecia. Nora, por seu turno, leva tempo demais para admitir que o pai talvez não estivesse louco, e Ine Marie Wilmann consegue transmitir esse constrangimento sem transformar a reconciliação em choradeira. O filme seria melhor se confiasse um pouco mais nessa ambiguidade e um pouco menos nos arsenais, mas nenhum produtor investe numa criatura de cinquenta metros para mantê-la filosofando atrás de uma montanha.

O resultado virou um fenômeno improvável. Pelo critério atual da Netflix, “O Troll da Montanha” continua no primeiro lugar histórico entre os filmes não falados em inglês, com 103 milhões de visualizações nos primeiros 91 dias. Uma produção norueguesa sobre uma criatura retirada do folclore local conseguiu derrotar longas de cinematografias muito maiores, feito que talvez diga algo sobre a suposta necessidade de tornar histórias “universais” para exportá-las.

O troll nunca precisou aprender inglês. Bastou acordar.


Filme: O Troll da Montanha
Diretor: Roar Uthaug
Ano: 2022
Gênero: Ação/Aventura/Fantasia
Avaliação: 4/5 1 1
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