Famílias passam anos tentando esconder umas das outras justamente aquilo que um jogo de cartas resolve revelar em poucos minutos. Alguém mente, alguém acusa, outro se faz de inocente e, quando todos começam a desconfiar de todos, até o mais pacato jantar pode adquirir a atmosfera de uma conspiração palaciana. François Uzan leva essa brincadeira a sério o bastante para transformá-la em “Lobisomens”, fantasia em que uma família francesa abre um velho jogo, sofre um abalo nada metafórico e vai parar em 1497, numa aldeia onde as criaturas que deveriam existir apenas nas cartas saem à noite à procura de carne humana. A ideia traz “Jumanji” à memória de imediato, mas a presença de Jean Reno acrescenta uma lembrança mais saborosa: trinta anos depois de “Os Visitantes”, o ator torna a se perder no tempo. Agora, no sentido contrário.
Jérôme Vassier, vivido por Franck Dubosc, reúne a mulher, Marie, os filhos e Gilbert, seu pai, numa tentativa não muito inspirada de preservar algum vestígio de união doméstica. Gilbert começa a sofrer lapsos de memória e o jogo parece um modo simples de mantê-lo perto, embora nada naquela casa permaneça simples por muito tempo. Depois de um tremor, os Vassier descobrem que o mundo do lado de fora retrocedeu cinco séculos. Não há internet, cartão por aproximação, sinal de telefone ou qualquer delicadeza civilizatória disponível, mas existem execuções públicas, superstições homicidas e lobisomens. Para voltar ao presente, eles precisam identificar as feras ocultas entre os moradores e vencer a partida em que foram literalmente aprisionados.
Quando o jogo engole a família
Uzan, que também participa do roteiro, percebe que o mecanismo do jogo funciona melhor quando traduzido nas imperfeições dos personagens. Jérôme, o Vidente, passa a ouvir pensamentos; Gilbert, o Caçador, ganha uma força física que sua velhice já não lhe permitia; Clara, adolescente acostumada à visibilidade compulsória das redes sociais, torna-se invisível. A ironia é elementar, mas eficaz. O filme diverte-se com esses contrapontos sem exigir demais deles, e talvez seja esse também o grande limite da aventura. Sempre que “Lobisomens” ameaça explorar com mais ferocidade o que aconteceria se uma família pudesse conhecer o que cada integrante esconde, Uzan corre de volta para a piada seguinte, para uma perseguição ou para alguma nova trapalhada medieval.
Marie, a advogada interpretada por Suzanne Clément, rende algumas das melhores situações quando descobre a condição feminina no fim do século 15 e começa, quixotescamente, a defender mulheres que naquela aldeia sequer imaginam possuir direitos. É um anacronismo deliberado, e o diretor faz graça com as reações dos habitantes, embora tenha prudência suficiente para não transformar uma comédia familiar numa aula ilustrada sobre misoginia medieval. A mesma estratégia aparece quando personagens do vilarejo revelam desejos considerados inaceitáveis naquele mundo. Há alguma sátira, mas ela nunca chega a morder. Quem morde são os lobos.
Jean Reno é a razão mais consistente para que essa viagem tenha uma segunda camada. De volta a 1497, Gilbert parece recuperar não só o vigor físico, mas algo da lucidez que vinha perdendo no presente. O filme poderia explorar essa circunstância até quebrar o coração do espectador, e Uzan prefere aproximar-se e recuar, temeroso de que a melancolia estrague a festa. Não estragaria. Reno sabe ser engraçado com uma secura que dispensa caretas e, quando deixa escapar alguma vulnerabilidade, “Lobisomens” torna-se subitamente um filme melhor que a divertida aventura que vinha sendo até ali.
Jean Reno encontra o coração da aventura
Franck Dubosc e Suzanne Clément sustentam com desenvoltura a confusão, enquanto Lisa Do Couto, Raphaël Romand e Alizée Caugnies completam essa família montada a partir de afetos de procedências diversas, todos obrigados a colaborar justamente quando não conseguem passar alguns minutos juntos sem se irritar. O mistério dos lobisomens acaba menos elaborado do que poderia, e a estrutura de dedução do jogo original perde terreno para a comédia de costumes e para o espetáculo de época. Não chega a comprometer a viagem, mas deixa a impressão de que Uzan encontrou um brinquedo cheio de possibilidades e divertiu-se apenas com metade delas.
No fundo, “Lobisomens” funciona porque entende que aquela ida ao passado não é sobre o ano de 1497. É sobre uma família que já estava desaparecendo muito antes de entrar no jogo. Gilbert perde lembranças; os jovens vivem cada qual na própria órbita; Jérôme tenta comandar uma casa que já não lhe obedece. No meio de uma aldeia em que uma acusação errada pode terminar no cadafalso e criaturas peludas rondam as ruas quando cai a noite, eles finalmente precisam olhar uns para os outros. Jean Reno sabe o que fazer com esse pequeno milagre. Às vezes, é preciso voltar quinhentos anos para não perder o que ainda resta do presente.

