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Há profissões em que errar significa recomeçar, pedir desculpas, perder dinheiro, talvez o emprego. Para quem mata por encomenda, contudo, o erro costuma vir acompanhado de cadáveres que não estavam na conta, e desse tipo de deslize ninguém sai ileso, ainda que continue respirando. “Danos Colaterais” parte de uma ideia tão velha quanto os assassinos elegantes do cinema, mas Nick Stagliano encontra alguma novidade ao fazer de seu protagonista menos um sicário atormentado que um artesão surpreendido pela descoberta de que sua técnica, por mais refinada, não o livra da culpa. Anson Mount encarna esse homem sem nome, conhecido apenas como Virtuoso, um profissional que mede distâncias, calcula ângulos, antecipa movimentos e fala consigo mesmo como se redigisse um manual de instruções para matar. Até que uma inocente morre, e a precisão começa a parecer uma piada de mau gosto.

Stagliano tem manifesta devoção pelo noir clássico, e espalha essa paixão pela tela em estradas vazias, matas escuras, quartos de motel, um restaurante perdido no nada e personagens que parecem ter saído de alguma gaveta secreta dos anos 1940. O diretor queria um filme frio e escolheu as montanhas Pocono, na Pensilvânia, durante o inverno, para que o azul e o cinza acompanhassem a alma do protagonista. Frank Prinzi entende o pedido e compõe imagens nas quais aquele homem parece sempre à beira de desaparecer dentro do próprio sobretudo. Há método, atmosfera e algum requinte. O problema é que Stagliano confia tanto na solenidade de sua proposta que vez ou outra confunde silêncio com profundidade.

Depois do serviço malogrado, o Virtuoso procura o Mentor, seu chefe e espécie de pai profissional, interpretado por Anthony Hopkins. É aí que o filme se descola um pouco da prateleira dos thrillers de matadores e ganha alguma substância. A relação entre os dois não é apenas de patrão e empregado; existe uma intimidade antiga, quase filial, que o diretor explicita numa longa conversa num cemitério. Hopkins faz o que costuma fazer quando recebe pouco espaço e muito texto: reduz tudo ao essencial. Um olhar cansado, uma pausa, a maneira como pronuncia determinada palavra bastam para que se compreenda que aquele velho sabe muito mais sobre o discípulo do que o próprio discípulo. Stagliano chegou a adiar a produção por quase dois anos para não abrir mão do ator. Fez bem.

Uma missão feita para dar errado

A nova missão parece banal, mas é montada como uma armadilha. O Virtuoso deve chegar a uma pequena cidade e eliminar alguém que estará num restaurante às cinco da tarde. Não há fotografia, nome ou descrição física, apenas uma pista. Quando ele entra no estabelecimento, praticamente todos podem ser o alvo: o homem solitário vivido por Eddie Marsan, o policial de David Morse, o tipo suspeito encarnado por Richard Brake ou mesmo a garçonete de Abbie Cornish. Stagliano passa então a manejar a dúvida como principal arma, arrastando a atenção do espectador de um personagem para outro enquanto Mount observa mãos, copos, armas, movimentos de olhos e pequenas hesitações.

Cornish rompe a frieza com uma personagem que se apresenta como alguém simples demais para aquele universo e, justamente por isso, imediatamente suspeita. A garçonete provoca o Virtuoso, aproxima-se, sorri, mede o homem que a mede, e os dois começam um flerte que ameaça desmontar a disciplina responsável por mantê-lo vivo. Stagliano disse ter concebido o filme, no fundo, como uma história de amor entre gente que faz coisas muito ruins, e essa chave ajuda a compreender por que a relação com o Mentor importa tanto quanto a atração pela mulher. O Virtuoso jamais soube amar sem transformar afeto em risco profissional.

Quando a narração pesa mais que o silêncio

O excesso de narração em off pesa. Mount passa tempo demais explicando o que o filme já mostra, como se o público precisasse de um instrutor particular para entender por que um assassino olha para uma porta, evita sentar-se de costas para uma janela ou estranha determinado comportamento. Quando Stagliano cala essa voz e deixa os atores trabalharem, “Danos Colaterais” cresce de imediato. Marsan, Morse e Hopkins sabem muito bem o que fazer com o silêncio, ao passo que Cornish injeta uma energia menos previsível num enredo deliberadamente soturno.

O Virtuoso pensa dominar a arte de matar porque não costuma errar, mas o grande truque de Stagliano é mostrar que excelência técnica e controle são coisas distintas. A culpa entra por uma fresta minúscula e vai contaminando tudo, até aquele homem perceber que algumas vítimas continuam vivas dentro do assassino. Anthony Hopkins sabe disso desde o começo. Anson Mount leva quase duas horas para descobrir. E talvez só então o tal Virtuoso faça jus ao nome.


Filme: Danos Colaterais
Diretor: Nick Stagliano
Ano: 2021
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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