Crianças sabem antes dos adultos que a felicidade pode caber numa embalagem. O problema começa quando crescem e descobrem que quase tudo vem com letras miúdas, preço, prazo de validade e alguma cláusula feita para impedir que o sonho dure mais do que deveria. “A Fantástica Fábrica de Chocolate” parte justamente desse equívoco delicioso. Tim Burton encontra no clássico publicado por Roald Dahl em 1964 um território em que sua imaginação pode correr sem coleira, povoando a tela com engenhocas, cores gritantes, seres minúsculos, doces impossíveis e um homem que enriquecera fabricando prazeres para crianças, embora pareça incapaz de suportar a presença delas. Johnny Depp é Willy Wonka, Freddie Highmore encarna Charlie Bucket, e John August adapta uma história que Burton quis manter próxima do espírito do livro, contando inclusive com a colaboração do espólio do escritor.
Charlie vive numa casa que parece ter desistido de permanecer em pé, espremido entre os pais e quatro avós, mas a pobreza só é mesmo um problema para quem olha de fora. O menino tem fome, claro, usa roupas gastas, dorme sem qualquer luxo, contudo dispõe daquilo que os outros candidatos ao célebre bilhete dourado jamais chegam a compreender. Augustus Gloop come como se tentasse vingar-se do mundo; Violet Beauregarde transforma a competição num vício; Veruca Salt acha que o planeta inteiro é apenas uma extensão do talão de cheques paterno; Mike Teavee já foi engolido pela televisão. Charlie não tem nada e, por uma dessas ironias que só funcionam verdadeiramente nos contos infantis, é o único a quem nada falta. Highmore sustenta essa contradição sem transformar bondade em santidade, uma preocupação que o próprio Burton identificava como decisiva para o personagem.
Quando Wonka abre os portões
Quando os portões da fábrica se abrem, Burton entra definitivamente em casa. O realizador de “Edward Mãos de Tesoura” (1990), “Ed Wood” (1994) e “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça” (1999) sempre foi fascinado por figuras que não conseguem caber no mundo comum e, nesse particular, Wonka talvez seja sua criatura mais evidente. Depp surge pálido, cabelo geometricamente cortado, dentes de uma perfeição inquietante, luvas nas mãos, escondendo-se atrás de uma cordialidade que de tão ensaiada parece uma ameaça. A graça está precisamente aí. Este Wonka não foi feito para ser amado, e a sombra inevitável de Gene Wilder não interessa tanto quanto a impressão de que Depp interpreta um adulto que congelou numa infância mal resolvida e passou décadas tentando convencer-se de que açúcar basta.
Burton e August tornam isso literal ao inventarem uma história familiar para o chocolateiro. Christopher Lee aparece como Wilbur Wonka, dentista rigoroso e pai de Willy, em flashbacks que tentam explicar por que aquele excêntrico milionário entende tanto de confeitos e tão pouco de gente. O diretor admitia que desejava oferecer algum contexto para o isolamento e a estranheza do personagem sem explicar tudo, mas justamente aí o filme fica menos interessante. Mistérios tendem a definhar quando recebem prontuário médico. Wonka é muito mais divertido quando não sabemos de onde vieram seus tiques, seu horror ao contato humano e aquela impressão de que uma palavra errada pode fazê-lo mandar alguém para uma sala da qual talvez nunca mais volte.
A fábrica que Burton construiu de verdade
A fábrica, por outro lado, resiste a qualquer explicação. O rio de chocolate, a sala dos esquilos, o grande elevador e a comunidade inteira de Oompa-Loompas são a expressão mais acabada do gosto de Burton pelo artificial assumido, um universo que não quer parecer verdadeiro porque a verdade estragaria a brincadeira. Deep Roy interpreta sozinho os muitos trabalhadores minúsculos, repetindo coreografias inúmeras vezes para que suas performances fossem combinadas posteriormente, enquanto Danny Elfman empresta a voz às canções construídas a partir dos versos de Dahl. É um trabalho técnico tão insano quanto adequado a um filme que parece concebido por alguém depois de passar a noite trancado numa loja de brinquedos.
No fim, “A Fantástica Fábrica de Chocolate” perde alguma força quando insiste em explicar que família vale mais que fortuna, fábricas, prestígio e montanhas de guloseimas. Charlie já havia mostrado tudo isso sem precisar dizer. Ainda assim, Burton preserva o que existe de deliciosamente cruel em Dahl: crianças terríveis merecem consequências terríveis, adultos que as transformaram naquilo não ficam muito atrás, e talvez o homem mais rico da história seja justamente aquele garoto que volta todas as noites para uma casa torta, come sua sopa rala e sabe exatamente quem estará sentado à mesa. Wonka levou a vida inteira para descobrir uma coisa que Charlie já conhecia antes de encontrar o bilhete dourado.

