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A beleza também envelhece, embora os artistas finjam não saber. Pierre-Auguste Renoir já havia pintado mulheres suficientes para povoar um pequeno país quando o corpo começou a traí-lo, dobrando-lhe as mãos, castigando as articulações, impondo ao homem que fizera da carne, da luz e da cor uma profissão de fé a humilhação de depender dos outros para continuar trabalhando. Gilles Bourdos encontra o pintor nesse crepúsculo, em 1915, na Côte d’Azur, viúvo, doente e atormentado pelas notícias da Primeira Guerra Mundial, entre elas a de que Jean, seu filho, fora ferido. “O Último Verão de Renoir” poderia ter virado a típica reverência engomada a um gênio morto, mas interessa-se por uma coisa bem mais saborosa: o instante em que uma arte começa a se despedir enquanto outra ainda nem sabe que está chegando.

Andrée Heuschling aparece na propriedade dos Renoir como se tivesse sido pintada antes de existir. Ruiva, insolente, muito jovem para aquela casa cheia de velhos hábitos e tão confortável com o próprio corpo que parece desconhecer a invenção da vergonha, ela logo ocupa o lugar de modelo do pintor. Christa Théret compreende que a personagem correria o risco de transformar-se apenas numa superfície voluptuosa sob a luz mediterrânea, a mulher desejada pelo artista, pelo filho do artista e, por consequência, pela própria câmera. Ela reage emprestando a Andrée uma aspereza providencial. A moça quer dinheiro, movimento, diversão, quer escapar de qualquer destino já escrito para ela e não demonstra interesse algum em assumir o papel edificante de musa de um grande homem.

A musa que não aceita moldura

Michel Bouquet, por seu turno, constrói um Renoir que já não precisa provar nada a ninguém e por isso se dá ao luxo de ser desagradável. Há algo quase obsceno na obstinação daquele velho cuja mão não consegue segurar um pincel direito, mas que insiste em pintar jovens nuas como se a morte fosse uma inconveniência administrativa. Bourdos não o santifica. Mostra um homem cercado de mulheres que o banham, o vestem, alimentam-no, preparam suas tintas e tornam possível a continuidade de sua obra, ao mesmo tempo que ele se comporta como se pintar fosse a única atividade indispensável à marcha do universo. É um egoísmo imenso, claro. Também é difícil não admirar tamanha fidelidade à própria obsessão.

A chegada de Jean muda a gravidade da casa. Vincent Rottiers aparece com a rigidez de quem voltou da guerra trazendo um pedaço dela dentro de si, convalescendo não apenas do ferimento, mas de uma juventude que terminara cedo demais. Jean encontra Andrée e a temperatura do filme sobe alguns graus. O diretor não precisa de grandes cenas de sedução; basta aproximar aqueles dois corpos moços num ambiente dominado pela velhice e pela decrepitude para que se compreenda o que acontecerá. Renoir pai percebe depressa. E reage como tantos pais diante da descoberta desagradável de que seus filhos passaram a desejar as mesmas coisas que eles. Andrée é o ponto em que duas gerações se tocam e se repelem.

Quando o filho muda a gravidade da casa

Bourdos entrega boa parte de seu filme à fotografia de Mark Lee Ping Bing, que banha aquele pedaço da França com uma luminosidade que às vezes chega perto do perigo. Há momentos em que “O Último Verão de Renoir” parece encantado demais com a própria beleza, disposto a transformar árvores, lençóis, frutas, pele e água numa sucessão de quadros vivos, como se o simples fato de recordar a pintura impressionista fosse suficiente para produzir cinema. Não é. Quando o filme se esquece um pouco de ser bonito e deixa seus personagens ficarem irritados, egoístas, feridos ou ridículos, torna-se muito melhor. Alexandre Desplat sabe dessa armadilha e sua música aparece sem tentar mandar o espectador sentir o que já está diante dele. A equipe principal reunida por Bourdos incluiu ainda Jérôme Tonnerre no roteiro e Yannick Kergoat na montagem.

Andrée acabaria entrando na história do cinema sob outro nome, Catherine Hessling, tornando-se mulher e atriz de Jean Renoir; o próprio Jean diria mais tarde que começara a fazer filmes em parte porque ela queria ser estrela. Essa informação lança uma sombra especialmente bonita sobre o filme de Bourdos. O velho Renoir olha para Andrée e vê cor. Jean olha para ela e começa, talvez sem saber, a descobrir movimento. Entre os dois está uma mulher cansada de permanecer imóvel para que homens façam arte. “O Último Verão de Renoir” é melhor justamente quando entende que a verdadeira herança daquela casa não estava nos quadros pendurados nas paredes, mas num olhar que passava de pai para filho e já procurava outra maneira de enxergar o mundo.


Filme: Papai
Diretor: Christy Hall
Ano: 2024
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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