Em 1911, Hermann Hesse embarcou para o Oriente decidido a alcançar a Índia que conhecia desde menino pelas histórias de sua família. Passou pela atual Malásia, pela Indonésia e pelo Ceilão, hoje Sri Lanka. À Índia propriamente dita, não chegou. Queria chegar. Não chegou.
O detalhe seria uma miudeza geográfica se, onze anos depois, ele não publicasse “Sidarta”, provavelmente o mais famoso romance ocidental ambientado na Índia e um dos livros que mais contribuíram, no século 20, para fabricar no imaginário europeu e americano aquela terra de rios, ascetas, renúncia, contemplação e sabedoria que tantas gerações de jovens procurariam com mochila nas costas e problemas na cabeça.
A ironia é boa. Fica melhor porque a Índia de Hesse havia começado muito antes da viagem.
A Índia ficava em casa
Nascido em 1877 na pequena Calw, na região alemã da Suábia, o futuro Nobel de Literatura veio ao mundo numa família pietista tão carregada de Índia quanto de cristianismo. Seu avô materno, Hermann Gundert, passara décadas como missionário no sul do país, onde se tornou também um importante linguista e estudioso do malaiala. Sua mãe, Marie, nasceu em Kerala. O pai, Johannes Hesse, também havia trabalhado como missionário. Objetos, histórias, livros e lembranças daquele Oriente distante faziam parte da casa em que o menino cresceu.
Isso não quer dizer, atenção, que a família fosse uma alegre comunidade ecumênica em que Buda e Jesus dividiam democraticamente a cabeceira da mesa. Era uma casa protestante, pietista, severa, comprometida com uma forma de religiosidade cujo objetivo declarado era salvar as almas daqueles povos exóticos, não aprender com eles a meditar.
A infância e a adolescência de Hesse foram marcadas pela guerra contra tudo o que pretendesse enquadrá-lo. Aluno excelente, entrou em 1891 no seminário de Maulbronn, destinado a formar jovens para a carreira religiosa, e fugiu dali poucos meses depois. Aos quinze anos tentou se matar, passou por uma instituição psiquiátrica, escreveu cartas furiosas aos pais e logo abandonou também o ginásio para onde o mandaram. Tentou trabalhar numa fábrica de relógios de torre antes de encontrar seu lugar entre livros, primeiro como livreiro e depois como escritor.
Não é preciso estender um divã de psicanalista por baixo de toda a obra para perceber que alguma coisa desse rapaz sobrevive em boa parte dos personagens que Hesse inventaria, homens jovens ou nem tão jovens às voltas com mestres, sistemas, religiões, escolas, famílias e sociedades que lhes dizem onde está a verdade — ao que eles respondem, com maior ou menor educação, que preferem procurar sozinhos. Antes dele, porém, houve a viagem de 1911.
O Oriente real não colaborou
Hesse tinha 34 anos, era casado, pai e escritor estabelecido quando embarcou com o pintor Hans Sturzenegger numa jornada que seria conhecida como sua viagem à Índia. Era a Índia que ele procurava. Mais precisamente aquela Índia construída desde a infância com histórias familiares, leituras, religiões e a nostalgia de um lugar em que o Ocidente, cansado de si mesmo, imaginava existir outra forma de enxergar o mundo.
A viagem foi fisicamente penosa — Hesse sofreu muito com o enjoo no mar — e espiritualmente decepcionante. Passou por Colombo, no Ceilão, pela Malásia e pela Indonésia, mas não conseguiu chegar ao sul da Índia onde o avô vivera e a mãe nascera. O que encontrou tampouco correspondia àquela espécie de pátria espiritual que levara na bagagem. O descompasso era talvez inevitável. O turista que parte para Paris em busca de Hemingway corre o risco de descobrir uma farmácia onde deveria existir um café; quem procura a Nova York de Woody Allen pode desembarcar numa loja da Apple. Hesse buscava algo mais difícil, uma civilização que sua imaginação preparara durante décadas para representar o contrário da Europa moderna — unidade no lugar de fragmentação, espírito no lugar de materialismo, experiência no lugar de doutrina. Países de verdade costumam resistir a esse tipo de papel.
Voltou decepcionado. E só então, de certa forma, começou a chegar à Índia.
“Sidarta”, publicado em 1922, não é fruto direto daquela viagem, como a cronologia preguiçosa pode levar a supor. Entre o navio de 1911 e o livro houve a Primeira Guerra Mundial, uma devastadora crise familiar, a morte do pai, a doença de um filho, o colapso psíquico da mulher, a depressão do próprio Hesse e dezenas de sessões de análise com Josef Bernhard Lang, discípulo de Carl Gustav Jung. Houve também “Demian”, publicado em 1919 sob o nome fictício de Emil Sinclair, romance de ruptura que transformou Hesse, já quarentão, numa espécie de porta-voz de jovens que voltavam da guerra sem muita confiança na civilização que os havia enviado para morrer.
Quando enfim apareceu, “Sidarta” tinha pouco de diário de viagem. A história se passa na Índia do tempo de Buda e acompanha o filho de um brâmane que abandona a casa, recusa a vida que lhe fora preparada, junta-se a ascetas, encontra o próprio Buda, ouve sua doutrina — e decide não segui-lo. Depois experimenta justamente aquilo de que havia fugido, desejo, dinheiro, sexo, conforto, comércio, tédio. Passa anos ao lado de Kamala e do negociante Kamaswami, engorda por dentro, por assim dizer, até sentir repulsa pela existência que construiu e partir de novo. Termina junto a um rio.
Dito assim, o livro corre o risco de parecer um desses manuais em que um executivo abandona o mercado financeiro para descobrir o segredo da felicidade numa cabana tibetana. Não é.
Buda aparece. Sidarta vai embora.
A chave de “Sidarta” está justamente no gesto que parece mais estranho para quem insiste em classificá-lo como romance budista. Seu protagonista encontra Gautama e vai embora.
Sidarta reconhece a grandeza daquele homem e não põe em dúvida sua iluminação. O que nega é a possibilidade de aprender por meio de uma doutrina aquilo que Buda conheceu pela experiência. Se repetisse o caminho do mestre, estaria traindo o ensinamento mais importante que julgava ter recebido dele. Parece contraditório. É mesmo. Hesse nunca teve medo de contradições. Às vezes gostava até demais delas.
Seus livros são povoados por pares que poderiam ser escritos num quadro-negro — espírito e corpo, disciplina e liberdade, razão e sensualidade, Ocidente e Oriente, Narciso e Goldmund, homem e lobo. Nos momentos mais fracos, tal organização chega perto do esquematismo de uma aula. Nos melhores, o autor monta a oposição apenas para destruí-la, mostrando que os dois lados eram uma simplificação temporária.
É isso que salva “Sidarta” de boa parte da espiritualidade de cartão-postal que sua fama produziu. O livro mistura ideias hindus e budistas com cristianismo, romantismo alemão e as obsessões particulares do próprio Hesse. Procurar nele uma exposição confiável do budismo é cometer o mesmo erro de quem resolvesse estudar história da França pelos romances de Alexandre Dumas. Dá para aprender alguma coisa, sem dúvida, mas convém manter outros livros por perto.
Hesse não fingia ser um sábio indiano. Ao contrário, reconhecia o caráter europeu de sua construção. A Índia de “Sidarta” é uma Índia literária, filosófica, imaginada. Tem tanta dívida com a casa pietista de Calw e com a psicologia que o escritor conheceu durante sua crise quanto com os textos religiosos orientais.
A acusação de exotismo é justa até certo ponto. Há uma evidente operação europeia de seleção. De uma civilização gigantesca, contraditória e historicamente concreta, Hesse extrai aquilo que pode servir a seu projeto espiritual. O problema começa quando cobramos do romance aquilo que ele jamais prometeu ser — antropologia, teologia comparada ou guia de viagens.
Como literatura, sua operação é outra. A Índia fornece a distância necessária para que Hesse volte a tratar da questão que o perseguia desde o seminário. Quem tem o direito de dizer a alguém como viver?
Nem o pai. Nem o professor. Nem a Igreja. Nem o psicanalista. Nem mesmo Buda.
A resposta parece perigosamente próxima do individualismo banal que, décadas depois, ajudaria a transformar Hesse num santo padroeiro da contracultura americana. Morto em 9 de agosto de 1962, ele assistiu apenas ao início da segunda e mais espetacular carreira de seus livros. Em meados dos anos 1960, “Sidarta”, “Demian” e “O Lobo da Estepe” passaram a circular entre jovens interessados em rebelião, drogas psicodélicas, religiões orientais, liberdade sexual e todo tipo de fuga do que se chamava de sistema. Hesse não tinha culpa de quase nada disso.
Nunca foi hippie, não recomendava alucinógenos e provavelmente se espantaria com boa parte dos rapazes cabeludos que passaram a tratá-lo como guru. O fenômeno, porém, não era um completo mal-entendido. Aqueles leitores reconheceram corretamente uma coisa fundamental em sua obra — a desconfiança quase patológica de verdades recebidas prontas.
Seu protagonista passa a vida abandonando respostas. Rejeita a tradição do pai, a mortificação dos ascetas, o ensinamento de Buda, o prazer, a riqueza e finalmente a própria pretensão de encontrar uma fórmula capaz de organizar a experiência. O rio ao qual chega não entrega uma doutrina. Corre.
“Sidarta” permanece nesse ponto incômodo, diante de um rio que não fornece instruções e de um homem que já desconfiou de quase todos os mestres disponíveis. Hesse passou boa parte da vida procurando respostas e outra parte ainda maior abandonando-as. Para ele, talvez fosse o máximo de sabedoria que uma história podia aguentar.

