Quando uma pessoa atingiria o ponto em que poderia considerar-se realizada? Seria ter um emprego, um lar, uma família e um cachorro? Ao termo de tanto autossacrifício, depois do sofrimento sem trégua que devotamos em nos aplicar com gosto, chegamos ao fim de um caminho que não dá em parte em alguma, carregados de muito mais indagações que quando do princípio da travessia, sem saber ao certo o que desejamos. E extenuados de todo. Perseverança é um ativo valioso para Matteo Garrone, como se assiste em “Eu, Capitão”, uma verdadeira saga feita de gente comum. Garrone narra os percalços de dois imigrantes do senegaleses num intrépido êxodo, primeiro para o Máli e daí para a Itália, em busca do sonho europeu. Mas há muitas pedras a vencer.
Odisseia dos degredados
Dizer que Seydou e Moussa querem ganhar dinheiro é uma meia-verdade. Há muito mais em jogo, como Garrone vai deixando claro com a elegância habitual no roteiro coassinado por Massimo Ceccherini e Massimo Gaudioso. Primos e vizinhos numa favela de Dacar, eles juntam suas economias e as escondem num terreno baldio, para não correrem o risco de algum contratempo bancário e evitar que uma das irmãs de Seydou achem o pecúlio e digam para a mãe, que não quer nem ouvir falar disso. O diretor mantém em segundo plano a rotina na casa de Seydou após a fuga, preferindo ater-se à escalada de infortúnios dos garotos, e uma cena no ônibus que os leva até a fronteira entre o Máli e a Argélia serve de introdução para tudo de realmente horrível que eles irão enfrentar.
Boa parte do que vem a seguir refere-se à inesperada separação dos dois, quando Seydou arruma emprego na construção civil e, exausto, sai atrás de Moussa nas horas vagas. O cruzamento do Mediterrâneo, último ato do exílio, ganha a dimensão de uma epopeia, que a atuação vívida de Seydou Sarr — que não por acaso empresta o nome ao protagonista — e Moustapha Fall nos convence de que essa história, infelizmente, é real.

