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O ressentimento é uma herança que ninguém deixa em testamento. Passa de uma geração para outra escondido em pequenas frases, silêncios na hora do almoço, fotografias que ninguém joga fora e histórias familiares repetidas até que já não se saiba onde termina a lembrança e começa a versão conveniente dos fatos. Em “Mulheres Ocultas”, Joseph Chen-chieh Hsu reúne três gerações de uma família taiwanesa em torno de um homem que consegue a proeza de dominar a casa mesmo depois de morto. A matriarca Shoying completa setenta anos no mesmo dia em que recebe a notícia do falecimento do marido, desaparecido de sua vida havia muito tempo. O aniversário vira velório, a festa abre espaço para um acerto de contas tardio e o diretor descobre algo que famílias sabem muito bem: defuntos costumam deixar problemas muito mais vivos que eles.

Shoying não é uma dessas senhoras de cinema cuja velhice serve apenas para evocar ternura. Ela trabalhou, criou as filhas praticamente sozinha, construiu um restaurante de sucesso e aprendeu a conviver com a ausência do marido sem jamais perdoá-lo de verdade. Chen Shu-fang faz dessa mulher uma fortaleza cheia de pequenas rachaduras, algumas tão antigas que já parecem parte da arquitetura. Quando descobre que o morto mantinha uma relação estável com outra mulher, a mágoa que julgava domesticada volta com a violência dos sentimentos que ficaram tempo demais sem nome. O que poderia descambar para uma guerra de viúvas, contudo, é levado por Hsu para uma região muito mais interessante, na qual amor, humilhação e orgulho são coisas difíceis de separar.

As filhas herdaram versões diferentes

As filhas circulam à volta da mãe como testemunhas e cúmplices de um casamento que conheceram por ângulos distintos. Hsieh Ying-xuan, Vivian Hsu e Sun Ke-fang formam com Chen Shu-fang um conjunto no qual ninguém existe apenas para explicar o drama da protagonista. Cada mulher guarda sua própria versão do pai, do abandono e da mãe, e é justamente aí que “Mulheres Ocultas” cresce. Há uma tendência muito humana de imaginar que filhos conhecem os casamentos dos pais só porque cresceram dentro deles; Hsu desmonta essa ilusão com delicadeza, deixando que as personagens descubram uma a uma que as relações mais íntimas talvez sejam precisamente aquelas sobre as quais menos sabemos.

O longa nasceu de uma experiência familiar do próprio diretor e ampliou um curta anterior, mas Hsu não trata a memória como documento sagrado. Ele sabe que famílias falsificam o passado sem perceber, suavizando o que não conseguem suportar e aumentando ofensas que precisam continuar sentindo. A estreia de Hsu em longa-metragem recebeu seis indicações ao Golden Horse, e Chen Shu-fang venceu como Melhor Atriz, reconhecimento justo para uma interpretação que não pede lágrimas ao espectador, embora acabe conseguindo algumas.

A cozinha diz o que falta

A comida tem um papel quase clandestino nesse processo. Shoying fez da cozinha sua maneira de sobreviver, e pratos preparados, mesas cheias e refeições de família funcionam como uma linguagem alternativa para gente que não aprendeu a dizer exatamente o que sente. Hsu volta muitas vezes a esses pequenos rituais sem transformá-los em símbolos excessivamente arrumados. Uma mulher corta, tempera, cozinha, serve; outra senta, reclama, cala. A vida doméstica continua mesmo quando o mundo particular de alguém acabou de ruir, uma das crueldades mais banais da existência.

Talvez por isso a outra mulher seja tão importante. Shoying imagina encontrar uma rival e depara-se com alguém que também conheceu uma parte daquele homem que lhe fora negada. Não há como sair ilesa de uma descoberta assim, mas tampouco há vitória possível. O morto não pode se defender, pedir perdão ou explicar por que escolheu uma vida paralela. Resta às sobreviventes decidir quanto tempo ainda desejam passar casadas com a raiva.

“Mulheres Ocultas” poderia ter sido um melodrama choroso sobre perdão e família, e às vezes chega perigosamente perto dessa facilidade, mas Chen Shu-fang mantém o filme no chão. Shoying não precisa transformar-se numa santa para seguir adiante; basta compreender que carregar um cadáver durante décadas é um trabalho muito cansativo. Joseph Chen-chieh Hsu faz um filme sobre mulheres porque são elas que permanecem quando os homens partem, voluntariamente ou não, e precisam organizar a casa depois. O mais difícil nunca foi enterrar o morto. Foi descobrir o que fazer com tudo o que ele deixou dentro dos vivos.


Filme: Mulheres Ocultas
Diretor: Joseph Chen-chieh Hsu
Ano: 2020
Gênero: Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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