Discover

O Top 10 da Netflix é um bicho de vida curta. Um filme chega, sobe como foguete, passa alguns dias espremido entre continuações, comédias românticas e thrillers feitos para consumo imediato e logo cede lugar ao próximo escolhido pelo algoritmo. Nada contra. Há noites em que tudo o que se deseja é justamente um passatempo que não peça muito. O problema começa quando se confunde popularidade instantânea com grande cinema.

O catálogo brasileiro guarda, neste momento, cinco filmes que pertencem a outra categoria. Dois vieram de uma Hollywood que ainda acreditava que três horas diante de uma tela poderiam ser uma aventura; outro transformou o Oeste americano numa terra moralmente devastada, sem mocinhos à vista; Wes Anderson construiu um hotel imaginário para falar de um continente que desaparecia; e Robert Eggers foi buscar entre vikings, deuses e fantasmas a matéria de uma tragédia que Shakespeare conheceria muito bem.

Não há unidade de gênero, época ou temperamento entre eles, e isso é uma vantagem. David Lean quer o deserto inteiro. Sergio Leone precisa de silêncio e tempo. Os irmãos Coen fazem da violência uma presença quase burocrática. Anderson organiza o caos com precisão de miniaturista. Eggers prefere lama, sangue e superstição. O ponto de encontro é mais simples: todos sabem exatamente que filme querem ser. Num catálogo governado pela novidade, estes cinco lembram que novidade e grandeza nunca foram sinônimos.

01

Lawrence da Arábia (1962)

Épico · Aventura · Drama Direção de David Lean

Thomas Edward Lawrence parece um oficial britânico inadequado até para o próprio uniforme. Arrogante, inteligente, exibido e pouco disposto a obedecer à liturgia militar, ele é enviado ao deserto durante a Primeira Guerra Mundial para observar a revolta dos árabes contra o Império Otomano e termina muito mais envolvido do que seus superiores pretendiam. David Lean abre pela morte de Lawrence e recua, transformando a trajetória desse homem num épico em que a paisagem não serve de decoração. O deserto testa e modifica quem se atreve a atravessá-lo. Peter O’Toole encarna Lawrence como alguém fascinado pela própria capacidade de superar limites, até que bravura e vaidade tornam-se difíceis de separar. A aproximação com o príncipe Faisal e com Sherif Ali, vivido por Omar Sharif, empurra o oficial para uma guerra que ele imagina poder conduzir segundo regras próprias. Não pode. Quanto mais se torna “da Arábia”, menos parece pertencer a qualquer lugar. Lean filma esse deslocamento numa escala que Hollywood quase desaprendeu a bancar, mas o espetáculo nunca engole o personagem.

Por que assistir

David Lean faz do deserto um personagem e de Peter O’Toole o centro de um épico que permanece gigantesco sem perder a dimensão humana. A fotografia de Freddie Young, a montagem paciente e a presença de Omar Sharif transformam aventura histórica em estudo de identidade, vaidade e poder. Pouquíssimos filmes conseguiram combinar escala monumental e inquietação íntima com tamanha naturalidade.

02

Era uma Vez no Oeste (1968)

Ação · Faroeste Direção de Sergio Leone

Jill McBain chega ao Oeste esperando encontrar o marido e uma nova vida, mas desembarca tarde demais para ambas as coisas. A família que a aguardava foi assassinada, a propriedade agora vale muito mais do que parecia e uma estrada de ferro prestes a atravessar aquelas terras transforma a viúva numa peça valiosa para homens que não costumam pedir licença. Sergio Leone instala a personagem de Claudia Cardinale no centro de uma disputa em que dinheiro, vingança e desejo caminham juntos, embora nenhum deles seja exatamente confiável. Ao redor dela movem-se Frank, assassino de fala baixa vivido por Henry Fonda; Cheyenne, bandido com alguma graça e um código próprio; e Harmonica, o homem de Charles Bronson que aparece como se viesse cobrar uma dívida antiga, carregando consigo uma gaita e pouquíssimas explicações. Leone não tem pressa. Deixa olhares, ruídos e esperas ocuparem espaço até que cada personagem revele o que veio buscar. No fundo, todos disputam um mundo que já começa a desaparecer com a chegada dos trilhos.

Por que assistir

Sergio Leone transforma silêncio, espera e enquadramento em matéria dramática, enquanto Ennio Morricone faz a música parecer nascer da própria paisagem. Claudia Cardinale ocupa o centro moral da história, Charles Bronson trabalha quase sem palavras e Henry Fonda desmonta a própria imagem de astro confiável. É um faroeste sobre a morte de uma era filmado como se fosse uma ópera.

03

Onde os Fracos Não Têm Vez (2007)

Crime · Drama · Suspense Direção de Joel e Ethan Coen

Llewelyn Moss encontra no deserto texano uma carnificina, uma carga de drogas e uma mala com dois milhões de dólares. A prudência recomendaria chamar a polícia e seguir a vida. Ele escolhe o dinheiro. Começa então uma perseguição conduzida pelos irmãos Coen com uma frieza quase ofensiva, na qual decisões pequenas produzem consequências enormes e ninguém recebe garantia alguma de chegar ao fim. Josh Brolin faz de Moss um homem esperto o bastante para sobreviver por algum tempo e vaidoso o bastante para acreditar que isso significa vantagem. No encalço dele vem Anton Chigurh, de Javier Bardem, um matador que trata assassinato como questão de método e às vezes entrega a uma moeda a responsabilidade que não pretende assumir. Tommy Lee Jones observa tudo como o xerife Ed Tom Bell, homem cansado diante de uma violência que já não consegue compreender. Adaptando Cormac McCarthy, os Coen fazem um thriller em que o suspense nasce menos dos tiros que da certeza de que alguma coisa muito ruim está sempre alguns minutos atrás.

Por que assistir

Os Coen retiram quase toda a gordura narrativa e deixam em cena apenas homens, escolhas e consequências. Javier Bardem cria um antagonista cuja calma assusta mais que qualquer explosão, enquanto Tommy Lee Jones oferece ao filme sua melancolia. A ausência de trilha musical em boa parte da projeção torna cada ruído ameaçador e faz da violência algo seco, súbito e irremediável.

04

O Grande Hotel Budapeste (2014)

Aventura · Comédia · Drama Direção de Wes Anderson

Um escritor curioso conhece o proprietário quase fantasmagórico de um hotel que já fora símbolo de luxo e agora vive dos ecos de um tempo melhor. A conversa conduz a história décadas para trás, quando o jovem Zero Moustafa trabalhava como mensageiro sob as ordens de Monsieur Gustave H., concierge obsessivo por etiqueta, perfumes, boa educação e senhoras ricas em idade avançada. Ralph Fiennes transforma Gustave num tipo ridículo e elegante ao mesmo tempo, talvez a combinação mais exata do universo de Wes Anderson. A morte de Madame D., hóspede frequente e amiga íntima do concierge, deixa como herança um quadro valiosíssimo e uma família furiosa. Daí vêm uma acusação de assassinato, fuga da prisão, perseguições e uma sucessão de personagens que entram e saem como se o diretor administrasse o próprio hotel. Tony Revolori dá a Zero a ingenuidade necessária para atravessar aquela loucura sem parecer contaminado por ela. Debaixo das cores, dos enquadramentos meticulosos e do humor seco, há uma história sobre amizade e sobre uma Europa que se aproxima de tempos muito menos civilizados.

Por que assistir

Wes Anderson leva sua obsessão por composição, cor e simetria a um ponto em que forma e sentimento deixam de competir. Ralph Fiennes encontra em Gustave um equilíbrio raríssimo entre afetação, comicidade e melancolia. Por trás do brinquedo visual impecavelmente organizado, há uma elegia por civilidade, memória e amizade num continente prestes a descobrir sua face mais brutal.

05

O Homem do Norte (2022)

Ação · Aventura · Drama Direção de Robert Eggers

Amleth ainda é menino quando vê o tio assassinar seu pai, o rei Aurvandill, tomar o trono e levar sua mãe. Ele foge repetindo para si a obrigação de vingar o morto, salvar Gudrún e eliminar Fjölnir. Anos depois, tornou-se um guerreiro de força quase animal, integrado a um grupo que saqueia aldeias sem demonstrar grande interesse pelo que deixa para trás. Robert Eggers não tenta tornar esse universo agradável. Lama, frio, escravidão, rituais e violência fazem parte da ordem das coisas. Alexander Skarsgård constrói Amleth como um homem que passou a vida inteira preparando-se para um único gesto e não sabe muito bem quem será depois dele. Ao descobrir onde está Fjölnir, deixa-se capturar como escravo e segue para a Islândia, onde encontra Olga, vivida por Anya Taylor-Joy, uma mulher que entende mais do que diz e percebe antes dele o custo daquela vingança. Eggers volta à lenda escandinava que inspirou “Hamlet”, mas retira quase toda a hesitação do príncipe. Aqui, destino não é uma ideia abstrata. É uma sentença que o protagonista faz questão de cumprir.

Por que assistir

Robert Eggers trata o mundo viking sem a limpeza ornamental típica dos épicos de estúdio. Alexander Skarsgård faz de Amleth uma massa de músculos movida por uma ideia fixa, enquanto Anya Taylor-Joy introduz inteligência e ambiguidade nessa marcha de vingança. A fotografia, os rituais e a violência física criam uma experiência quase primitiva, como se mito e realidade ainda fossem indistinguíveis.

Leia Também